Luiz Inácio Lula da Silva cogita entregar o Ministério da Fazenda a Geraldo Alckmin caso vença o segundo turno. A possibilidade, revelada pela Reuters e confirmada na terça-feira (6) pela CNN Brasil, está sendo discutida pela campanha como uma maneira de demonstrar “responsabilidade fiscal” e conquistar setores de centro (melhor dizendo, conquistar o apoio das aves de rapina que são os banqueiros).
O PSB, que é o novo PSDB e a quem Alckmin se filiou para fingir se distanciar do neoliberalismo, apoia a indicação. Claro, trata-se de um partido de direita, o partido de Tabata Amaral, agente de Benjamin Netanyahu no Brasil.
A informação mais reveladora está na justificativa do PT. Segundo a CNN, dirigentes petistas avaliam até se Alckmin ainda teria condições de “empolgar o mercado financeiro”, depois de quatro anos ao lado de Lula. A discussão não gira em torno de qual ministro aumentaria salários, ampliaria o investimento público ou enfrentaria os juros. A pergunta é quem oferece mais segurança aos bancos, aos fundos e aos grandes empresários.
O próprio PT reconhece, portanto, para que serviria Alckmin na Fazenda. O tucano seria uma garantia política ao grande capital. E as garantias exigidas por esses setores são conhecidas: pagamento rigoroso dos juros da dívida pública, ajuste fiscal, arrocho salarial, cortes nas despesas públicas e privatizações.
Alckmin tem longa experiência nesse programa.
Antes de virar vice de Lula, foi durante décadas um dos principais dirigentes do PSDB. Como vice-governador de Mário Covas, presidiu o Conselho Diretor do Programa Estadual de Desestatização, isto é, de privatização. A Assembleia Legislativa de São Paulo registrou posteriormente sua condição de coordenador do programa, responsável por algumas das principais privatizações realizadas pelo tucanato paulista.
Em 1998, durante esse processo, a Eletropaulo foi privatizada. Depois, como governador, Alckmin manteve a mesma orientação. Seu governo transformou as chamadas parcerias público-privadas em instrumento permanente para entregar atividades e serviços estatais à exploração dos empresários.
Em 2004, Alckmin sancionou a lei que criou o Programa de Parcerias Público-Privadas de São Paulo. No mesmo ano, seu governo avançou sobre concessões no transporte. Em 2016, autorizou novas concorrências internacionais para entregar à exploração privada grandes conjuntos de rodovias estaduais.
Também em seu governo foi aprovado o projeto de concessão de parques estaduais à iniciativa privada. A autorização alcançou 25 parques, que poderiam ser concedidos por até 30 anos. O método era o tradicional do PSDB: patrimônio público e serviços mantidos pelo Estado transformados em negócio particular.
Alckmin sempre foi um político neoliberal, privatizador e ligado ao arrocho contra os trabalhadores. Não foi a entrada no PSB nem a vice-presidência de Lula que modificou essa trajetória. O tucano apenas encontrou um novo lugar para exercer a mesma política, agora com uma fachada pseudodemocrática.
Sua formação política vem justamente do partido que comandou a maior ofensiva de privatizações do País nas últimas décadas. Sob Fernando Henrique Cardoso, o PSDB entregou empresas estratégicas e setores inteiros da economia aos grupos privados.
A Companhia Vale do Rio Doce foi privatizada em 1997. No ano seguinte, o Sistema Telebrás foi dividido e suas empresas vendidas. Um estudo publicado pelo próprio BNDES registra que, no primeiro governo FHC, 80 empresas foram vendidas em operações que envolveram US$73,3 bilhões, principalmente nos setores de telecomunicações, eletricidade e mineração.
Alckmin não era um estranho a essa política. Era um dos principais quadros do PSDB e aplicava em São Paulo a orientação nacional do partido. Privatização, concessão, arrocho sobre o funcionalismo e redução do investimento estatal constituíram durante anos a marca do tucanato.
É justamente essa experiência que agora aparece como credencial para assumir o Ministério da Fazenda.
A eventual nomeação tampouco representaria uma ruptura com a política aplicada por Fernando Haddad e Dario Durigan. O governo Lula já passou quatro anos tentando provar aos capitalistas que respeitaria os limites impostos às despesas públicas.
Haddad colocou em funcionamento o chamado marco fiscal, pelo qual os gastos do governo ficam submetidos a limites previamente estabelecidos pelos banqueiros. O mecanismo transforma qualquer aumento importante em saúde, educação, salários, aposentadorias e investimento público em um problema fiscal, enquanto o pagamento dos juros da dívida permanece protegido.
Durigan seguiu na mesma direção. O ministro chegou a procurar Pedro Malan e Armínio Fraga, dois nomes centrais da política econômica de Fernando Henrique Cardoso, para discutir medidas fiscais. A aproximação com figuras do antigo governo tucano já indicava até onde o governo estava disposto a ir para demonstrar confiança aos banqueiros.
Alckmin seria uma escolha ainda mais adequada a essa tarefa. Haddad e Durigan, ainda inexperientes para tal empreitada, tiveram de se adaptar às exigências do capital financeiro. O tucano Alckmin passou décadas aprendendo a aplicá-las.
É por isso que expressões como “responsabilidade fiscal” precisam ser traduzidas politicamente. Quando os banqueiros exigem responsabilidade, não estão preocupados com a falta de professores, médicos, hospitais ou moradias. Querem a garantia de que o dinheiro público continuará chegando aos credores da dívida e de que os gastos destinados à população serão sacrificados sempre que necessário para manter as contas exigidas pelo sistema financeiro.
A proposta também mostra o resultado da política da frente ampla. Em 2022, a entrada de Alckmin na chapa foi apresentada como uma concessão necessária para derrotar Jair Bolsonaro. O tucano seria apenas um aliado eleitoral, dizia-se. Quatro anos depois, já se discute entregar a ele o principal ministério econômico do País.
A aliança não empurrou Alckmin para a esquerda. Empurrou o governo para a direita.
Já era absolutamente previsível desde o início que a presença do antigo dirigente do PSDB significava colocar dentro do governo um representante direto da burguesia. Alckmin passou a atuar como interlocutor permanente dos capitalistas e tornou-se uma das figuras mais importantes da frente ampla. O Ministério da Fazenda seria apenas a formalização desse papel.
Mesmo assim, a campanha do PT pretende novamente exigir que os trabalhadores de esquerda aceitem tudo em nome de derrotar Flávio Bolsonaro. A chantagem do “voto útil” exige que o eleitor deixe de lado qualquer crítica a essa falsidade ideológica do governo porque o adversário seria pior.
É uma armadilha política. Para impedir o neoliberalismo da direita, exige-se apoio a um governo que quer entregar o ministério que comanda a economia a Geraldo Alckmin. Para combater privatizações, chama-se um privatizador. Para proteger os trabalhadores do grande capital, procura-se exatamente um funcionário dos banqueiros.
O chamado “mal menor” já colocou o PSDB dentro do governo. Agora pode colocar uma das principais raposas do tucanato no comando direto da política econômica.
Se Alckmin chegar ao Ministério da Fazenda, a política de um eventual novo governo Lula estará anunciada antes mesmo da posse: mais ajuste fiscal, mais concessões aos capitalistas, mais pressão contra as despesas sociais e novas privatizações.




