Segundo turno

Lula: promessas imcumpríveis apenas para conquistar votos

Benefícios anunciados pelo governo mobilizam quase R$ 300 bilhões em 2026; para 2027, Lula promete tarifa zero sem ter maioria para aprová-la

Oito policiais militares que participaram das chacinas nos complexos do Alemão e da Penha terão de responder à Justiça Militar do Rio de Janeiro por invasões de casas, furtos e manobras para impedir a gravação das câmeras corporais, buscando esconder seus crimes.

O tribunal recebeu três denúncias apresentadas pelo Ministério Público estadual sobre fatos ocorridos em 28/10/2025, quando as polícias Civil e Militar entraram nos complexos do Alemão e da Penha. A decisão ainda não é uma condenação. Ela leva a julgamento acusações contra integrantes da tropa enviada aos bairros onde a barbárie policial deixou cerca de 130 mortos.

A apuração não se encerra nesses oito agentes. Até 09/10, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) havia apresentado seis denúncias contra 17 PMs por atos praticados na operação, segundo o Voz das Comunidades. O órgão também investiga o roubo de armas e peças de veículos e terror sobre moradores. Para reconstruir a atuação dos policiais, analisa mais de 3.600 horas de gravações. As imagens já registraram invasões; as manobras atribuídas a alguns agentes podem ter impedido o registro de outros atos ilegais.

Em um dos episódios levados à Justiça, policiais teriam arrombado o portão de uma residência vazia. Um PM também é acusado de pegar um picolé na geladeira de uma casa. Outros teriam tirado as câmeras da farda, guardado os aparelhos onde não poderiam registrar a ação ou coberto suas lentes. O Ministério Público aponta ainda o descumprimento de ordens relativas ao equipamento. Chega aos tribunais, assim, uma prática denunciada pelos moradores desde o dia da chacina: a tropa entrava nas residências como se a população devesse entregar sua casa e seus pertences aos homens armados pelo Estado.

Em março, o Voz das Comunidades já havia noticiado denúncias contra dez integrantes do Batalhão de Ações Com Cães, baseadas em gravações dos próprios policiais. Os vídeos mostravam agentes forçando portas com uma chave micha e um facão, consumindo bebidas encontradas nas casas e carregando objetos retirados de uma residência dentro de um cobertor. Houve piadas sobre o colega que transportava os pertences e uma conversa sobre como distribuí-los entre mochilas e sacos. Pelo menos cinco PMs teriam coberto as lentes ou retirado as câmeras do uniforme. A corporação afirmou que sua Corregedoria investigara os envolvidos e enviara o caso ao MPRJ.

A reportagem que o Diário Causa Operária fez no Alemão depois da operação já havia registrado invasões, móveis quebrados, comida consumida pelos policiais e moradores agredidos. Uma entrevistada relatou que Gabrieli foi presa ao impedir que agentes transformassem sua residência em posição de tiro. Havia duas crianças e uma mulher grávida na casa, segundo o depoimento. As moradoras disseram que Gabrieli foi agredida, algemada e exposta diante dos vizinhos; uma delas acusou a polícia de atribuir falsamente à jovem uma ligação com o tráfico. É uma denúncia distinta dos fatos que levaram os oito PMs à Justiça Militar, mas mostra o que os habitantes enfrentaram enquanto a operação corria pelas ruas.

Denunciar significava arriscar uma nova visita dos policiais. “A favela não pode falar por causa da retaliação deles”, disse uma moradora ao DCO. Na Penha, Robson, da Vila Cruzeiro, afirmou ter visto integrantes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) levarem um homem ferido para um beco e atirarem outra vez. Ele protestou da janela. Segundo seu relato, os policiais pediram seus documentos e tentaram entrar na residência. No dia seguinte, encontrou o carro com os pneus furados e a lataria destruída. O medo de que os agentes voltem pesa sobre quem testemunhou a cena.

As câmeras eram um problema para toda a operação. Moradoras entrevistadas pelo DCO disseram que equipamentos deixaram de gravar logo nas primeiras horas e questionaram a justificativa de falta de bateria. Segundo levantamento do MPRJ divulgado pelo Voz das Comunidades em novembro de 2025, apenas 77 dos 215 agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e 57 dos 128 policiais da Core estavam equipados com câmeras. Os chefes das unidades disseram que não havia baterias sobressalentes; uma ação planejada para durar entre cinco e seis horas prolongou-se por 12. As denúncias recentes acrescentam a esse quadro a acusação de que os agentes obstruíram deliberadamente as lentes.

As imagens preservadas já deram origem a acusações por invasão e furto. As que faltam podem ser decisivas para investigar as mortes. Em fevereiro de 2026, o governo estadual pediu ao Supremo Tribunal Federal mais 20 dias úteis para entregar câmeras e gravações à Polícia Federal. Alegou que precisava organizar o material. Em abril, a Procuradoria-Geral da República cobrava acesso aos laudos completos do Instituto Médico Legal, com protocolos de necrópsia e fotografias. Segundo a PGR, a documentação não havia sido disponibilizada integralmente, impedindo a verificação independente das mortes. As famílias ainda dependiam do Estado que comandou a ação para examinar provas sobre ela.

A chamada Operação Contenção levou mais de 2.500 agentes à Zona Norte, oficialmente para cumprir mandados e combater o Comando Vermelho. Terminou com moradores retirando corpos da mata e alinhando-os na Praça São Lucas. O balanço oficial divulgado em novembro registrou 121 mortos, entre eles 117 civis e quatro policiais. A Defensoria Pública havia informado 134 vítimas fatais. A diferença entre as contagens precisa ser esclarecida; nenhuma das duas permite tratar o resultado como um confronto rotineiro. O DCO também mostrou que apenas quatro dos 51 alvos dos mandados de prisão foram presos durante a incursão. Na ocasião, a Polícia Civil informou que nenhum dos mortos então identificados constava da denúncia que fundamentou a operação. Os números expõem a distância entre a finalidade anunciada e o banho de sangue entregue pelo governo estadual.

Há denúncias de crimes muito mais graves que aqueles já submetidos à Justiça Militar. Moradoras entrevistadas pelo DCO afirmaram que homens cercados na mata da Vacaria receberam ordem para se render e acabaram mortos. Uma delas descreveu facadas, queimaduras e mutilações no corpo de um vizinho que, segundo disse, havia se entregado. Outras falaram de presos agredidos e corpos com sinais de tortura. A investigação dessas acusações exige as gravações, os exames dos corpos e os depoimentos das famílias. A abertura de processos por furtos e obstrução de câmeras não responde quem atirou contra pessoas rendidas, quem comandou a ação na mata e por que tantos morreram.

Os policiais denunciados devem responder pelo que as provas demonstrarem. A responsabilidade pela chacina, porém, não se esgota no comportamento individual de oito homens: a Polícia Militar, a Polícia Civil, seus comandos e o governo estadual organizaram a incursão.

Logo depois, o Partido da Causa Operária exigiu investigação integral, punição dos responsáveis e o fim das polícias. Defendeu que a população escolha os encarregados da segurança em seus bairros e possa destituí-los. Apurar o saque das casas sem alcançar a cadeia de comando e as mortes deixaria de pé a política que levou os agentes ao Alemão e à Penha.

No plano nacional, Lula e o PT respondem à ofensiva da direita com mais poderes para o aparato repressivo. Em março, o governo sancionou a chamada lei antifacção. Agora, na campanha do segundo turno, buscando votos da direita, Lula defendeu reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal nos chamados crimes hediondos. Em vez de enfrentar a política que transforma os bairros pobres em alvos militares, Lula e o PT procuram demonstrar que também sabem endurecer as penas e ampliar a repressão contra o povo.

A chacina no Alemão e a chacina na Penha foram dois crimes monstruosos do Estado brasileiro, cometidos numa única operação que matou cerca de 130 pessoas. Não há pena de morte para crimes comuns no Brasil; uma suspeita de ligação com o tráfico não autoriza a execução de ninguém.

A matança mostra o avanço da ditadura imposta ao povo pelas instituições do Estado da burguesia.

As polícias devem ser extintas. Os trabalhadores precisam organizar sua autodefesa e substituí-las por milícias armadas sob controle dos moradores dos bairros populares.

Lula e o PT capitulam à política da direita, abandonando até mesmo os trabalhadores que disseram representar. Uma alternativa revolucionária só pode nascer da organização independente da classe trabalhadora, sem os patrões e sem o seu Estado.

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