A matéria publicada por Lauro Jardim, em O Globo, segundo a qual Daniel Vorcaro também teria financiado filmes sobre Lula e Michel Temer, veio logo depois da revelação de que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para concluir o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. A reportagem do Intercept Brasil afirmou que mensagens, áudios e documentos indicam uma negociação de R$ 134 milhões para financiar Dark Horse, produção internacional sobre o ex-presidente. A repercussão foi tamanha que a imprensa internacional também tratou o caso como um grande escândalo político envolvendo o pré-candidato bolsonarista.
Diante disso, o que fez a Globo? Em vez de aprofundar a denúncia contra Flávio Bolsonaro, como fez no caso da esposa de Alexandre de Moraes, procurou diluí-la. Publicou uma matéria baseada em “pessoas ligadas a Vorcaro”, sem apresentar um fato novo, sem documento, sem esclarecer em que condições teriam ocorrido os supostos repasses. A própria matéria reconhece que “não se sabe ainda em que condições esses recursos foram dados”.
Ou seja, diante de uma denúncia concreta contra Flávio Bolsonaro, a Globo respondeu com uma insinuação contra Lula.
Quando interessa à burguesia, a imprensa capitalista transforma qualquer indício em escândalo nacional. Quando não interessa, transforma um escândalo documentado em “mais um caso”, colocando tudo no mesmo saco para confundir a população. O objetivo é impedir que a denúncia contra Flávio Bolsonaro se transforme em uma crise política capaz de inviabilizar sua candidatura.
O episódio é muito significativo. A Globo foi, durante anos, um dos principais instrumentos da campanha antibolsonarista da burguesia. Não porque defendesse a “democracia”, mas porque setores decisivos da classe dominante queriam proscrever Jair Bolsonaro (PL), considerado instável demais para conduzir o regime. Agora, no entanto, o sinal é outro. A mesma imprensa que perseguiu Bolsonaro pai procura abrir caminho para um acordo com Bolsonaro filho. Flávio Bolsonaro é, para a burguesia, uma alternativa mais controlável. Não tem o carisma do pai e, assim, não mobiliza as massas da direita com a mesma força.
A rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal já havia mostrado que a direita caminha para uma ruptura mais ampla com o governo Lula. O Senado rejeitou a indicação por 42 votos contra 34, impondo uma derrota histórica ao Palácio do Planalto. O caso revelou uma movimentação que atinge diretamente a candidatura de Lula à reeleição em 2026.
Agora, a operação em torno de Flávio Bolsonaro confirma o quadro. A burguesia não está disposta a apoiar Lula. Precisa de um governo muito mais à direita, muito mais submisso ao grande capital, algo como o governo Javier Milei na Argentina. Para isso, pode aceitar um bolsonarismo sem Bolsonaro, isto é, sem o chefe carismático e perigoso, mas com um representante capaz de entregar o programa econômico exigido pelos bancos.
A política de confiar na Globo, no Judiciário, nos banqueiros e nos grandes empresários se mostra mais uma vez um beco sem saída. Esses setores não são aliados do povo. São os mesmos que impulsionaram o golpe de 2016, sustentaram a prisão de Lula e agora procuram reorganizar a direita para 2026.





