Quando a cantora norte-americana Roberta Flack eternizou Killing Me Softly With His Song, em 1973, a música descrevia uma decepção amorosa lenta e silenciosa. Décadas depois, a imagem “killing me softly”, ou “matando-me suavemente” em português, ajuda a compreender uma dimensão central da crise contemporânea do capitalismo: nem toda violência se manifesta através de bombas, tanques ou cidades em ruínas. Há sociedades destruídas lentamente, por estrangulamento econômico, precarização social e esgotamento cotidiano.
Desde 2022, o imperialismo entrou em uma nova etapa na sua jornada de terror internacional. As guerras provocadas deliberadamente no Oriente Médio, a escalada militar contra a Rússia, o cerco permanente contra países considerados hostis e a intensificação das disputas econômicas e políticas indicam que o capitalismo atravessa uma crise sem precedentes. Diante da incapacidade das elites financeiras globais de abrir mão de seus ganhos parasitários, o sistema parece cada vez mais dependente da destruição para reorganizar suas próprias contradições.
Historicamente, isso não é novidade. Em Imperialismo, fase superior do capitalismo, Lenin analisava como o domínio do capital financeiro e dos monopólios empurrava as grandes potências à disputa violenta por mercados, territórios e zonas de influência. Na etapa atual do capitalismo financeirizado, essa dinâmica parece aprofundar-se à medida que o sistema encontra dificuldades crescentes para expandir suas bases produtivas sem recorrer à destruição econômica e militar.
Mas a guerra contemporânea se manifesta de maneiras diferentes conforme a posição ocupada pelos países dentro da ordem internacional.
Nos territórios colocados diretamente na linha de fogo do imperialismo, a violência assume sua forma explícita: bombardeios, destruição da infraestrutura, assassinatos em massa, colapso institucional e ocupação militar. Gaza talvez seja a expressão mais brutal dessa realidade. O mesmo processo aparece na guerra contra o Irã, na destruição prolongada da Síria e nas intervenções e tentativas de desestabilização contra governos que desafiam, ainda que timidamente, a hegemonia norte-americana, como Cuba e Venezuela.
É o “Killing Me Hard”: a destruição rápida, concentrada e televisionada.
No entanto, existe outra forma de violência histórica menos visível e igualmente devastadora. Em países que não estão sob ataque militar direto, o imperialismo opera através do sufocamento econômico prolongado. É o caso especial da América do Sul, como no Chile e na Argentina. E é exatamente nesse lugar que o Brasil se encontra.
O Brasil não vive sob bombardeios estrangeiros. Nenhum tanque atravessa nossas avenidas. Nenhuma sirene de ataque aéreo interrompe nossas madrugadas. Ainda assim, milhões de trabalhadores vivem permanentemente submetidos a uma guerra social difusa e contínua. Chama a atenção o fato de que os analistas geopolíticos brasileiros progressistas parecem evitar tratar a situação brasileira como parte da guerra mundial. No entanto, é preciso afirmar com todas as letras: o Brasil também está em guerra.
A guerra aparece no preço do gás de cozinha dolarizado em um país produtor de petróleo. Na desindustrialização acelerada que destruiu empregos produtivos e empurrou a população para formas precárias de sobrevivência. Na Operação Lava Jato, que destruiu setores econômicos e provocou um golpe de Estado. Na privatização de empresas estratégicas e na destruição dos serviços públicos como saúde e educação. Na fragilização da pesquisa aplicada e na falta de investimento em tecnologia. No controle social e na violência seletiva das polícias. Aparece na precarização do trabalho, no endividamento das famílias, no desgaste físico e mental de uma população que trabalha para, quando muito, garantir o mês, sem saber do próximo.
O “Killing Me Softly” brasileiro não produz imagens espetaculares para os jornais internacionais. Sua violência é burocrática, financeira e cotidiana. Mata lentamente.
O país vive o paradoxo de ser uma das maiores potências econômicas do mundo, sufocado no papel limitado de ser eternamente o fornecedor mundial de commodities agrícolas e minerais, enquanto boa parte de sua população enfrenta insegurança alimentar, perda de direitos sociais e deterioração das condições de vida. Exportamos petróleo bruto para importar combustível caro. Batemos recordes de safra enquanto cresce a fome nas periferias. A chamada “paz brasileira” esconde uma guerra social permanente administrada através da dívida pública, dos juros elevados e da transferência contínua de riqueza nacional para o sistema financeiro internacional.
Essa dinâmica aprofunda uma anestesia política perigosa. Como não há bombas caindo sobre São Paulo ou Brasília, consolidou-se a ilusão de que o Brasil permanece relativamente protegido da crise mundial. Mas a ausência de destruição militar direta não significa estabilidade. Significa apenas que o país ocupa outro lugar dentro da engrenagem bélica imperialista.
Ao mesmo tempo, a intensificação dos conflitos internacionais também expõe uma contradição nova: a resistência crescente dos povos atacados. Gaza continua de pé e esse gesto sozinho representa vitória. O Irã não colapsou, ao contrário, venceu a guerra. Cuba resiste há décadas ao bloqueio econômico mais longo da história moderna. A Rússia se impõe militarmente e administra uma guerra que venceu. Recentemente, nas nossas fronteiras, a Bolívia juntou-se ao time com uma greve geral que se aproxima de insurreição social aberta, revelando um nível de reação popular que expõe de maneira vexatória o grau de passividade política brasileira.
O elemento mais significativo desse processo talvez seja o fato de que tal capacidade de resistência não estava nos planos imperialistas. Durante décadas, consolidou-se a ideia de que seu poder militar, econômico e midiático era absoluto e incontestável. No entanto, a continuidade da resistência palestina, a capacidade de reação do Irã, a sobrevivência política de Cuba e a radicalização social boliviana começam a produzir fissuras importantes nessa percepção de invencibilidade.
Milhões de pessoas ao redor do mundo observam que, apesar da superioridade militar e financeira das grandes potências, o imperialismo encontra dificuldades crescentes para estabilizar completamente os territórios, governos e populações que tenta subjugar. Essa percepção altera lentamente o cenário político internacional, porque devolve aos povos a noção de que a história avança e de que mesmo estruturas aparentemente incontestáveis podem ser enfrentadas.
Enquanto diferentes povos assumem a vanguarda, com coragem e consciência impressionantes, o Brasil segue preso a uma posição de subordinação passiva dentro da ordem internacional. Pior: permanece voluntariamente preso a um bloco em evidente decadência. A classe dominante nacional e seus empregados políticos, tanto à direita quanto à esquerda, parecem incapazes de entender a conjuntura atual e conceber um projeto real de soberania nacional diante da oportunidade que se abre. É decepcionante ver a esquerda se colocar na posição de administradora passiva do projeto colonialista imposto a um país do tamanho do Brasil.
Em vez de enfrentar a dependência, aceitam a ordem em troca da manutenção de acordos financeiros, exportações primárias e estabilidade política imediata. O país continua sendo entregue gradualmente ao capital internacional ao preço de commodities, juros altos e da destruição silenciosa de sua própria capacidade produtiva.
O resultado é um Brasil que assiste à reorganização do mundo sem protagonismo histórico, preso entre a submissão econômica externa e a incapacidade interna de construir uma direção política à altura da gravidade do momento e à altura de sua importância.
E é justamente aí que a luta de classes se impõe.
As grandes transformações sociais nunca surgiram da boa vontade das elites econômicas, mas do momento em que as condições materiais de existência se tornam insuportáveis para amplas massas da população. A Revolução Russa nasceu do colapso econômico, da fome e da devastação produzida pela Primeira Guerra Mundial. A própria ascensão de movimentos anticoloniais no século XX esteve ligada às contradições abertas pelas guerras imperialistas.
O problema contemporâneo é que o capitalismo financeiro reorganizou o mundo do trabalho. A destruição industrial pulverizou os trabalhadores em uma massa dispersa de prestadores de serviço terceirizados, enquanto as lideranças sindicais se contentaram com um papel institucional, integrando-se ao próprio modelo econômico que diziam combater.
O resultado é um cenário de enorme desorientação política. O Brasil atravessa uma crise histórica sem produzir lideranças capazes de organizar uma reação proporcional à gravidade do momento.
Enquanto isso, o cotidiano segue corroendo lentamente a vida nacional.
Talvez o maior perigo do “Killing Me Softly” seja justamente sua capacidade de naturalizar a destruição. A população aprende a conviver com salários insuficientes, deterioração dos serviços públicos, violência do Estado, insegurança alimentar e exaustão permanente como se tudo isso fosse parte inevitável da vida moderna. Naturaliza-se a guerra permanente e o matar suavemente.
Mas nenhuma dessas tragédias é natural.
A engrenagem que estrangula o trabalhador brasileiro é a mesma que financia guerras, sanções econômicas e operações de desestabilização ao redor do planeta. Ambas fazem parte da tentativa do capital financeiro internacional de preservar uma ordem global cada vez mais instável.
A questão decisiva é saber até quando o brasileiro permanecerá observando a transformação do mundo como espectador passivo, obsoleto e, literalmente, roubado. Porque a história mostra que nenhum povo permanece indefinidamente anestesiado diante da deterioração contínua de suas próprias condições de existência.
Mais cedo ou mais tarde, a realidade rompe o torpor.
Sugestão de debate ao vivo
Análise Política da Semana, de Rui Costa Pimenta, na Causa Operária TV (sábados, 13h): referência indispensável em análise materialista e dialética da conjuntura nacional. Com abordagem histórica, geopolítica e crítica ao imperialismo, o programa interpreta os acontecimentos nacionais e internacionais a partir da luta de classes e das contradições do capitalismo contemporâneo. Análise política aprofundada e espaço raro e privilegiado de debate e reflexão sob o ponto de vista da classe trabalhadora.
Sugestões de leitura
- Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo (Vladimir Lênin): texto clássico indispensável para entender como a fusão do capital bancário com o capital industrial (o capital financeiro) gera, inevitavelmente, a necessidade de expansão geopolítica e partilha do mundo pelas potências hegemônicas.
- O Novo Imperialismo (David Harvey): atualização da teoria imperialista para o século XXI. Harvey introduz o conceito de “acumulação por espoliação”, explicando como o capitalismo contemporâneo privatiza recursos e canibaliza o bem público para sustentar o rentismo financeiro.
- O Capitalismo Dependente Latino-Americano (Vânia Bambirra): disseca a estrutura das classes sociais na América Latina e prova que a burguesia local é incapaz de realizar qualquer revolução nacional ou industrial, atuando apenas como gerente menor do saque imperialista.





