José Álvaro Cardoso

Graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Economia Rural pela Universidade Federal da Paraíba e Doutor em Ciências Humanas pela UFSC. Trabalha no DIEESE.

Coluna

Irã, o desastre norte-americano que antecede a China

A verdade dura é que os EUA perderam a guerra para o Irã, considerada uma etapa preliminar para o confronto principal

Povo Iraniano

Desde o início da guerra do Irã, desencadeada pela agressão dos EUA e Israel, algo em torno de cinco navios têm atravessado diariamente o Estreito de Ormuz (antes do conflito, esse número estava em torno de 138 navios diários). Nas últimas semanas, esse fluxo praticamente foi reduzido a zero. O que não foi interrompido é o comércio de petróleo entre China e Irã, realizado através da Malásia, em volume parecido com o que era movimentado antes do início da guerra. O comércio de petróleo iraniano com a China via Malásia é o mecanismo central que mantém cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã fluindo para a China, segundo o próprio governo dos EUA.

Com a guerra perdida, praticamente toda a energia do governo Trump é consumida com mentiras e bravatas, cada vez mais desacreditadas. O governo de Washington anunciou recentemente a intensificação das sanções, incluindo as secundárias, ou seja, aquelas impostas a terceiros países que comercializarem com o Irã. Os EUA pretendem isolar ainda mais os persas financeiramente, atingindo bancos, navios e empresas de terceiros. Ante as declarações de novas e mais rigorosas sanções, o Irã, duramente castigado desde 1979 por elas, simplesmente as ignorou. A China, que responde por cerca de 30% de todo o comércio exterior iraniano e por 34,6% das exportações do país, rejeitou categoricamente as sanções recém-anunciadas. Esses dois fatos praticamente mataram no nascimento o chamado “Dia D econômico”, anunciado pomposamente pelo governo americano.

Os Estados Unidos vão impor sanções secundárias à China por causa do apoio ao Irã? É difícil que aconteça. O gigante asiático é o maior parceiro comercial dos EUA, e essa dependência afeta preços ao consumidor, inflação e competitividade industrial americana. Inversamente, as exportações americanas para a China (máquinas, produtos químicos, alimentos) sustentam setores inteiros nos EUA. Na área financeira, Pequim detém uma parcela significativa da dívida pública americana, o que dá ao país influência sobre as taxas de juros dos EUA e sobre a política monetária. Além disso, empresas americanas mantêm operações e investimentos substanciais na China, gerando lucros e empregos.

O fato irrefutável nesse processo é que o Irã controla o fluxo de navios no Estreito de Ormuz. Praticamente tudo o que o governo norte-americano fala ou escreve sobre esse assunto é mentiroso. E quanto mais a derrota dos EUA fica evidente, maior o nível de dissimulação. Por exemplo, o governo americano declarou que desminou o Estreito, afirmação que conta com o desmentido de 100% dos observadores e especialistas, que afirmam que os EUA não dispõem de condições para a realização dessa tarefa. O Irã controla absolutamente a geografia do Estreito de Ormuz, o que possibilita o seu domínio, mesmo contra o país que tem o maior orçamento militar do mundo (embora não tenha as forças armadas mais eficientes).

Fora a alternativa nuclear — para a qual qualquer previsão de desfecho é absolutamente incerta —, a única forma de os EUA controlarem o Estreito seria fazer algum tipo de acordo com o Irã, que é o dono da área. O problema é que não há ninguém no Departamento de Estado dos Estados Unidos para se comunicar decentemente com o governo do Irã e fazer diplomacia de verdade. Os Estados Unidos não têm mais diplomacia como arte de Estado, o que seria fundamental para um país que pretende se manter na condição de grande potência. Por exemplo, eles não conhecem a situação política, militar e social do Irã, fato que essa guerra deixou muito claro. O próprio Trump declarou que pensava que, ao assassinar o líder máximo do Irã, Ali Kamenei, o povo fosse se amotinar contra o governo do país. O que aconteceu foi exatamente o contrário: em face da criminosa agressão ao país, a população passou a apoiar ainda mais o governo nacional.

Na guerra contra o Irã, além da inferioridade no campo de batalha, os EUA lutam contra o tempo. As reservas de cerca de 290 milhões de barris são o menor nível desde 1983. Essa reserva cobre cerca de 14 a 15 dias do consumo médio do país, de cerca de 20,3 milhões de barris/dia. O caso dos EUA não é isolado: muitos países imperialistas estão consumindo suas reservas estratégicas de petróleo. Por outro lado, um dos efeitos das sanções secundárias é acelerar o processo de desdolarização, risco que provoca pânico nos estrategistas norte-americanos.

Nas guerras recentes, principalmente na Ucrânia e no Irã, ficou claro que o poder militar dos EUA tem limitações cruciais. Com a intensificação das sanções, há o risco, para o império, de acelerar a diminuição de seu poder de controlar o aparato financeiro internacional. Obviamente, as duas dimensões estão interligadas. O poderio financeiro dos EUA, mesmo sendo o país detentor de uma dívida impagável, em boa parte está assentado sobre seu poderio bélico. Quando o país mostra que não é “aquilo tudo” na área militar, os países atrasados e dependentes se sentem mais encorajados a buscar alternativas financeiras.

Nessa guerra, os especialistas têm apontado várias assimetrias. Uma delas, evidentemente, está relacionada à sofisticação estratégica, área na qual o Irã se encontra a anos-luz à frente dos EUA. Outra assimetria clara é a econômica, especialmente quando se trata de capacidade industrial. Uma das razões para a derrota dos EUA, até aqui, é exatamente sua incapacidade de repor os estoques de armas e munições em tempo hábil. Não se faz guerra sem armas. A capacidade atual dos EUA de produzir rapidamente foguetes e interceptadores não se compara com a do Irã, que se preparou para um evento desse tipo desde, pelo menos, a primeira invasão militar dos EUA contra o Iraque, em 1991, na chamada Guerra do Golfo (Operação Tempestade no Deserto), há 35 anos. O Irã, ao que tudo indica até aqui, montou uma forte base industrial na área de armamentos, preparando-se para o pior. Os EUA praticamente esgotaram seus estoques de mísseis e não conseguiram destruir essa infraestrutura.

Guerra é, antes de tudo, uma competição de capacidade de produção. Não importa quão sofisticada seja a tecnologia ou quão brilhante seja a estratégia: sem capacidade industrial, nenhum país consegue sustentar um conflito prolongado. Uma guerra de alta intensidade hoje queima munição, mísseis, drones e equipamentos a um ritmo que nenhum estoque preexistente consegue cobrir. A indústria não produz só armas, mas também caminhões, trens, navios, combustível (refinarias são alvos estratégicos exatamente por isso), alimentação, uniformes, materiais de construção para linhas de frente e retaguarda, componentes eletrônicos sem os quais sistemas modernos não funcionam.

Mesmo no nível mais alto da escala militar, a indústria nuclear é o pilar da dissuasão. Sem capacidade industrial para manter ogivas, mísseis e submarinos, o guarda-chuva nuclear deixa de existir. O Irã não apenas tem capacidade industrial para gerar produtos nucleares (até o momento visando a fins pacíficos), como também conta com aliados essenciais — China e Rússia — que dispõem de farta tecnologia e infraestrutura para esse tipo de produção e que já fornecem ao Irã. Logística é, no fim das contas, indústria aplicada.

Como se sabe, a guerra contra o Irã compõe uma estratégia norte-americana na qual o prato principal é a China. A Rússia e o Irã seriam as entradas da refeição principal. Mas o plano, definitivamente, não está funcionando. Há um raciocínio elementar que deveria ser levado em conta pelos estrategistas do império. Se os EUA não deram conta de vencer o Irã — que tem PIB equivalente a 1,5% do chinês e população inferior a 7% da população do país asiático —, o que acontecerá se tentarem travar uma guerra frontal com a China? A verdade dura é que os EUA perderam a guerra para o Irã, considerada uma etapa preliminar para o confronto principal. E todo o esforço do governo norte-americano está sendo o de não encarar essa brutal realidade.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.