O artigo Band veta candidaturas de esquerda em seus debates para governador, enquanto abre espaço para a extrema direita, publicado no sítio Esquerda Diário, na última quinta-feira (6), revela o atraso que se instalou na esquerda brasileira e que não parece dar mostras de que será superado tão cedo.
O texto inicia dizendo que “a Band afirma adotar critérios como desempenho em pesquisas eleitorais, representação parlamentar e resultados obtidos em eleições anteriores para definir os participantes. Esses critérios, porém, não impedem que candidaturas da direita e da extrema direita encontrem espaço nos debates, enquanto organizações de esquerda permanecem excluídas”.
Ninguém pode acreditar em critérios divulgados pela imprensa burguesa. Nos debates políticos, as televisões convidam apenas os candidatos que interessam. Elas têm o poder de inventar critérios como índices de intenção de voto, mas podem também convidar um candidato apenas para polemizar ou promovê-lo.
Adiante, o artigo diz que “nas eleições de 2022, por exemplo, candidaturas de esquerda como Vera Lúcia, do PSTU, Léo Péricles, da UP, e Sofia Manzano, do PCB, foram excluídas de debates nacionais, enquanto figuras reacionárias como Padre Kelmon tiveram ampla exposição nos principais veículos de comunicação”.
Que uma emissora burguesa exclua partidos de esquerda não chega a ser novidade. O que chama a atenção no Brasil é que a esquerda tem excluído ela mesma o Partido Causa Operária (PCO). É a mesma atitude da burguesia, que exclui o partido de pesquisas e tenta em vão escondê-lo da população.
Uma esquerda que tanto fala em democracia e que se diz revolucionária jamais poderia ter esse tipo de atitude. Recentemente, Jones Manoel, do PSOL (que até outro dia pertencia ao PCBR), publicou um vídeo defendendo a participação do PCB e do PSTU nos debates. Ao ser questionado por não mencionar o PCO, disse que não se tratava de um partido de esquerda, mas de uma “seita imbecil”, motivo pelo qual não defenderia sua posição.
Um político ou partido que tenha firmeza de suas posições não deve temer o debate. Nesse sentido, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária, deu a seguinte declaração:
“Para nós, a questão é muito simples: achamos que todo mundo tem que participar do debate. Não porque estamos defendendo o nosso peixe, mas porque é uma questão política que pessoas como Jones Manoel não entendem. Em um sistema eleitoral representativo, defendemos, em primeiro lugar, o direito do eleitor, os direitos democráticos do povo. O povo deveria conhecer todos os candidatos e, então, tomar uma decisão. Esse negócio de que o candidato A tem que participar porque é maravilhoso, mas o candidato B não deve participar porque é ruim, é uma política totalmente fisiológica, um primitivismo político. É uma coisa que você esperaria de uma pessoa de extrema direita, não de uma pessoa de esquerda.”
O Esquerda Diário reclama que “não se trata apenas de uma decisão editorial da Band, mas da expressão de um regime eleitoral profundamente antidemocrático, cujas regras foram desenhadas para preservar o monopólio dos grandes partidos e restringir a participação de organizações de esquerda”. Mas o que se tem aí é um problema de classes: a Band, ou seja, a burguesia, tem poder para censurar. Não é como os censuradores mirins que apoiam essa política, mas eles mesmos são censurados. A Band defende os amigos, não a democracia.
Seguindo a tradição revolucionária, Karl Marx era crítico radical da censura. Em seus textos jornalísticos na Gazeta Renana, criticou ferozmente a censura estatal prussiana. Para ele, a censura era uma forma de tutela estatal que tratava os cidadãos como imaturos. Ele defendia a liberdade de imprensa como um direito humano central para o livre desenvolvimento do espírito humano e para a denúncia dos abusos do poder.
“A imprensa livre é o olhar onipresente do povo, a confiança expressa do povo em si mesmo, o elo articulador que une o indivíduo ao Estado e ao mundo. ”
Engels manteve a defesa da liberdade de debate, enfatizando a necessidade imperativa de crítica e discussão aberta dentro do próprio movimento operário e dos partidos socialistas. Ele argumentava que um partido revolucionário definha se proíbe o debate interno e a controvérsia pública. Para ele, a verdade teórica só emerge do confronto de ideias. Segundo pensava, o movimento operário baseia-se na crítica da sociedade existente; portanto, seria uma contradição insanável tentar proibir a crítica dentro das próprias fileiras.
A revolucionária Rosa Luxemburgo, por sua vez, fazia uma defesa aberta do debate público e da liberdade de expressão. Para a revolucionária, o debate público irrestrito e a liberdade de imprensa não eram “luxos burgueses”, mas a própria condição de existência do socialismo. Sem debate livre, a vida pública burocratiza-se e morre.
“Liberdade apenas para os partidários do governo, apenas para os membros de um partido — por mais numerosos que sejam — não é liberdade. A liberdade é sempre e exclusivamente a liberdade daquele que pensa de modo diferente. ”
Lênin, o continuador do pensamento de Marx e Engels, escreveu que a “liberdade de imprensa” no capitalismo significava apenas a liberdade dos ricos para comprar jornais e manipular a opinião pública.
A esquerda precisa abandonar urgentemente essas posições sectárias. Deve defender o debate público como um direito universal, não para um círculo restrito, pois esta é a política burguesa, na qual a esquerda é descartada.





