Partidos da esquerda parlamentar espanhola e as principais centrais sindicais do país aderiram à política imperialista diante dos acontecimentos em Ceuta. Izquierda Unida (IU), Partido Comunista da Espanha (PCE), Comissões Operárias (CCOO) e União Geral dos Trabalhadores (UGT) passaram a apresentar o caso como uma ameaça à soberania da Espanha e a defender medidas de reforço do Estado na fronteira com o Marrocos.
O porta-voz parlamentar da IU, Enrique Santiago, acusou o governo marroquino de tomar Ceuta “como refém” por meio de um “ataque híbrido organizado”. O coordenador federal da organização, Antonio Maíllo, afirmou que o Marrocos estaria “subindo a aposta” e colocando “em perigo” a soberania espanhola.
As declarações colocam a IU no mesmo terreno político usado pela direita para justificar o controle militar da fronteira. Em vez de partir da situação dos trabalhadores e da população pobre que tenta atravessá-la, a organização assume como ponto de partida a defesa do território controlado pelo Estado espanhol.
O discurso também omite um aspecto central das relações entre Espanha e Marrocos: os grandes negócios realizados pelo capital espanhol no país africano.
Capital espanhol lucra no Marrocos
Segundo dados do Instituto Espanhol de Comércio Exterior apresentados no material, a Espanha é o maior investidor europeu e o terceiro maior investidor estrangeiro no Marrocos. Algumas das maiores empresas espanholas possuem operações ou investimentos no país.
Inditex, Mercadona e El Corte Inglés atuam no mercado marroquino. Acciona, Iberdrola, ACS, Cepsa, Gas Natural e Dragados participam de projetos de infraestrutura e energia, entre eles usinas solares e empreendimentos ligados à expansão do setor energético.
Telefónica possui presença no setor de telecomunicações por meio da Meditel. Santander e CaixaBank também operam no país. Empresas como Inditex e Antolín transferiram parte de sua produção para território marroquino, onde encontram custos de produção menores.
A própria indústria armamentista espanhola mantém relações comerciais com o Marrocos. O país é comprador de armas produzidas na Espanha. O mesmo Estado apresentado como uma ameaça por setores da esquerda espanhola é, portanto, cliente das empresas que abastecem suas Forças Armadas.
Nada disso aparece nas declarações de defesa da “soberania nacional”. Os interesses das grandes empresas espanholas permanecem preservados enquanto a população que cruza a fronteira é transformada em problema policial e militar.
CCOO pede sanções
Os sindicatos seguiram caminho semelhante. A UGT declarou “solidariedade com o povo de Ceuta e Melilla” e reivindicou o “restabelecimento da ordem, da segurança e da convivência”.
A CCOO defendeu uma medida ainda mais agressiva: “sanções econômicas e diplomáticas contra Marrocos”. Ángel Lara, secretário-geral da central em Ceuta, classificou os acontecimentos como uma “guerra híbrida” e comparou a situação à incorporação da Crimeia à Federação Russa em 2014.
Ao pedir sanções contra o Marrocos, a central sindical assume uma política de pressão econômica entre Estados sem atacar os monopólios espanhóis que lucram com suas atividades no país. Bancos, grupos de energia, construtoras, redes comerciais e fabricantes de armas ficam de fora das críticas.
A esquerda parlamentar e as direções sindicais acabam, assim, subordinando a questão aos interesses do Estado espanhol. Enquanto exigem controle da fronteira, ordem e punições contra o Marrocos, não apresentam qualquer medida contra as grandes empresas espanholas que exploram trabalhadores marroquinos e mantêm estreitas relações comerciais com o governo do país.



