Polêmica

Identitarismo: uma ideologia reacionária – parte 2

Os identitários gastam energia falando da escravidão colonial para não combaterem a escravidão atual, da classe trabalhadora

Primeira Missa no Brasil - Victor Meirelles (1860)

Na primeira parte (leia aqui) deste debate sobre o artigo, A sexualidade como dimensão material, de Eduardo J. Ferreira Santos, publicado no sítio A Terra é Redonda no dia 6 de maio deste ano, demonstramos como o identitarismo faz uma leitura completamente torta da realidade.

O que o texto diz no início, resumidamente, a sociedade brasileira foi fundada sobre um projeto colonial que hierarquiza corpos e pessoas para legitimar a exploração econômica. E que o racismo e a normatização da sexualidade não são meros detalhes culturais ou “desvios comportamentais”; são tecnologias coloniais que definem quem é descartável e quem é superexplorado no capitalismo brasileiro.

No segundo trecho, também resumindo, é dito que a extrema direita reconhece a concretude das divisões sociais, do racismo e dos supremacismos históricos. Ela não nega essa realidade, mas a instrumentaliza para converter ressentimentos e medos em matéria-prima para criar coesão política, lealdades e base de massas.

Quanto à esquerda, em muitos setores, opera um mecanismo de negação ou silenciamento. Demandas históricas contra o racismo e a homofobia são frequentemente desqualificadas sob os rótulos de ‘identitarismo’ ou “pós-modernismo”. Em casos extremos, as dissidências sexuais já foram tratadas no passado (e ainda hoje em certas seitas) como “degenerações burguesas”.

O que Ferreira Santos faz é fantasiar uma extrema direita, fazer uma espécie de psicanálise desse setor político, o que é uma tendência na esquerda pequeno-burguesa.

Onde se pode constatar que a extrema direita não nega “processo de formação do povo brasileiro e suas contradições, as heranças da colonização e as tecnologias sociais de dominação historicamente constituídas.” E que, “ao contrário, a extrema direita assume tudo isso como parte constitutiva de seus projetos políticos, reconhecendo o papel fundamental dos supremacismos na organização da vida social e seus enraizamentos contraditórios no povo brasileiro”? Isso não passa de um chute, é achismo.

O texto rebuscado do autor leva a lugar nenhum, pois carece de sustentação. Além de ser estéril, é impossível extrair daí uma política quando se afirma que “ao mobilizar essa concretude, as direitas, e sobretudo as facções de extrema direita, estruturam lealdades, produzem inimigos internos, reivindicam uma memória afetiva do seu lugar histórico, buscam reafirmar mitos reacionários de fundação e constroem formas estáveis de coesão política que repercutem na sua potência de agrupamento político no presente.”

É apenas um amontoado de palavras que não chega nem perto de explicar o fenômeno da extrema direita no Brasil. Não fala do esgotamento do neoliberalismo, nem da campanha brutal de perseguição ao Partido dos Trabalhadores desde, pelo menos, 2005 quando a burguesia tentou destruir esse partido.

Não fala da percepção da população, que após duas décadas de gestões petistas a esquerda passou a ser vista como parte do sistema, e que por isso atraiu parte da classe trabalhadora que busca alternativa para seus inúmeros problemas decorrentes da pobreza e do endividamento.

Para se debater com a extrema direita, especialmente com a parcela da classe trabalhadora atraída pelo discurso antissistema, é necessário entender o que está acontecendo.

Segundo o autor, “práticas supremacistas que se realizam concretamente por meio do racismo, da normatização das sexualidades e das hierarquias étnico-culturais – e que organizam a vida social brasileira em múltiplos espaços de relação, públicos e privados – ainda encontram resistência quando colocadas como objeto de enfrentamento político em determinados setores das esquerdas.”

Parece que Ferreira Santos está dizendo que setores da esquerda resistem em combater as tais práticas supremacistas, como o racismo, normatização da sexualidade, etc.

Com relação ao racismo, o autor deveria se perguntar por qual motivo a direita tem aprovado leis contra o racismo que, aliás, seria um crime subjetivo.

Qual é o problema com a “normatização da sexualidade”, é preciso desregulamentar? De certa maneira, é isso que o identitarismo vem fazendo, nega a ciência e quer que homens seja reconhecidos como mulheres caso estes se sintam assim. O mesmo serve para homens trans. O que vale, é o que a pessoa sente. Ainda que um homem trans não seja capaz de produzir espermatozoides, por mais que se sinta do sexo masculino. O mesmo raciocínio serve para as mulheres trans, não vão produzir óvulos.

A intransigência e o autoritarismo dos identitários, inclusive, tem dado munição para a extrema direita, que, acertadamente, é contra a teoria de gêneros. Há setore

Outro ponto no qual setores da direita se apegam é no que diz respeito ao tratamento hormonal em crianças.

O “bloqueio” da esquerda, se é que se pode usar essa expressão, é fruto dessa política descabeçada do identitarismo, que avança sobre os direitos das mulheres, que tenta impor o gênero como uma realidade concreta.

Há setores do feminismo, inclusive de esquerda, que não aceita compartilhar ambientes privativos com homens que se identificam como mulheres.

Em seu texto o autor critica quem não se alinha ao identitarismo, alega que “esse bloqueio das esquerdas não se expressa somente como desconhecimento, ignorância ou atraso teórico. Ele se apresenta, no plano da prática política, como um mecanismo de negacionismo que opera bloqueando deslocamentos históricos necessários à construção de esquerdas capazes de disputar hegemonia, ao mesmo tempo em que preserva posições consolidadas e formas estabelecidas de organização e reconhecimento interno.”

Não é desconhecimento e muito menos ignorância, apenas que ninguém é obrigado a aceitar as maluquices identitárias como, por exemplo, negar a realidade biológica do sexo. Portanto, quem é negacionista?

Continua…

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