Polêmica

Identitarismo coloca a história de cabeça para baixo

Ao transformar a raça em motor da exploração, artigo substitui as relações econômicas concretas por uma explicação moral da história e apaga a luta de classes

Navio Tumbeiro

Há algo curioso em boa parte da produção acadêmica contemporânea. Para sustentar uma ideia relativamente simples, parece necessário convocar uma verdadeira procissão de autores, livros, conceitos e notas de rodapé. O argumento parece adquirir importância não por sua capacidade de explicar a realidade, mas pelo número de sobrenomes colocados entre parênteses.

É o que ocorre em Sobre o identitarismo mor, de Fabiane Albuquerque, publicado em A Terra é Redonda neste domingo (4). O texto recorre a Albert Memmi, Todorov, Quijano, Mbembe, Hall, Sueli Carneiro, Foucault, Fanon e vários outros para sustentar que as identidades dos grupos oprimidos seriam fundamentalmente uma reação a uma identidade anterior e dominante: a do homem branco, europeu, heterossexual e burguês.

O problema não está em reconhecer a existência do racismo. Ele existe, produziu e continua produzindo consequências concretas. Também se sabe que as potências coloniais construíram teorias raciais para justificar massacres, escravidão e dominação. O problema é colocar essa relação de cabeça para baixo.

A autora afirma que, durante a acumulação primitiva do capital, teria sido necessário “hierarquizar o trabalho” e que essa hierarquização “se deu em base à criação de raças para justificar a exploração de umas sobre outras”. Ora, se as raças foram criadas para justificar a exploração, então não foi a raça que criou a exploração.

O ponto de partida precisa estar nas relações materiais de dominação, da apropriação da terra, da produção e do trabalho alheio. A ideologia racial desenvolveu-se historicamente dentro dessas relações, servindo para justificá-las, organizá-las e aprofundá-las. Essa distinção é fundamental.

Civilizações inteiras da Antiguidade conheceram formas extensas de escravidão muito antes da formulação das modernas teorias raciais. Na Grécia e em Roma, a mão de obra escrava ocupou posição importantíssima na economia e na vida social. No Egito antigo também existiram escravos e diferentes formas de trabalho compulsório. Gregos escravizaram outros gregos, romanos escravizaram povos europeus e mediterrâneos e impérios dominaram populações vizinhas. A raça, no sentido moderno, simplesmente não explica essas relações.

A própria opressão da mulher demonstra o mesmo problema. Engels, em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, relaciona sua subordinação histórica ao surgimento da propriedade privada, da herança e da sociedade dividida em classes. Não havia necessidade de diferença racial entre opressor e oprimida. A dominação existia dentro do mesmo povo.

A escravidão negra nas Américas correspondeu a uma etapa histórica específica. A expansão comercial europeia, as grandes navegações, o desenvolvimento técnico-militar e a formação de um mercado mundial permitiram às potências europeias organizar um comércio transatlântico de seres humanos numa escala nunca vista.

Nesse processo, o racismo desempenhou seu papel, o que é diferente de transformá-lo na causa fundamental da exploração. As teorias sobre uma suposta inferioridade natural dos negros serviram para justificar e organizar uma relação econômica que produzia lucros extraordinários. Não foram ideias abstratas sobre a cor da pele que colocaram em movimento plantações, companhias comerciais, frotas e fortunas. Foi o interesse econômico.

O próprio artigo fornece exemplos de como, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, foram elaboradas teorias “científicas” destinadas a apresentar determinados povos como biologicamente inferiores. Aparecem os “zoológicos humanos”, o craniômetro e as teorias de Cesare Lombroso.

A religião cumpriu colaborou em determinados períodos. O nacionalismo reacionário, em outros. Teorias de inferioridade cultural também serviram para justificar conquistas, massacres e saques. O capital, entretanto, não possui compromisso sentimental com nenhuma delas.

Se a identidade racial fosse a base fundamental da dominação imperialista, seria difícil explicar alguns dos principais conflitos contemporâneos.

A destruição da Iugoslávia pelas potências imperialistas não foi um conflito entre “brancos” e “não brancos”. O mesmo vale para o confronto do imperialismo com a Rússia. A identidade racial comum jamais impediu guerras, sanções, bombardeios, desmembramentos territoriais ou tentativas de submissão econômica.

O que interessa ao imperialismo é a dominação econômica e política; nunca deixará de explorar um país porque sua população é branca. Da mesma forma, a burguesia dos países africanos não deixa de explorar a mão de obra assalariada de seus próprios países por ser negra. Em muitos casos, essa burguesia local atua associada aos grandes monopólios e ao capital internacional na exploração dos trabalhadores africanos.

O racismo tem sua realidade e pode determinar quem será segregado, perseguido ou submetido às formas mais brutais de exploração. Mas é preciso distinguir esse papel concreto da ideia de que a raça seria a causa primordial da dominação. Confusão presente em todo o artigo.

A autora sustenta que a modernidade teria construído o homem branco como “ser legítimo e neutro” e que, diante da “dominação da identidade branca e masculina”, tornou-se necessária a afirmação de outras identidades.

Mais adiante, afirma que aquilo chamado de identitarismo seria uma resposta histórica a um processo de “classificação, hierarquização e subalternização dos corpos”. A sociedade deixa de ser apresentada como dividida em classes com interesses materiais antagônicos e passa a aparecer como uma coleção de identidades.

De um lado, a identidade dominante. Do outro, identidades subalternizadas. O operário branco desaparece da análise. Também desaparece a burguesia negra dos países africanos que explora trabalhadores negros. A relação entre capital e trabalho fica em segundo plano. O identitarismo, assim, presta um enorme serviço ideológico à burguesia.

O wokismo é ótimo para uma multinacional poder explorar milhares de trabalhadores e limpa sua ficha promovendo campanhas sobre diversidade. Pode esmagar sindicatos e montar uma direção empresarial “racialmente diversificada”. Por isso vemos bancos como o Itaú investindo em ONGs que se apresentam como defensoras dos negros. Não há nenhuma contradição nisso para o capitalismo.

Se a exploração puder continuar normalmente com exploradores de todas as cores e gêneros, o capital não fará qualquer objeção. Colocar o problema principalmente no campo das identidades transforma, assim, uma questão política e econômica numa questão moral.

O trabalhador é distraído com identidade, linguagem neutra, privilégios e preconceitos, enquanto os bancos continuam cobrando juros, os monopólios controlam a produção e o imperialismo saqueia países inteiros.

A autora conclui que os identitarismos contemporâneos seriam “a resposta política ao identitarismo branco e masculino que os precedeu”. Mas uma resposta que mantém intacta a estrutura econômica responsável pela exploração serve apenas aos exploradores.

Fragmentar os explorados em identidades distintas, desloca os conflitos sociais para o terreno moral e impede que se compreenda por que povos de todas as cores, religiões e nacionalidades continuam sendo submetidos. A luta de classes.

O imperialismo não pergunta a cor de um povo antes de explorá-lo. Quer saber apenas se consegue dominá-lo.

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