Palestina

Hamas dissolve governo de Gaza, aumentando pressão pelo cessar-fogo permanente

Ao entregar a gestão civil a um comitê nacional, Resistência Palestina retira mais uma desculpa da ocupação para impedir a paz

O Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) anunciou, nesta segunda-feira (6), a dissolução do Comitê Governamental de Emergência na Faixa de Gaza, órgão que vinha dirigindo a gestão civil do território palestino durante a guerra de extermínio promovida por “Israel”. A decisão abre caminho para a transferência das responsabilidades governamentais ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza, organismo palestino formado para assumir os serviços civis no enclave.

Ao deixar a gestão cotidiana de Gaza, o Hamas retira mais um dos pretextos usados pelos EUA e por “Israel” para travar a aplicação do cessar-fogo e manter a agressão contra o povo palestino. A ocupação israelense vinha afirmando que não aceitaria a permanência do Hamas no governo de Gaza, ao mesmo tempo em que bloqueia a entrada do comitê palestino indicado para assumir essas funções.

O anúncio foi feito pelo Escritório de Imprensa do Governo de Gaza. Segundo a nota, Mohammad Abdul Khaliq al-Farra, chefe do Comitê Governamental de Emergência, apresentou sua renúncia oficial e anunciou a dissolução do órgão “como demonstração da seriedade destas medidas, em implementação dos arranjos acordados e para facilitar o processo de transição administrativa”.

O porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, afirmou que a decisão tem como objetivo impedir que a ocupação israelense continue utilizando a questão do governo de Gaza como desculpa para manter a guerra.

“O Hamas deu um novo passo ao deixar de estar encarregado da Faixa de Gaza, a fim de remover qualquer pretexto da ocupação, que continua sua agressão e guerra de extermínio”, declarou Qassem à agência AFP.

O dirigente acrescentou que o movimento espera a entrada rápida do Comitê Nacional para a Administração de Gaza e reafirmou que o Hamas está pronto para entregar as responsabilidades governamentais ao órgão, garantindo as condições para seu funcionamento.

A decisão não significa que o Hamas abandona seu papel político ou militar na Palestina. O que está em questão é a gestão civil diária de Gaza, isto é, os serviços públicos, os órgãos técnicos e a estrutura de atendimento à população, devastada pela ofensiva israelense.

O Comitê Nacional para a Administração de Gaza é chefiado por Ali Shaath. Após o anúncio, Shaath declarou que o órgão está preparado para assumir suas responsabilidades assim que tiver os recursos e as condições necessárias para atuar dentro da Faixa de Gaza.

O Escritório de Imprensa do Governo de Gaza informou ainda que os funcionários públicos continuarão em seus postos para evitar um vazio técnico ou administrativo. A orientação é que trabalhadores responsáveis por serviços como saúde, água, saneamento e demais setores essenciais permaneçam trabalhando, agora sob a autoridade do novo comitê.

Segundo a nota divulgada em Gaza, todas as medidas administrativas e legais para a transferência foram concluídas e apresentadas às forças palestinas, aos representantes de clãs, às instituições civis e a um representante das Nações Unidas.

Os partidos da Resistência Palestina saudaram a dissolução do Comitê de Emergência. Em declaração conjunta, afirmaram que a medida demonstra compromisso com a reorganização interna palestina e com a transferência da gestão civil para um comitê nacional.

Elas também defenderam a garantia dos direitos dos funcionários públicos que permaneceram trabalhando durante a guerra, mesmo sob ataques israelenses contra membros de órgãos governamentais e contra a infraestrutura civil de Gaza.

A entrada do Comitê Nacional para a Administração de Gaza já estava prevista nos entendimentos firmados em outubro de 2025, no processo de cessar-fogo. O comitê, no entanto, permaneceu fora da Faixa de Gaza por causa da oposição de “Israel”, que rejeita tanto a continuidade do Hamas na gestão civil quanto uma retomada direta da Autoridade Palestina no território.

A manobra israelense mostra o verdadeiro papel do problema. A ocupação usa a questão do governo de Gaza não para resolver a situação da população palestina, mas para impedir qualquer solução que não esteja submetida aos seus interesses. Quando o Hamas aceita se afastar da gestão civil, “Israel” bloqueia o órgão que deve assumir o lugar.

O chamado Conselho de Paz para Gaza, criado pelos EUA no plano apresentado por Donald Trump, também não conseguiu impor o cumprimento do cessar-fogo. Desde outubro de 2025, mais de mil palestinos foram assassinados por “Israel” mesmo depois do acordo.

A imprensa israelense informou nos últimos dias que o governo israelense espera uma decisão do Conselho de Paz, nos próximos meses, alegando que o Hamas violou o cessar-fogo por não entregar suas armas. Essa decisão serviria como justificativa para a retomada de operações militares em áreas de Gaza que ainda não estão ocupadas pelo Exército israelense.

A Resistência Palestina, incluindo as Brigadas al-Qassam, braço armado do Hamas, mantém a posição de não entregar suas armas enquanto não houver o reconhecimento de um Estado palestino independente. Com a dissolução do órgão governamental de Gaza, o Hamas reforça sua disposição de cumprir os aspectos civis do acordo e desloca a pressão para os EUA e para “Israel”, que seguem impedindo a entrada do comitê nacional e mantendo a ocupação militar sobre o território palestino.

A movimentação em Gaza ocorre ao mesmo tempo em que cresce a disputa em torno da sucessão na Autoridade Palestina. Segundo reportagem divulgada em 2 de julho, Maruã Barguti, dirigente do Fatá preso por “Israel” desde 2002, pretende concorrer à Presidência da Autoridade Palestina caso as eleições sejam realizadas.

Barguti é um dos principais adversários políticos de Mahmoud Abbas. Preso durante a Segunda Intifada, ele foi condenado por “Israel” à prisão perpétua sob acusações ligadas à morte de israelenses. Mesmo encarcerado, mantém amplo prestígio entre os palestinos, inclusive por sua defesa da resistência armada contra a ocupação.

A candidatura de Barguti expõe a crise da direção de Abbas. O presidente da Autoridade Palestina foi eleito em 2005 e permanece no cargo apesar de seu mandato ter terminado em 2009. Desde a vitória eleitoral do Hamas em 2006, não houve novas eleições nacionais palestinas.

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