Editorial

Guinada estratégica ou guinada eleitoral?

Não adianta criticar o neoliberalismo se o discurso não vier acompanhado de mudanças profundas na política econômica

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu, em Barcelona, uma declaração que chamou atenção ao afirmar que a esquerda se transformou em gestora da miséria neoliberal. A formulação é correta. O problema é que ela vale também para o próprio governo brasileiro. Depois de dois anos e meio de governo marcado pela adaptação ao arcabouço fiscal, pelas concessões ao grande capital e pela aceitação dos limites impostos pelo regime político, Lula parece ensaiar agora uma inflexão. A questão é saber se isso representa de fato uma mudança de rumo ou apenas uma operação eleitoral tardia.

Os sinais dessa movimentação estão aí. Fala-se em recuo sobre medidas impopulares, como a chamada taxação das blusinhas, em revisão da proibição da importação da tirzepatida vinda do Paraguai, em um novo programa de renegociação de dívidas e, sobretudo, em uma iniciativa ligada ao fim da escala 6×1 e à jornada de 40 horas. Lula percebeu, ao que tudo indica, que sua política excessivamente conservadora cobrará um alto preço eleitoral e que a simples administração da crise não mobiliza ninguém.

O problema é que o discurso de Barcelona continua vazio como programa. Para romper de fato com a situação que Lula criticou, seria necessário enfrentar os pilares concretos da política neoliberal no Brasil: a ditadura da dívida pública, o dogma do equilíbrio fiscal, a política de privatizações e o próprio mecanismo de contenção permanente do investimento estatal. Sem tocar nesses fundamentos, toda crítica ao neoliberalismo corre o risco de virar apenas retórica.

Esse é o limite central do movimento de Lula. O governo não aparece disposto a comprar a briga necessária contra o regime político e contra os interesses que sustentam a estagnação nacional. O máximo que se vê é a tentativa de apresentar medidas parciais, pontuais, destinadas a melhorar o ambiente eleitoral e recompor a base social do lulismo. Não se trata, portanto, de uma guinada estratégica, mas de uma correção de rota para evitar que a direita capitalize o desgaste social acumulado.

O presidente insiste em apresentar a disputa como um confronto entre democracia e fascismo. Esse eixo pode servir para manter mobilizado o eleitorado já fiel ao PT, mas diz pouco à maioria da população. Para o povo trabalhador, a questão decisiva é outra: salário, emprego, custo de vida, endividamento, serviços públicos, futuro do País. Uma campanha realmente capaz de polarizar a eleição em favor dos trabalhadores teria de fazer a crítica frontal do programa econômico da direita: reforma trabalhista, ataque à Previdência, cortes orçamentários, privatizações e aprofundamento do ajuste fiscal.

Se a direita oferece um programa neoliberal duro, a resposta consequente seria uma plataforma de defesa da economia nacional, do emprego, da indústria, dos direitos sociais e dos trabalhadores contra a política de terra arrasada. Mas o PT evita esse terreno porque ele próprio não quer romper com os fundamentos do ajuste. Pode não chegar ao mesmo grau de brutalidade prometido pela extrema direita, mas tampouco se dispõe a inverter a lógica geral. Por isso, refugia-se em uma polarização abstrata, moral, institucional, que não resolve o problema central.

O resultado dessa política está no quadro social do País. A economia brasileira segue estagnada. O crescimento é fraco, a indústria encolheu, a dependência aumentou. Uma parte gigantesca da população vive de transferência de renda ou de formas precárias e fictícias de inserção no mercado de trabalho. Isso é a expressão de um modelo econômico esgotado. Administrar essa decomposição, sem enfrentá-la, é exatamente assumir o papel de gestor da crise.

Há ainda um dado político preocupante. O voto jovem, especialmente entre a geração mais nova, aparece mais conservador do que em períodos anteriores. Isso, para qualquer candidatura de esquerda, deveria soar como alarme máximo. Sem romper com os pilares do neoliberalismo, qualquer mudança será pequena demais para enfrentar a gravidade da situação e tardia demais para reverter plenamente o desgaste político.

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