Estudantes do internato da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) aderiram à greve estudantil e paralisaram atividades no Hospital das Clínicas e no Hospital Universitário, em São Paulo, na segunda-feira (11). A decisão ocorreu um dia depois da reintegração de posse da reitoria pela Polícia Militar e ampliou a força de uma paralisação que já atravessa a universidade. Os internos denunciam a mercantilização da formação médica e cobram melhores condições de permanência, trabalho e atendimento.
A adesão da Medicina tem peso especial porque atinge o centro de uma das principais vitrines da USP: o complexo ligado ao Hospital das Clínicas e ao Hospital Universitário. Apesar de o curso já estar em greve havia duas semanas, os internos suspenderam atendimentos e atividades práticas apenas nesta segunda. A paralisação desloca a greve do espaço usado de vitrine pela reitoria para áreas diretamente ligadas à saúde pública e à formação profissional.
Entre as principais críticas dos estudantes está o programa “Experiência HC”, que permite a alunos de instituições privadas participarem de atividades no Hospital das Clínicas mediante pagamento. Reportagem sobre a mobilização informou que o programa vende vagas de estágio por R$ 8.450 e foi apontado pelos estudantes como privatização da educação, mercantilização da relação entre alunos, professores, médicos e pacientes, além de fator de superlotação dos ambulatórios.
Os estudantes também relacionam a greve ao desmonte dos serviços de saúde da universidade. Os estudantes apresentam reivindicações por contratação de mais profissionais, citando defasagem de 500 trabalhadores na área da saúde, e pela reabertura de leitos no HU, reduzidos de 220 para 130 desde 2013. Os estudantes apontam que a redução de estrutura teria sido acompanhada de queda de 60% no número de cirurgias realizadas, evidenciando o desmonte da educação pública da universidade.
A ação da Polícia Militar na reitoria, ocorrida na véspera, aprofundou o conflito. A entrada da PM para retirar estudantes grevistas reforçou a disposição da administração universitária e do governo estadual de tratar reivindicações sociais como problema de força. A resposta dos internos da Medicina foi política: manter a greve e ampliar a paralisação para os hospitais, deixando claro que bombas, cassetetes e reintegração não resolvem falta de bolsas, moradia, alimentação, profissionais e leitos.
A greve da USP começou em 14 de abril e reuniu estudantes e trabalhadores em torno de pautas como assistência estudantil, permanência, condições do Conjunto Residencial da USP (Crusp), restaurantes universitários e oposição a gratificações voltadas apenas a docentes. Com a entrada do internato da Medicina, o movimento ganha novo alcance. A paralisação mostra que a universidade não funciona apenas por prestígio acadêmico, mas por condições concretas de estudo, trabalho e atendimento público.



