O Departamento de Estado dos EUA divulgou na sexta-feira (26) os detalhes de um acordo trilateral firmado entre o governo norte-americano, “Israel” e o Líbano. O documento estabelece uma sequência de medidas para encerrar formalmente o estado de guerra entre o Líbano e a ocupação israelense e abrir negociações diretas entre as duas partes, mediadas pelos EUA.
O ponto central do acordo é a exigência de desarmamento da resistência libanesa. Segundo o texto divulgado pelos EUA, a retirada das forças israelenses do território libanês fica vinculada ao desarmamento dos chamados “grupos armados não estatais”, formulação usada no documento para se referir ao Hesbolá. O acordo também exige o desmonte da estrutura militar da resistência e a proibição de qualquer papel militar ou de segurança desses grupos em todo o território libanês.
O texto prevê que o Exército Libanês assuma gradualmente a segurança em áreas definidas como “zonas-piloto”, depois da verificação do desarmamento da resistência. Só a partir desse processo “Israel” começa retiradas por etapas, sem prazo fixo para deixar todo o território ocupado no sul do Líbano.
O governo libanês também aceitou que a ajuda norte-americana ao Exército Libanês fique condicionada a etapas verificáveis, transparência total, resultados demonstrados e supervisão permanente dos EUA. Outro ponto estabelece que recursos para reconstrução e recuperação econômica não cheguem a entidades ou pessoas ligadas aos chamados “grupos armados não estatais”.
O documento prevê a criação de um grupo de coordenação militar com participação dos EUA para supervisionar a aplicação das medidas. O acordo afirma que Líbano e “Israel” devem trabalhar por um “Líbano seguro e reconstruído”, mas deixa a segurança, a ajuda militar e parte da reconstrução subordinadas aos critérios definidos pelo governo norte-americano.
O Líbano também pediu apoio de países árabes e de aliados internacionais, dirigidos pelos EUA, para aplicar as medidas previstas. O texto afirma que o Estado libanês deve ter autoridade exclusiva sobre as decisões de guerra e paz, ao mesmo tempo em que entrega aos norte-americanos a supervisão de sua aplicação.
A ajuda dos EUA ao Exército Libanês depende de “etapas verificáveis”, “transparência total”, “resultados demonstrados” e “supervisão contínua”. Dessa forma, a entrega de recursos militares fica subordinada a critérios externos.
O acordo também determina que Líbano e EUA trabalhem para impedir que fundos de reconstrução e recursos financeiros cheguem a pessoas ou entidades ligadas aos chamados “grupos armados não estatais”. A medida atinge diretamente a base social e política da resistência, que atua nas regiões mais atacadas por “Israel”.
Após a assinatura, as partes devem criar grupos de trabalho para elaborar um acordo mais amplo de paz e segurança. O documento também prevê conversações diretas contínuas entre o Líbano e “Israel”, facilitadas pelos Estados Unidos.
Outro ponto estabelece cooperação na busca por restos mortais e na libertação de detidos. O texto inclui ainda a promessa de que Líbano e “Israel” deixem de tomar medidas consideradas hostis em fóruns políticos e jurídicos internacionais.
Na prática, essa cláusula impede que o Líbano acione “Israel” por crimes de guerra, agressões militares e destruição causada pelos ataques israelenses. O documento termina agradecendo a “visão e liderança” do presidente norte-americano Donald Trump.
Acordo comemorado por “Israel”
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que o acordo é “o começo do começo” e que ainda existe “um longo caminho” entre Líbano e “Israel”. Segundo ele, o documento cria uma base jurídica para as negociações entre as duas partes.
O embaixador israelense nos EUA, Iechiel Leiter, comemorou o resultado, afirmando que, com o acordo, “o Irã está fora, o Hesbolá está fora e o caminho para a paz entre Israel e Líbano está aberto”.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netaniahu, classificou o acordo como uma conquista para “Israel”. Segundo ele, as forças israelenses permanecem nas áreas ocupadas do sul do Líbano até que o Hesbolá seja desarmado. Netaniahu também declarou que “Israel” não permite o retorno de moradores libaneses nem da resistência à chamada faixa de segurança, área ocupada pelos israelenses.
A emissora israelense Canal 12 citou um alto funcionário israelense que definiu o acordo com o governo libanês como “uma grande conquista para Israel”.
A embaixada libanesa nos EUA afirmou, em comunicado, que a aplicação do acordo começa com a retirada israelense de duas “zonas-piloto” no sul do Líbano, seguida pelo envio do Exército Libanês às áreas. Segundo a nota, essas medidas são “o primeiro passo para uma retirada gradual e abrangente de todo o território libanês”.
A embaixada afirmou ainda que o acordo foi alcançado “sob a liderança do presidente Joseph Aoun, em colaboração com o primeiro-ministro Nawaf Salam, e por meio dos esforços coordenados das instituições constitucionais do Líbano”. O comunicado apresentou o acordo como um caminho baseado em “diálogo” para recuperar o território libanês.
O secretário-geral do Hesbolá, xeique Naim Qassem, rejeitou o acordo e o classificou como uma rendição política diante das exigências de “Israel” e dos EUA. Em comunicado divulgado no sábado (27), Qassem afirmou que o acordo entrega concessões ao inimigo israelense e legaliza a continuidade da ocupação no sul do Líbano.
“O Acordo-Quadro nos EUA é de humilhação, vergonha e entrega da soberania. Este acordo é nulo e sem efeito”, disse Qassem. O dirigente do Hesbolá afirmou que o governo libanês deve aplicar o memorando de entendimento entre Irã e EUA, que prevê a cessação imediata e permanente das operações militares e a retirada israelense do Líbano.
Segundo Qassem, o governo libanês cometeu um erro estratégico ao rejeitar o caminho aberto pelo acordo de Islamabade, que dava ao Líbano uma posição de força para exigir a retirada israelense. “Este é um presente de honra, dignidade e força do Irã firme e orgulhoso ao Líbano, ao seu povo e à sua resistência”, afirmou.
O dirigente do Hesbolá denunciou que o governo libanês “apunhalou a resistência pelas costas” e entregou a “Israel” aquilo que a ocupação não conseguiu impor no campo militar. Para Qassem, as negociações diretas com “Israel” são ilegítimas e representam “concessões gratuitas” ao inimigo.
“O que é esta queda desastrosa? Que erro grave é este de entregar a soberania ao inimigo israelense?”, questionou. Segundo ele, ao condicionar a retirada israelense ao desarmamento interno, o acordo transforma o Líbano em “um brinquedo” nas mãos do inimigo.
Qassem afirmou que a exigência de desarmamento dá a “Israel” poder de veto sobre cada etapa da retirada. Na avaliação do dirigente, o Líbano fica obrigado a obter uma espécie de “certificado de boa conduta” do próprio regime israelense antes de avançar para novas fases do acordo.
“As autoridades estão legitimando a continuação da ocupação por muitos anos, e isso pode levar até mesmo à anexação desses territórios à entidade sionista!”, declarou. Qassem também afirmou que as armas da resistência não serão entregues. “Ninguém tem o direito de privar o povo libanês de seu direito de defender a si mesmo e sua terra contra o ocupante de nossa terra e o assassino de nosso povo”, disse.
O dirigente afirmou que a resistência continua a luta até a expulsão das forças israelenses. Ao mesmo tempo, declarou que o Hesbolá está disposto a cooperar com as autoridades libanesas para garantir a soberania, a libertação do território, a expulsão do ocupante israelense, o retorno dos detidos e dos moradores, a reconstrução do país e um entendimento sobre uma estratégia nacional de segurança.
Protestos em Beirute
O anúncio provocou manifestações em várias áreas de Beirute. Manifestantes se reuniram em Ramlet al-Bayda, nas proximidades da sede do governo e em regiões dos subúrbios do sul da capital libanesa. Os atos denunciaram o acordo e exigiram sua anulação.
Na área de Salim Salam, manifestantes bloquearam ruas importantes e queimaram pneus em protesto contra a política do governo para o sul do Líbano. Também foram registradas concentrações em Mcharafieh e em outras regiões de Beirute. Participantes dos atos rejeitaram qualquer negociação direta com a ocupação israelense.
O presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, alertou a população contra uma tentativa de provocar uma crise interna. “Meu povo no Líbano, todo o Líbano… isto é sedição!”, declarou. Citando o imã Ali ibn Abi Taleb, Berri disse: “Em tempos de sedição, seja como o jovem camelo: não tem costas para ser montado nem leite para ser ordenhado.”
A declaração foi uma advertência para que a população libanesa não seja usada pelos inimigos do país em uma disputa interna provocada pelo acordo.
Deputados denunciam rendição
O deputado Hassan Fadlallah, integrante do bloco Lealdade à Resistência, ligado ao Hesbolá, afirmou à emissora libanesa Al Mayadeen que o governo libanês deve abandonar o caminho das negociações diretas e revogar todas as decisões tomadas contra o povo libanês nesse processo.
Fadlallah dirigiu-se diretamente a Netaniahu: “Não se apresse em levar boas notícias ao seu povo”. Segundo ele, o primeiro-ministro israelense está “negociando consigo mesmo”, pois o atual governo libanês não tem legitimidade constitucional nem consenso nacional para impor o acordo ao país.
“O governo não conseguirá aplicar o acordo assinado nos EUA sem recorrer, com apoio norte-americano, a uma guerra civil”, afirmou. Fadlallah acrescentou que “sem a resistência, nada passará” e que o Hesbolá não permite que as autoridades destruam o Líbano nem entreguem o destino do país.
O deputado afirmou que o acordo busca minar o caminho aberto pelo memorando de Islamabade. Segundo ele, o Irã não assina nenhum acordo antes da retirada israelense do Líbano, enquanto o governo libanês entregou a “Israel” uma concessão que não terá efeito no terreno.
Fadlallah também afirmou que as negociações diretas com “Israel” violam o artigo 52 da Constituição libanesa. “Nenhum indivíduo tem o direito de cancelar o estado de hostilidade contra Israel”, disse. Ao mesmo tempo, Fadlallah afirmou que o Hesbolá não busca confronto com o Exército Libanês: “O Exército permanece, a resistência permanece e o povo permanece”.
Questionado sobre a presença de ministros do Hesbolá no governo, Fadlallah afirmou que a permanência deles tem cálculos próprios e não significa aprovação das decisões tomadas. “Vocês chegaram a um acordo com quem não possui nada. O estado de hostilidade contra Israel permanecerá, e quem aperta a mão do inimigo é cúmplice de seus crimes”, declarou.
A deputada Halima al-Qaqour também criticou o acordo. Em publicação nas redes sociais, ela questionou o presidente Joseph Aoun e o primeiro-ministro Nawaf Salam sobre a cláusula que impede ações jurídicas contra “Israel”. “Como vocês aceitam não processar o inimigo por crimes de guerra?”, perguntou.
“Vocês não percebem que não existe paz sem justiça e que o que estão apresentando é paz pela força e pela submissão?”, afirmou a deputada. Segundo ela, o acordo priva as vítimas libanesas do direito à reparação e protege “Israel” de responder por crimes contra a população.
O secretário-geral do Partido Comunista Libanês, Hanna Gharib, também se pronunciou contra o acordo. “Não existe paz com uma entidade de apartheid e genocídio”, declarou. Gharib defendeu a unidade das forças libanesas para derrubar o que chamou de “acordo da vergonha”. Ele afirmou ainda que, se o Partido Comunista Libanês já havia rejeitado o acordo de demarcação marítima com o inimigo israelense, não poderia aceitar agora um acordo de submissão.
Críticas também no campo governista
O deputado Gebran Bassil, dirigente do Movimento Patriótico Livre, afirmou que o acordo deve ser tratado “com responsabilidade”. Segundo ele, o texto pode beneficiar o Líbano caso leve à recuperação de todos os direitos do país, mas pode também se transformar “em uma receita para a sedição interna”.
Bassil afirmou que não se deve rejeitar previamente toda iniciativa capaz de libertar território libanês ocupado, fortalecer as instituições do Estado e estabelecer bases para a paz. Ao mesmo tempo, rejeitou qualquer proposta que envolva apenas o reposicionamento das forças israelenses, em vez de retirada completa.
“Não ao reposicionamento; sim à garantia de retirada e à prevenção de futuras agressões”, afirmou. Bassil também questionou a ausência de pontos sobre refugiados e sobre os recursos naturais do Líbano. “Onde estão os refugiados e os recursos?”, perguntou.
Ataques após assinatura
Logo após o anúncio do acordo, as forças de ocupação israelenses realizaram novas ações no sul do Líbano. Tropas israelenses avançaram em direção aos arredores de Cfar Chuba sob cobertura de tiros de metralhadora pesada, segundo relatos locais. Antes disso, soldados israelenses detonaram uma granada de efeito moral perto de Cfar Tebnit, causando pânico entre moradores.
A aviação israelense também atacou uma área na cidade fronteiriça de Markaba durante a noite, segundo a Agência Nacional de Notícias do Líbano.
Desde 2 de março, quando “Israel” iniciou a atual ofensiva contra o Líbano, ao menos 3.600 pessoas foram mortas e mais de 11 mil ficaram feridas, segundo autoridades libanesas. O Hesbolá mantém operações militares contra as forças israelenses, afirmando que a resistência permanece necessária enquanto durarem os ataques e a ocupação do território libanês.





