O Governo Federal deixou de atender 1,99 milhão de famílias aptas ao Programa Bolsa Família (PBF), no Brasil, em fevereiro de 2026, segundo estudo da Confederação Nacional de Municípios (CNM). O levantamento aponta que mais de 3,19 milhões de pessoas elegíveis ficaram fora da transferência de renda e calcula déficit de R$ 16,48 bilhões para cobrir toda a demanda reprimida neste ano.
O déficit não significa apenas atraso administrativo. A CNM afirma que o orçamento previsto para o PBF em 2026, de R$ 157,5 bilhões, permite manter o atendimento atual, mas não basta para incluir as famílias que já cumprem os critérios de renda e permanecem fora da folha de pagamento. Em fevereiro, o programa atendia cerca de 18,8 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 690,01. Para incorporar todos os lares elegíveis naquele momento, o orçamento deveria chegar a aproximadamente R$ 174 bilhões.
A chamada demanda reprimida é formada por famílias inscritas no Cadastro Único que atendem aos critérios do Bolsa Família, mas não recebem o benefício por falta de espaço orçamentário. A CNM elaborou o estudo com base em microdados oficiais do Consulta, Seleção e Extração de Informações do Cadastro Único (Cecad), ligado ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). O cálculo mostra que a exclusão não decorre de ausência de cadastro, mas da diferença entre a necessidade social registrada e os recursos autorizados.
A concentração regional da demanda também mostra a dimensão do problema. Segundo a CNM, 43% das famílias aptas e não atendidas estavam no Sudeste, e 25% no Nordeste. Entre os estados, São Paulo aparecia com 375.147 famílias fora do benefício, o Rio de Janeiro com 358.953, a Bahia com 134.045 e Minas Gerais com 124.068. Esses números indicam que a insuficiência de recursos atinge tanto grandes centros urbanos quanto estados marcados por pobreza persistente.
O estudo também chama atenção para o enfraquecimento do apoio federal aos municípios na gestão do programa. O Índice de Gestão Descentralizada do Programa Bolsa Família e Cadastro Único (IGD-PBF), repasse usado para financiar atualização cadastral, busca ativa e acompanhamento das famílias, caiu de R$ 4 para R$ 3,25 por cadastro válido em 2024 e foi reajustado para R$ 3,35 em 2025. A CNM calcula que, se fosse corrigido pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o valor deveria estar em pelo menos R$ 7,33.
Na prática, o Governo Federal transfere aos municípios a pressão cotidiana por atendimento, sem garantir orçamento suficiente para incluir todas as famílias aptas nem para financiar plenamente a gestão local do cadastro. A cada família que sai da folha, outra que já preenche os requisitos pode continuar esperando, mesmo em situação de pobreza. O déficit de R$ 16,48 bilhões, portanto, expressa a distância entre o discurso de proteção social e a capacidade real de atendimento prevista no orçamento de 2026.





