Leon Trótski defendia a união das organizações operárias alemãs para enfrentar os bandos fascistas de Hitler. O Partido Comunista, a social-democracia e os sindicatos deveriam organizar uma resistência comum aos camisas-pardas. A proposta era mobilizar os trabalhadores para a luta direta, preservando a independência política dos comunistas.
Na carta de 8 de dezembro de 1931, conhecida como Por uma frente única operária contra o fascismo, o revolucionário distingue os acordos eleitorais dos acordos práticos para a ação das massas. Essa diferença é decisiva para compreender sua orientação e combater o uso do antifascismo como justificativa para a subordinação eleitoral dos trabalhadores.
No Brasil, a propaganda petista apresenta o voto em Lula como uma luta contra o fascismo. Com esse argumento, procura atrair pessoas que não encontram no governo nem na política do PT uma alternativa para suas reivindicações. As críticas devem ser abandonadas em nome da urgência de derrotar o adversário nas urnas.
O que o PT organiza, porém, é uma campanha eleitoral. A direção petista pede votos, mas não prepara os trabalhadores para uma luta correspondente ao perigo que anuncia. A mobilização tem como objetivo eleger o candidato e se encerra com a eleição.
Uma frente para a luta
A proposta de Trótski respondia a uma necessidade concreta da classe operária alemã: enfrentar grupos armados que ameaçavam suas organizações. Para isso, era preciso reunir os trabalhadores comunistas e social-democratas, apesar das divergências entre seus partidos.
Os operários que seguiam a social-democracia não abandonariam suas organizações simplesmente porque os comunistas denunciassem seus dirigentes. Exigir essa ruptura como condição para a ação comum significava excluir da resistência uma parcela decisiva dos trabalhadores.
O Partido Comunista deveria chamar esses operários e suas organizações à luta contra os fascistas. A disposição dos trabalhadores para o combate pressionaria a direção social-democrata a participar da frente única. Na ação, eles poderiam verificar quais dirigentes estavam dispostos a enfrentar Hitler e quais impediam a resistência.
Esse acordo não exigia uma aprovação da política reformista. Cada partido conservaria sua organização e sua liberdade de crítica. Os comunistas continuariam combatendo a direção social-democrata, inclusive suas vacilações diante do fascismo, enquanto procuravam levar adiante a luta comum.
A unidade para enfrentar os camisas-pardas deveria fortalecer a capacidade de ação da classe operária. Subordinar os comunistas aos dirigentes reformistas comprometeria esse objetivo e impediria a disputa pela direção dos trabalhadores.
Aproveitar as divergências
Trótski explicava a necessidade de aproveitar os conflitos entre os adversários da revolução: “Mas esses elementos estão momentaneamente envolvidos em conflitos uns com os outros, e o partido do proletariado deve procurar se aproveitar desses conflitos no interesse da revolução”.
A existência dessas divergências não obrigava o partido operário a apoiar politicamente um dos lados. Era preciso examinar como elas poderiam favorecer a mobilização dos trabalhadores.
Na Alemanha, o conflito entre a social-democracia e o fascismo permitia chamar os operários social-democratas à resistência. Trótski propunha aproveitar essa situação para organizar a luta, sem assumir responsabilidade pela política reformista. Sua orientação não consistia em pedir que os comunistas votassem na social-democracia.
A comparação com as notas musicais esclarece o argumento:
“Na escala musical há sete notas. A questão de saber qual nota é menor, dó, ré ou sol, é sem sentido. Mas o músico deve saber quando e quais notas utilizar. A questão abstrata sobre qual é o mal menor, Brüning ou Hitler, é sem sentido. É necessário saber qual das notas utilizar”.
O problema era determinar como agir diante do conflito. Os comunistas deveriam organizar a resistência operária e explorar as divergências entre os adversários para mobilizar os trabalhadores. A escolha de um “mal menor” para receber apoio político substituía essa tarefa pela confiança em uma das forças que sustentavam o regime burguês.
Reconhecer as diferenças entre a social-democracia e o fascismo era necessário para formular uma política de combate. Isso não transformava os dirigentes social-democratas em representantes dos interesses revolucionários da classe operária.
A campanha do PT
A comparação entre a social-democracia alemã e o PT ajuda a examinar a relação dos comunistas com uma direção reformista que mantém influência sobre os trabalhadores. Dela não decorre uma obrigação de apoio eleitoral. A proposta de frente única tratava da organização de uma luta comum, com objetivos e ações definidos.
Na campanha petista, a ameaça fascista serve para exigir adesão à candidatura. Pessoas sinceramente preocupadas com o avanço da direita acreditam participar de uma resistência quando são chamadas apenas a pedir votos. Não se organiza uma ação independente dos trabalhadores para enfrentar a reação depois da eleição.
A própria identificação da direita bolsonarista com o movimento de Hitler encobre o problema. O bolsonarismo é uma força reacionária, mas não está se encaminhando para implantar um governo fascista no Brasil. Apresentar toda disputa eleitoral contra essa direita como uma batalha contra o fascismo permite à direção petista cobrar apoio sem responder por sua política.
Mesmo diante de uma ameaça fascista efetiva, ganhar uma eleição não dispensa a organização da resistência. A proposta de Trótski exigia partidos e sindicatos mobilizados para enfrentar os ataques às organizações operárias. A vitória eleitoral de um candidato reformista não realiza essa tarefa.
Os comunistas podem lutar ao lado dos trabalhadores que seguem o PT e exigir de suas direções uma ação comum contra a direita, mantendo a crítica ao governo e sua própria política eleitoral. Condicionar essa luta ao apoio à candidatura petista significa entregar à direção do PT o poder de decidir quando e pelo que os trabalhadores devem se mobilizar.





