A tentativa de unir praticamente todo o sistema político alemão para barrar a Alternativa para a Alemanha (AfD) terminou fortalecendo justamente o partido que deveria conter. Na eleição da Saxônia-Anhalt neste domingo (6), a legenda obteve 43,8% dos votos, contra 20,8% em 2021. A CDU, principal partido da burguesia alemã, caiu de 37,1% para 17,2%.
O chamado firewall consiste em isolar completamente a AfD do resto da política alemã e reunir contra ela os partidos considerados aceitáveis pelo regime. É a versão alemã da “frente ampla”: vale juntar qualquer coisa com qualquer coisa, inclusive setores da esquerda com os grandes partidos burgueses, desde que seja para impedir a extrema direita.
A experiência da Saxônia-Anhalt mostra onde essa política leva. Em vez de isolar a AfD diante da população, isolou todos os seus adversários no mesmo campo e deixou o partido de extrema direita como principal força de oposição.
A votação alcançada pela legenda chama atenção também pela comparação histórica. Os 43,8% superam os percentuais obtidos pelo Partido Nazista em algumas das mais importantes eleições estaduais de 1932. Na Prússia, o NSDAP teve 36,7%; na Baviera, 32,52%; e na Turíngia, 42,5%.
Hitler conseguiu marcas maiores em outros estados. Chegou a 43,97% em Hesse, 48,4% em Oldemburgo e atingiu seu máximo estadual, 49%, em Mecklemburgo-Schwerin.
Mas o dado mais importante está nas condições em que esses números foram alcançados.
Quando o nazismo se aproximou da metade dos votos, o NSDAP já era uma organização gigantesca, com milhões de membros, uma imprensa de massas, milícias armadas e um aparato nacional montado para a conquista do poder. A violência contra comunistas social-democratas e organizações operárias fazia parte de sua atividade cotidiana.
Mesmo com toda essa máquina, Hitler teve enorme dificuldade para chegar aos 49%.
A AfD alcançou 43,8% em condições muito diferentes. Não está às vésperas de tomar o poder, não possui um aparato comparável ao nazista e chegou a esse percentual sendo ela própria alvo da repressão do Estado. Houve exclusão de candidatos, ameaças contra governos estaduais e uma ofensiva dos órgãos de segurança destinada a isolar politicamente o partido.
Ou seja, a frente dos “limpinhos” contra a extrema direita conseguiu produzir uma votação próxima ao máximo alcançado pelo nazismo justamente enquanto procurava esmagar a AfD por todos os meios.
Da CDU ao Die Linke
A composição desse bloco ajuda a explicar o desastre.
A CDU é o grande partido tradicional da burguesia alemã. Seu papel pode ser comparado, guardadas as diferenças entre os países, ao do Partido Conservador britânico. Seu partido irmão na Baviera, a CSU, ocupa uma posição ainda mais à direita.
CDU-CSU e SPD, a social-democracia, governaram a Alemanha durante a maior parte do período posterior à Segunda Guerra Mundial.
No outro extremo está o Die Linke, que descende do partido stalinista que governava a Alemanha Oriental.
O firewall colocou todos eles no mesmo campo contra a AfD. Na prática, criou situações em que a CDU pode depender do Die Linke para manter um governo estadual. No Brasil, seria algo semelhante a uma associação entre União Brasil e PSOL para impedir a extrema direita.
A eleição deixou esse arranjo exposto. Das 83 cadeiras do parlamento estadual, a AfD conquistou 39. CDU, SPD, Verdes e Die Linke, somados, também ficaram com 39. O BSW, com cinco deputados, tornou-se o fiel da balança.
A antiga coalizão entre CDU, SPD e FDP não pode continuar. O FDP recebeu apenas 2,6% e ficou fora do parlamento. O SPD teve 9,3%, os Verdes, 8,9%, e o Die Linke, 8,6%.
A derrota da CDU chegou ao próprio chefe do governo estadual. Sven Schulze perdeu seu distrito para Christian Mertens, da AfD, por 35,2% contra 31,7%.
A frente entregou a oposição
A CDU perdeu mais da metade de sua votação em cinco anos. A AfD mais que dobrou.
Tino Chrupalla, copresidente do partido, resumiu o tamanho do desastre para os democrata-cristãos: “Friedrich Merz queria nos reduzir à metade, nós reduzimos a CDU à metade”.
Quando a esquerda aceita formar um bloco com os partidos tradicionais da burguesia para combater a extrema direita, passa a responder junto com eles pelo regime político e por sua política econômica. A extrema direita fica livre para se apresentar como oposição a todos.
É exatamente o problema colocado pela defesa da “frente ampla” no Brasil.
Na Alemanha, essa experiência chegou a um ponto extremo. Para impedir a AfD, colocaram no mesmo campo a CDU, a social-democracia, os Verdes e setores da esquerda. Somaram a isso a pressão policial e administrativa do Estado.
O que conseguiram foi levar a AfD a 43,8%.
Hitler chegou a 49% quando já possuía milhões de membros, milícias armadas, uma imprensa gigantesca e um aparato montado para chegar ao poder. A AfD chegou perto disso enquanto era atacada pelo Estado e permanecia isolada dos demais partidos.
A frente com a burguesia não barrou a extrema direita. Está entregando o país para ela.





