América Latina

Exército dos EUA invade Equador sob a desculpa de combater crime

Tropas norte-americanas realizam operações sigilosas no país apesar de a população ter rejeitado em referendo a instalação de bases militares estrangeiras

Militares dos Estados Unidos já participam de operações dentro do Equador sob o pretexto de combater o narcotráfico. A intervenção ocorre com a autorização do regime de Daniel Noboa e inclui tropas em terra, navios de guerra e helicópteros norte-americanos.

A presença foi confirmada pelo governador da província de Esmeraldas, Juan Jaramillo. Segundo ele, forças equatorianas atuam em conjunto com militares dos Estados Unidos no norte do país, nas proximidades da fronteira com a Colômbia. O número de soldados envolvidos e o início das operações não foram divulgados.

As ações fazem parte do chamado Escudo das Américas, iniciativa organizada pelo governo de Donald Trump para ampliar a intervenção militar junto a governos latino-americanos de estimação sob a justificativa do combate ao crime organizado.

O ministro da Defesa do Equador, Gian Carlo Loffredo, anunciou ainda a chegada de dois navios de guerra e três helicópteros Black Hawk norte-americanos. A ditadura de Noboa também autorizou militares dos Estados Unidos a permanecer no território equatoriano por até 180 dias sem visto.

A medida não é nada menos do que a abertura do país às Forças Armadas da maior potência imperialista do planeta.

O escândalo é ainda maior porque os próprios equatorianos rejeitaram essa política. Em referendo realizado em 2025, a população votou contra a instalação de bases militares estrangeiras no Equador. Noboa decidiu contornar o resultado.

Ainda que não exista formalmente uma nova base norte-americana, tropas dos Estados Unidos já operam no território nacional, embarcações militares chegam à costa e helicópteros são colocados à disposição das operações.

O nome jurídico dado à presença norte-americana é secundário. O essencial é que Washington voltou a ter condições de realizar operações militares diretamente dentro do Equador.

É mais uma demonstração do caráter entreguista do regime de Noboa, colocado no poder com o apoio do imperialismo e cada vez mais disposto a transformar o país em instrumento da política norte-americana na América Latina.

https://causaoperaria.org.br/2026/aliada-de-correa-tem-candidatura-impugnada-pela-ditadura-equatoriana/

A justificativa apresentada é a mesma utilizada há décadas: o combate às drogas.

O Equador atravessa uma grave crise de violência, com assassinatos, sequestros, extorsões e presença crescente de organizações ligadas ao tráfico internacional. Essa crise, no entanto, não surgiu da ausência de soldados norte-americanos no país.

Desde que chegou ao governo, Noboa ampliou a militarização interna e apresentou a repressão como solução para a criminalidade. Mesmo assim, o país registrou uma taxa recorde de homicídios.

O fracasso dessa política está sendo usado agora como justificativa para uma medida ainda mais grave: entregar diretamente aos Estados Unidos o controle da segurança do Equador. É um método antigo do imperialismo.

Nos anos 1990 e 2000, a chamada guerra às drogas foi utilizada para ampliar de maneira extraordinária a presença militar norte-americana na América Latina. O principal exemplo foi a Colômbia.

Sob o nome de Plano Colômbia, os Estados Unidos financiaram, equiparam e treinaram as forças militares colombianas, forneceram helicópteros e ampliaram sua participação nos assuntos internos do país.

Tudo foi apresentado inicialmente como uma grande ofensiva contra a produção e o comércio de cocaína. A política, entretanto, foi muito além do narcotráfico.

O aparato montado com dinheiro e orientação dos Estados Unidos passou a servir também à guerra interna contra organizações políticas e guerrilheiras colombianas. O que havia começado oficialmente como uma operação antidrogas tornou-se um poderoso instrumento de intervenção imperialista.

Esse é o verdadeiro significado político da chamada guerra às drogas e a Colômbia mostrou até onde essa política pode chegar.

Durante anos, Washington aprofundou seu controle sobre as forças repressivas colombianas sem eliminar o comércio de drogas. A chamada assistência antinarcóticos transformou o país em um dos principais pontos de apoio militar dos Estados Unidos na América do Sul.

O mesmo pretexto reaparece agora com força. O governo Trump já vinha ampliando operações militares no Caribe e no Pacífico contra embarcações acusadas pelos Estados Unidos de transportar drogas. Agora, as operações avançam para dentro do território dos países latino-americanos.

O Equador aparece como um dos primeiros casos dessa nova etapa.

Sob o pretexto de perseguir narcotraficantes, soldados norte-americanos passam a atuar em território equatoriano sem que sequer seja conhecido publicamente o tamanho da força mobilizada ou os detalhes das missões realizadas. Esse sigilo é por si só revelador.

O governo de Noboa não está simplesmente comprando equipamentos ou recebendo auxílio técnico. Está permitindo que militares de outro país realizem operações dentro de suas fronteiras.

A política abre um precedente extremamente perigoso para toda a América Latina.

A acusação de envolvimento com o narcotráfico sempre pode ser ampliada de acordo com os interesses de Washington. Um grupo político, uma organização armada ou até mesmo um governo pode ser apresentado como ligado ao tráfico e, a partir daí, transformado em alvo de sanções, operações clandestinas ou intervenção militar.

Foi assim que a guerra às drogas se misturou, na Colômbia, à guerra contra os movimentos considerados inimigos dos Estados Unidos. É assim que Evo Morales e seus seguidores estão sendo perseguidos pela ditadura de Rodrigo Paz na Bolívia, com todo o apoio da DEA e das forças de repressão norte-americanas.

O pretexto também serve para preparar golpes de Estado.

O imperialismo norte-americano possui uma longa tradição de transformar questões internas dos países latino-americanos em justificativa para intervir em seus governos. Durante a Guerra Fria, falava-se em combate ao comunismo. Posteriormente, vieram a guerra às drogas, a luta contra o terrorismo e outras justificativas adaptadas às necessidades de cada momento.

O objetivo permanece o mesmo: controlar politicamente os países latino-americanos e impedir governos que entrem em choque com os interesses de Washington, a fim de garantir a espoliação de suas riquezas.

A presença militar no Equador precisa ser entendida dentro dessa política. A luta contra o narcotráfico é apenas uma desculpa.

A experiência colombiana mostrou que, uma vez instalada, a presença militar norte-americana tende a assumir funções muito mais amplas do que aquelas utilizadas inicialmente para justificá-la.

É justamente esse caminho que o governo Noboa está abrindo para o Equador.

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