Poucas coisas revelam tanto o afastamento de determinados setores da esquerda em relação à população quanto o artigo Mais do que votar em extremistas, povo optou pela bandidagem, de Bepe Damasco, publicando no Brasil 247 nesta segunda-feira (5).
Incapaz de começar pela pergunta elementar — por que milhões de brasileiros votaram como votaram? —, o articulista começa condenando. Segundo esse ressentido, parte expressiva do eleitorado “não apenas consagrou nas urnas o fascismo nativo, como optou claramente pela bandidagem”. Mais adiante, adere à ideia de que existe um contingente de brasileiros “perverso” e termina falando em impedir a produção de “tanta gente ruim”.
Que autoridade tem essa pessoa para concluir que milhões de trabalhadores, aposentados, desempregados e pessoas pobres escolheram conscientemente a “bandidagem”? A prova que de que não sabe fazer política é Damasco converter a eleição numa página policial enumerando acusações contra candidatos e transfererindo moralmente essas acusações para quem votou neles. Se o eleitor não votou como a esquerda gostaria, então seria fascista, perverso ou simplesmente ruim.
A eleição ocorreu depois de uma crise devastadora para a imagem do STF. Enquanto a maioria da esquerda se esfregava com ministros do Supremo, pesquisa Datafolha de setembro mostrou que 76% dos entrevistados consideravam excessivo o poder dos ministros do Supremo e 77% percebiam queda na confiança da população na Corte.
Havia, portanto, um descontentamento real. A direita percebeu esse sentimento e procurou explorá-lo; enquanto os ‘sábios’ do jornalismo passaram anos apresentando o STF e seus ministros como muralhas da democracia.
O escândalo do Banco Master foi a pá de cal dessa política desastrosa. Um contrato entre o banco de Daniel Vorcaro e o escritório Barci de Moraes previa R$ 131 milhões brutos em honorários ao longo de três anos; a Receita Federal apontou R$ 80,2 milhões em repasses declarados. Metadados analisados pela Polícia Federal indicaram que Alexandre de Moraes fez alterações no documento antes da assinatura.
A PF encontrou ainda uma proposta de segundo acordo, de R$ 50 milhões, na qual R$ 40 milhões seriam quitados com cotas de um jatinho Legacy 650 e de um helicóptero EC 155 B1, e outros R$ 10 milhões cobririam despesas de voo. As cotas correspondiam a um terço do jato e a 20% do helicóptero. O escritório de Viviane Barci de Moraes afirma que essa segunda proposta não foi aceita nem assinada, embora mensagens obtidas pela investigação registrem interlocutores discutindo a utilização das aeronaves.
É diante de um quadro desse tamanho que Damasco escolhe dirigir sua indignação contra o eleitor que olha para tudo isso e conclui que há alguma coisa profundamente errada. Não dá para vir agora como uma criança mimada e chamar a reação popular de “bandidagem”.
Durante anos, a maioria dessa esquerda se aproximou das instituições do Estado burguês em nome da “luta contra o bolsonarismo”. A bandeira contra o STF ficou praticamente nas mãos da direita. Esta pôde posar de força “antissistema”. O trabalhador revoltado com o Supremo encontrava um discurso contra o STF na direita e, do outro lado, uma esquerda dizendo que era necessário defender a Corte.
A maioria da esquerda fez vistas grossas para a verdadeira bandidagem e agora aparece querendo dar bronca na população depois da apuração. Quando Damasco escreve que os eleitores conheciam as acusações contra determinados candidatos e, portanto, escolheram conscientemente a criminalidade, elimina todos os elementos políticos do voto como a rejeição ao governo, situação econômica, desconfiança nas instituições, ausência de alternativa e até descrença nas próprias acusações.
O que Damasco considera “crime”? O trabalhador brasileiro está submetido a um sistema financeiro que cobra taxas escorchantes. A Selic está em 13,75% ao ano e o Brasil voltou a aparecer na liderança de um ranking de juros reais, com 8,45%. No crédito livre às famílias, a taxa média chegou a 61,7% ao ano em agosto; o endividamento familiar atingiu 49,9% da renda disponível anual, enquanto a inadimplência no crédito livre chegou a 8%.
Damasco quer investigar os “recônditos mais sombrios” do espírito do eleitor. Seria mais útil investigar como essa gente vive. O trabalhador entrega uma parcela enorme da renda a bancos, financeiras, aluguel, tarifas e serviços; convive com Saúde e Educação insuficientes e passou praticamente todo o governo vendo o Bolsa Família perder valor para a inflação. A correção de 15,04%, veio apenas no apagar das luzes, uma verdadeira tentativa de compra de votos.
O jornalista deveria se perguntar por que um governo que se diz dos trabalhadores tolerou juros tão elevados e demorou até o final do mandato para recompor o principal programa de transferência de renda.
A pequena burguesia esquerdista adora enxergar a política como uma disputa entre pessoas esclarecidas e atrasadas, democratas e fascistas, cidadãos virtuosos e gente moralmente defeituosa. Porém, quando perde apoio, não investiga sua própria política, começa a espernear e acusa o eleitor.
É essa postura que entrega trabalhadores de mão beijada para a direita. Se uma pessoa está descontente com o governo e com o STF, e a resposta recebida da esquerda é que ela é gado, fascista, bandida ou perversa, quem aparece como disposto a ouvi-la? Justamente a extrema direita, que se aproveita dessa arrogância para vender sua demagogia antissistema.
Damasco mal admite que a esquerda precisa discutir seus erros, pois logo esvazia a admissão afirmando que “lutamos pelo bom e pelo justo” e volta a falar em conter a produção de “gente ruim”. Seu raciocínio não passa de uma divisão infantil entre os bons e os maus, e uma esquerda que trata o povo como réu não precisa apenas rever uma tática eleitoral, precisa aprender a fazer política e parar de fazer birra.





