O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) prometeu acabar com a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), organização que luta pela terra em Rondônia. A ameaça foi feita em conversa com Fernando Máximo (PL), eleito senador pelo estado, que defendeu a classificação da LCP como organização terrorista. A resposta de Flávio foi direta: “Isso aí tem dia e hora pra acabar, pode ter certeza!”.
A declaração foi divulgada pela própria campanha bolsonarista em um vídeo intitulado LCP deve ser classificada como terrorista. Nele, Máximo calunia a organização, acusando-a de integrar o crime organizado, possuir fuzis e matar policiais. Flávio insinua que os camponeses seriam financiados por alguém, perguntando como pessoas pobres poderiam comprar armamento.
O encontro mostra o que os representantes do latifúndio esperam de um eventual governo Flávio Bolsonaro: uma ofensiva contra os camponeses que ocupam terras dos grandes proprietários. Não se trata apenas de ameaças eleitorais.
Rondônia é dominada pelo latifúndio. Tanto é assim que os latifundiários elegem os políticos, desde a Câmara Municipal até o Governo estadual e o Senado. Os políticos de Rondônia comem na mão dos latifundiários. Na verdade, todas as autoridades, incluindo a polícia e o Judiciário, estão nas mãos dos latifundiários. Muitos policiais, que prestam serviços ao latifúndio para proteger sua propriedade assassinando sem terra, são apoiados por eles para se eleger. Obviamente, são políticos de extrema-direita, porque Rondônia é onde existe o maior conflito social entre latifundiários e sem terra/camponeses pobres.
As eleições de 4 de outubro fortaleceram essa pistolagem. Fernando Máximo e Bruno Scheid, ambos do PL, foram eleitos senadores. Marcos Rogério, também do PL, conquistou o governo estadual, tendo como vice o delegado Rodrigo Camargo (Podemos). São políticos que fizeram do combate às ocupações de terra uma de suas principais bandeiras, comprovando que são paus-mandados dos latifundiários.
Marcos Rogério já apresentou no Senado o Projeto de Lei 2.250/2021, que pretende enquadrar determinadas ocupações de terra na legislação antiterrorista. Na justificativa, menciona expressamente a LCP. Bruno Scheid, por sua vez, chegou a perguntar, em vídeo divulgado durante a campanha, como faria para “pisar no pescoço de vagabundo”, numa referência à repressão contra os camponeses. É um parasita que não seria nada se os latifundiários locais não o bancassem, mas chama trabalhadores sem terra de vagabundos.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou 111 ocorrências de violência por terra no estado em 2025, o terceiro maior número nacional. No primeiro semestre de 2026, foram registrados outros 63 conflitos agrários.
É nessa situação que Flávio Bolsonaro promete acabar com a LCP. A classificação da organização como terrorista serviria para ampliar a repressão, perseguir seus dirigentes e transformar a luta pela terra em caso de segurança nacional.
O terror dos latifundiários
A ameaça atual possui antecedentes conhecidos. Em 2021, Jair Bolsonaro anunciou que havia discutido com o então governador Marcos Rocha e com o ministro da Justiça uma estratégia para combater o que chamava de terrorismo em Rondônia.
Naquele mesmo ano, a Operação Nova Mutum mobilizou mais de 3 mil agentes contra aproximadamente 800 famílias camponesas. Policiais militares e integrantes da Força Nacional foram enviados à região com helicópteros, drones e armamento pesado. Segundo A Nova Democracia, a operação custava mais de R$ 1 milhão por dia.
Apesar da superioridade das forças policiais, a resistência dos camponeses impediu que o despejo se consolidasse. Muitas famílias permaneceram nas terras e outras retornaram às áreas ocupadas.
A repressão, entretanto, deixou mortos. A LCP denunciou a execução de Amarildo Aparecido Rodrigues, de 49 anos, seu filho Amaral, de 17, e Kevin Fernando Holanda de Souza, de 21, durante uma operação policial em agosto de 2021. Em outubro, Gedeon José Duque e Rafael Gasparini Tedesco, também ligados à organização, foram mortos por policiais do BOPE. Segundo a Liga, os cinco foram executados.
Os capangas do latifúndio no Legislativo chamam os camponeses de terroristas, mas são os trabalhadores rurais que enfrentam operações com milhares de policiais, despejos, prisões e mortes. É um verdadeiro terror promovido pelo latifúndio através de seu governo, sua polícia e sua justiça, que em Rondônia mostram claramente a quem servem.
Em resposta aos ataques de Jair Bolsonaro, a Comissão Nacional das LCPs declarou, em maio de 2021, que “terroristas são os latifundiários ladrões de terra”. A organização denunciou a utilização de pistoleiros e das forças policiais para garantir a propriedade dos grandes fazendeiros, recordando massacres como Corumbiara, Eldorado dos Carajás e Pau D’Arco.
A disputa não é um simples conflito entre proprietários e invasores, como pretende a propaganda da direita. De um lado estão grandes latifundiários que concentram extensões enormes de terra; de outro, famílias pobres que lutam para conseguir um lugar onde viver e trabalhar. A repressão existe para preservar essa concentração da propriedade.
Onde estão os “antifascistas”?
A ameaça de Flávio Bolsonaro coloca uma questão diretamente à esquerda brasileira. Durante toda a campanha eleitoral, o PT e seus aliados procuraram convencer a população de que uma vitória bolsonarista significaria a instalação de uma ditadura fascista. Para impedir essa possibilidade, seria necessário apoiar Lula e aceitar todas as alianças eleitorais estabelecidas pelo PT com os maiores bandidos da política nacional.
Foi com esse argumento que Geraldo Alckmin, ele mesmo um terrorista inimigo dos sem terra, operários, estudantes e favelados, permaneceu como vice-presidente de Lula. Também foram incorporados à frente ampla políticos como Simone Tebet, representante direta dos latifundiários de Mato Grosso do Sul, e Marina Silva, funcionária do Itaú e de George Soros. No Rio de Janeiro, o PT apoiou Eduardo Paes, enquanto em outras regiões estabeleceu acordos com setores da direita tradicional.
A justificativa apresentada para essas alianças é a necessidade de derrotar o fascismo. Segundo seus defensores, as diferenças políticas e programáticas deveriam ser deixadas de lado para impedir a vitória da extrema direita.
Mas onde está essa disposição para a luta quando os representantes do latifúndio ameaçam abertamente uma organização camponesa?
A esquerda que, para galgar cargos no Estado burguês, viciada em eleições, a cada quatro anos levanta a bunda do sofá para ir às ruas, não move uma palha em defesa da LCP.
O problema é que a luta concreta contra o latifúndio entra em choque com a própria política de alianças do PT. Como organizar uma campanha contra os grandes proprietários rurais mantendo, ao mesmo tempo, uma frente eleitoral com representantes desses mesmos interesses?
A campanha do medo contra Flávio Bolsonaro acaba servindo para justificar o apoio a políticos burgueses, inclusive a setores que possuem interesses diretamente opostos aos dos trabalhadores rurais. O combate ao fascismo fica reduzido à escolha do “menos pior” nas urnas.
A esquerda frente-amplista transformou o fascismo numa acusação aplicável a praticamente qualquer bocejo dos bolsonaristas. Com isso, esvazia o significado de uma política fascista real, que envolve a utilização organizada da violência contra o movimento operário e as organizações populares.
O que acontece em Rondônia é muito mais grave do que as provocações eleitorais utilizadas diariamente para assustar os eleitores. Os camponeses enfrentam uma repressão material, organizada, armada e respaldada por políticos que defendem abertamente os interesses dos latifundiários.
A esquerda que pretende combater o fascismo deveria começar por enfrentar essas forças. Entretanto, sua principal preocupação é reunir votos para Lula, preservar as alianças com a burguesia e garantir espaço na burocracia estatal. A defesa de uma organização como a LCP não oferece as mesmas vantagens eleitorais e ainda cria dificuldades com os setores da direita, da burguesia e do latifúndio incorporados à frente ampla.
Essa política deixa os camponeses isolados justamente quando a extrema direita anuncia uma nova ofensiva contra eles.
É preciso defender a LCP
A luta da LCP merece o apoio de todas as organizações dos trabalhadores. Trata-se de defender os camponeses pobres contra os ataques dos latifundiários, da polícia, dos juízes e do Estado.
É preciso aplicar uma política de luta contra o latifúndio baseada na expropriação das grandes propriedades, sem indenização, e na ocupação das terras pelos camponeses. Os camponeses também têm o direito de organizar sua autodefesa, inclusive por meio do armamento. Só assim podem se proteger do banho de sangue imposto pelos inimigos do povo, que não poupam nem mesmo as crianças.
Essa posição parte de uma realidade concreta: os latifundiários possuem enormes recursos econômicos e contam com forças armadas para defender suas propriedades. Os trabalhadores pobres não podem ser obrigados a enfrentar indefesos a violência dos pistoleiros e das operações policiais.
A defesa dos camponeses precisa ultrapassar os limites do campo. É necessário organizar uma campanha nacional, envolvendo sindicatos, organizações estudantis, movimentos populares e trabalhadores das cidades. A repressão no campo deve ser denunciada nas fábricas, nos bairros operários, nas universidades e nas manifestações populares.
Também é necessário defender todas as organizações que lutam pela terra no Brasil, exigindo o fim da repressão policial, dos despejos e da perseguição aos dirigentes camponeses.
A luta contra o latifúndio não pode ser subordinada aos acordos eleitorais com seus representantes políticos. A concentração da propriedade da terra somente poderá ser enfrentada pela mobilização independente dos trabalhadores do campo e da cidade.
Flávio Bolsonaro já anunciou sua intenção de acabar com a LCP. Os políticos que defendem a repressão contra os camponeses conquistaram o governo de Rondônia e novas cadeiras no Senado. A ameaça não é hipotética: parte de forças políticas que possuem experiência na organização de operações policiais contra os sem terra.
A esquerda que tanto fala em fascismo tem diante de si uma luta concreta. É preciso cerrar fileiras com a LCP e com os camponeses pobres, não com Geraldo Alckmin e os representantes da burguesia que mantêm o latifúndio intocado e exterminam os sem terra.





