Erika Hilton conseguiu quase 1,6 milhão de votos nas eleições de 2026, mas seu partido, o PSOL, deixou de conquistar seis cadeiras na Câmara dos Deputados. A parlamentar tornou-se o terceiro deputado mais bem votado a nível nacional, enquanto sua legenda, apesar de receber mais votos que o PT em São Paulo, elegeu menos deputados. O resultado expõe a política de uma organização que funciona como legenda de aluguel para carreiristas.
Segundo reportagem publicada pelo UOL, o PSOL recebeu aproximadamente 3 milhões de votos para deputado federal em São Paulo e elegeu apenas seis parlamentares. O PT recebeu 2,84 milhões e conquistou 11 cadeiras. A diferença está na distribuição da votação.
Erika Hilton recebeu mais de 1,58 milhão de votos e Sâmia Bomfim conquistou 583.107. Juntas, concentraram mais de dois terços da votação do PSOL. Outros quatro candidatos conseguiram se eleger: Guilherme Cortez, com cerca de 275 mil votos; Luciene Cavalcante, com 253 mil; Natália Boulos, com 114 mil; e Pocahontas, com 54 mil.
O restante do partido ficou para trás. Raul Marcelo obteve 30.119 votos e Juliano Medeiros, ex-presidente nacional do PSOL, recebeu 25.908. Nenhum outro candidato da legenda chegou a 10 mil votos.
Como o quociente eleitoral em São Paulo ficou próximo de 330 mil votos, cada candidato precisava receber pelo menos 33 mil para conquistar uma cadeira. O PSOL tinha votos suficientes para disputar outras seis vagas, mas não possuía candidatos que cumprissem essa exigência. As cadeiras acabaram distribuídas entre outros partidos pelo mecanismo das sobras eleitorais.
A situação é particularmente reveladora porque Hilton não foi apenas beneficiária de uma campanha eleitoral bem-sucedida. Ela protagonizou um barraco com outros setores do PSOL para garantir uma parcela maior do dinheiro destinado às eleições.
Em junho, a parlamentar acusou os dirigentes partidários de descumprirem acordos sobre o financiamento de sua candidatura. Guilherme Boulos interveio em sua defesa, enquanto a presidente do PSOL, Paula Coradi, sustentava que Hilton já recebia o maior investimento entre as candidaturas proporcionais e que era necessário financiar campanhas em todo o País.
A própria deputada afirmou à Folha de S.Paulo que os dirigentes haviam implorado para que permanecesse na legenda, pois precisavam de sua votação para superar a cláusula de barreira. É uma declaração que revela a relação entre a parlamentar e o partido: não é a militante que se subordina à organização, mas a organização que depende eleitoralmente do taco de sua estrelinha.
Hilton acabou recebendo aproximadamente R$ 2,38 milhões para sua campanha, segundo os registros do Tribunal Superior Eleitoral. Desse montante, R$ 2,24 milhões vieram do Fundo Especial de Financiamento de Campanha.
O PSOL destinou uma fortuna a uma candidata que já possuía uma enorme propaganda positiva feita pelo Partido da Imprensa Golpista (PIG). Depois da votação, entretanto, a deputada passou a reclamar que o partido havia investido dinheiro em candidaturas de pouco potencial eleitoral.
Em entrevista à GloboNews, Hilton afirmou:
“Houve uma concentração [de recursos] em candidaturas com pouco potencial de serem eleitas. Houve uma dificuldade da direção partidária em conseguir entender onde era melhor investir os recursos para garantir que o recurso superasse a cláusula de barreira.”
O raciocínio é bastante conveniente para quem recebeu uma das maiores parcelas do financiamento eleitoral da legenda. A parlamentar exigiu dinheiro para sua própria campanha e, depois, criticou os recursos destinados aos demais candidatos. Sua solução para a derrota partidária consiste em privilegiar ainda mais aqueles que já dispõem de maior projeção eleitoral.
É o resultado da lógica que norteia o PSOL desde sempre: ser uma associação de parlamentares. Desde sua fundação, o partido foi dominado por grupos interessados na conquista e manutenção de mandatos. Sua atividade se concentra nas eleições, nas disputas internas pela distribuição de recursos e nas negociações por cargos no aparelho de Estado da burguesia.
A ascensão de Hilton levou essa política a um novo patamar. A deputada é apresentada pelos grandes meios de comunicação da burguesia como uma celebridade política, com destaque permanente para sua imagem e para sua performance identitária. Ela é produto de uma política que substitui a organização dos trabalhadores pela promoção de personalidades carreiristas que buscam cargos bem remunerados na máquina de dominação dos capitalistas.
O identitarismo oferece o conteúdo ideológico dessa operação. A luta coletiva dos explorados contra os capitalistas é substituída pela valorização de indivíduos apresentados como representantes de determinados grupos sociais. Sua ascensão pessoal dentro das instituições burguesas é anunciada como uma conquista coletiva, embora só ela se beneficie disso, como fica comprovado pelo caso analisado neste artigo.
Trata-se de uma orientação promovida pela burguesia, fundações privadas e organizações não governamentais financiadas pelo imperialismo. Em vez de confrontar o regime político, essa esquerda liberal adapta-se totalmente a ele, utilizando a linguagem da representação social para conquistar posições no Parlamento, nos governos e nos aparelhos do Estado.
O PSOL também sofreu uma derrota nacional graças à ditadura dos parlamentares dentro do partido. A Federação PSOL-Rede recebeu 4,9% dos votos válidos para deputado federal, percentual superior aos 2,5% exigidos pela cláusula de barreira. Entretanto, não atingiu o mínimo regional necessário em nove unidades da Federação. Conseguiu cumprir a exigência em apenas oito.
A federação elegeu 15 deputados federais, número superior ao mínimo legal de 13, mas distribuídos por apenas seis unidades da Federação. Também por esse critério ficou impedida de superar a cláusula de barreira, perdendo acesso ao Fundo Partidário e à propaganda partidária gratuita no rádio e na televisão.
A cláusula de barreira é uma medida antidemocrática destinada a restringir a atuação dos partidos menores e favorecer as grandes organizações burguesas. O PSOL procurou adaptar-se a essas regras por meio de acordos eleitorais, alianças e da promoção de suas figuras mais conhecidas. Nem isso foi suficiente para garantir sua permanência entre as organizações que recebem esses benefícios.
As seis cadeiras desperdiçadas em São Paulo e a derrota nacional possuem uma origem política comum: a ausência de uma organização partidária desenvolvida em torno de um programa de luta dos trabalhadores. O PSOL reúne superestrelas, performistas e parlamentares empenhados em preservar seus próprios mandatos.
Uma organização revolucionária utiliza as eleições para divulgar seu programa, recrutar militantes e ampliar a mobilização popular. No PSOL, a eleição é um objetivo em si mesmo. A própria existência do partido está subordinada às oportunidades abertas pelo regime político.
A política das celebridades é suicida até mesmo para uma organização com ambições tão rebaixadas. Erika Hilton terminou a campanha com votação recorde e mandato garantido. O PSOL perdeu a oportunidade de conquistar seis deputados em São Paulo e ficou fora da cláusula de barreira. Para a parlamentar, a eleição foi uma consagração pessoal. Para o partido, a conta chegou.





