A derrota de Lula nas eleições presidenciais provocou uma reação verdadeiramente repugnante entre setores da esquerda. Nas redes sociais, pessoas que até ontem se apresentavam como defensoras dos pobres, da democracia e dos direitos humanos passaram a desejar que os trabalhadores brasileiros sejam submetidos à fome, ao desemprego, à exploração brutal e até à morte. Tudo porque uma parcela da população não votou conforme a vontade dessa classe média pretensamente progressista.
O espetáculo é revelador. Aqueles que passaram anos acusando seus adversários de fascismo agora defendem abertamente a retirada de direitos sociais, a perseguição religiosa, a implantação de uma ditadura e o abandono de pessoas em situações de extrema necessidade. Alguns chegam a comemorar a possibilidade de catástrofes naturais, massacres e doenças atingirem a população.
Um levantamento de dezenas de publicações feitas no X, antigo Twitter, após o resultado eleitoral de domingo (4), revela até onde chegou a degeneração política desses setores.
O perfil DEL’AMORESEP, por exemplo, anunciou que passaria a apoiar medidas contra os trabalhadores:
“Vai aprovar escala 7×0? Serei a favor. Vai aprovar reforma tributária, e terá que trabalhar até 80 anos? Serei a favor. Vai cortar benefício social e dar isenção pra bilionário? Serei a favor. Vai acabar com o 13º e férias pra não sufocar o empresário? Serei a favor.”
A publicação termina afirmando que “o povo só vai aprender assim”.
O que aconteceu com a defesa dos direitos trabalhistas? Com o combate à exploração capitalista? Tudo foi jogado no lixo porque o trabalhador não votou no candidato preferido dessa gente. O suposto progressista está disposto a apoiar os patrões, os banqueiros e toda a política da direita contra a classe operária para satisfazer seu ressentimento eleitoral.
Outro usuário, identificado como Carlos, foi ainda mais explícito:
“Quero fila de osso. Quero corte em bolsas para atletas. Quero corte de bolsas para estudantes. Quero privatização em massa. Quero entrega de minerais e terras raras aos estrangeiros. Quero nome de bet nas escolas. Quero privatização dos Correios. Quero muitos jurinhos a serem pagos.”
A lista parece o programa do governo Milei. Mas foi publicada como expressão de revolta pela derrota de Lula.
A questão é simples: para esse setor da pequena burguesia liberal e identitária, os direitos dos trabalhadores não são conquistas que precisam ser defendidas independentemente de quem esteja no governo. São benefícios concedidos aos que se comportam corretamente diante das urnas.
Se o povo vota no PT, merece direitos. Se vota no bolsonarismo, merece ser explorado até a morte.
O ódio patronal aos trabalhadores
O desprezo pela classe operária aparece de maneira particularmente clara nas manifestações dirigidas aos trabalhadores de serviços.
O perfil pedroca anunciou que deixaria de pagar a taxa de serviço dos garçons. Antecipando a reclamação de um trabalhador que depende desse dinheiro para complementar sua renda, respondeu:
“Amigão, se seu salário tá baixo, vai negociar com o teu patrão.”
É a velha conversa patronal. Em vez de organização coletiva, sindicatos e luta por aumentos salariais, o trabalhador deve enfrentar individualmente o empresário.
Outro usuário, André Benedetti, publicou que passaria a tratar os motoristas de aplicativo com a expressão “amigão, só dirige”. Também comemorou a ideia de não pagar gorjetas aos entregadores, concluindo:
“Tá na hr do brasileiro médio viver a sociedade que eles mesmos escolheram e que se foda.”
Um motorista que trabalha 12 ou 14 horas por dia passa, assim, a ser considerado merecedor de humilhação porque uma parcela de sua categoria votou no candidato da direita.
A usuária Lady Kruella apresentou um exemplo ainda mais revoltante. Segundo seu relato, uma diarista trabalhou durante três semanas, quatro horas por dia, na campanha de candidatos do PL, para receber R$ 1.500 ao final do primeiro turno. Sem dinheiro para comprar gás de cozinha, pediu um adiantamento de R$ 150.
A resposta que a dondoca comemorou foi:
“Peça pro PL.”
Uma mulher trabalhadora, sem dinheiro para comprar gás, torna-se objeto de escárnio por causa de sua escolha eleitoral.
O mesmo desprezo aparece na publicação de Bia 13, que anunciou uma “micro vingança” contra uma professora bolsonarista a quem costumava oferecer carona:
“Poxa, se ela se esforçar e acordar cedo ela compra um carro pra ela. Abraços.”
O argumento poderia ter saído da boca de qualquer empresário reacionário: o pobre não possui carro porque não se esforça o suficiente.
Esse é o conteúdo social do progressismo pequeno-burguês. Enquanto o trabalhador vota no PT, recebe algumas declarações de simpatia. Quando vota na direita, passa a ser tratado como um empregado que precisa conhecer seu lugar.
Querem que o povo passe fome e morra
Algumas manifestações ultrapassam até mesmo o desprezo econômico e assumem a defesa aberta do sofrimento humano.
O perfil JEFFERSON publicou:
“Vou virar o sujeito mais rancoroso desse país! Choveu e tua casa desmoronou? Foda-se. Tá sem comer? Foda-se. Cachorro demais nas ruas? Foda-se. Imprensa foi censurada? Foda-se. Precisa de doação pra tratamento de câncer: foda-se.”
A publicação termina com a sentença: “Povo brasileiro merece.”
Um suposto defensor da democracia comemorando antecipadamente a morte de pessoas que precisam de tratamento médico. Um suposto defensor dos pobres desejando que pessoas famintas continuem sem comida.
Outro perfil, identificado como mola, publicou:
“Quero o Rio Grande do Sul embaixo d’água. Quero São Paulo um mês sem luz. Quero o Rio de Janeiro (mais) dominado por miliciano. Quero Brumadinho 2.0 acontecendo em Minas Gerais. Quero todo mundo tomando sopa de osso de novo. Quero todo mundo trabalhando de domingo a domingo.”
A referência a Brumadinho é particularmente monstruosa. A tragédia de 2019 matou 272 pessoas, vítimas de um desastre ligado às atividades de uma grande mineradora. Desejar sua repetição equivale a transformar a morte de trabalhadores em instrumento de vingança eleitoral.
O perfil fake do kevin durant apresentou a mesma posição diante da possibilidade de novas enchentes no Rio Grande do Sul:
“Quando em maio o RS estiver abaixo da água, não ajudem. Digo isso como gaúcho. Não deem um centavo, não ajudem com nada. Quem elege negacionistas climáticos merece sofrer com as alterações do clima.”
A publicação recomenda que, no máximo, sejam ajudadas organizações de proteção aos animais.
Para esse indivíduo, a vida de uma criança, de um idoso ou de uma família inteira teria menos importância do que a escolha eleitoral feita pela população de seu estado.
Outros perfis recorreram a memes para manifestar indiferença diante de massacres no Rio de Janeiro, do alagamento do Sul do país, de incêndios na Amazônia e até de uma nova pandemia.
Uma usuária publicou uma imagem acompanhada da situação hipotética de São Paulo completar três meses sem energia e água encanada, com moradores obrigados a beber barro. A mensagem era de absoluto desinteresse pela tragédia.
O perfil aiko & that, por sua vez, comentou a publicação de uma mãe sobre sua filha com paralisia cerebral, que havia votado no número 22. A resposta comemorava a possibilidade de a jovem perder a assistência do SUS e medicamentos.
Nem mesmo uma pessoa com deficiência escapa ao desejo de punição coletiva.
É o retrato de uma mentalidade fascistoide. O direito à saúde, à alimentação, à moradia e à própria sobrevivência passa a depender da opinião política de cada cidadão.
Os direitos humanos, que essa gente afirma defender, tornam-se privilégios reservados aos que votam corretamente.
A crueldade como programa político
O perfil identificado como na apresentou uma comparação reveladora entre o discurso progressista de 2018 e a reação atual:
“Amo q em 2018 era ‘ngm solta a mão de ngm’ e ‘vamos combater o ódio com amor’ vibes e esse ano é ‘tomara que cancelem seu bolsa família’, ‘trabalha 7×0 aí seu arrombado’, ‘espero que tu perca tua casa pras bets’, ‘vou pedir iFood todo dia q tiver chovendo’.”
Em seguida, a própria autora acrescentou:
“Dito isso, pobre que vota na direita tem mais é que se foder mesmo.”
A publicação sintetiza uma transformação que, na realidade, é a revelação do verdadeiro caráter político desses setores.
A solidariedade aos trabalhadores era uma solidariedade eleitoral. A defesa dos pobres tinha uma condição: que votassem no candidato da classe média progressista.
Quando essa condição deixou de ser cumprida, apareceu o ódio de classe.
A influenciadora Graci Grecco chegou a propor que Lula, após a derrota, retirasse os subsídios de energia e combustíveis para provocar uma disparada da inflação antes da posse do sucessor. O objetivo seria deixar uma situação econômica desastrosa para o novo governo.
A consequência imediata seria o aumento do custo de vida de milhões de trabalhadores. Mas isso não parece incomodar a autora.
Outro usuário, Mario, publicou uma lista de preços de alimentos, combustíveis e outros indicadores econômicos, afirmando que guardaria aqueles números para quando estivessem duas vezes maiores no futuro governo, a fim de poder dizer que havia avisado.
A possibilidade de deterioração das condições de vida do povo transforma-se em motivo de expectativa.
A derrota eleitoral produziu uma espécie de torcida pela desgraça nacional.
O comportamento também aparece na defesa da ruptura de relações familiares. Yuri Célico escreveu:
“Rompam com seus familiares SIM, quebrem famílias SIM, marquem sua revolta com esse resultado SIM. Não deem a eles o gostinho de continuar tudo normal depois disso. Nessa altura, eles SABEM o que fizeram de errado. Não tem mais perdão.”
A divergência política deixa de ser algo que deve ser debatido e passa a ser tratada como um crime moral imperdoável.
É a política do ressentimento levada ao extremo. Já não se procura convencer ninguém. O objetivo é isolar, humilhar e castigar os adversários.
Os fascistas que se dizem antifascistas
A reação não se limitou ao desejo de sofrimento econômico. Alguns apoiadores de Lula passaram a defender abertamente a implantação de uma ditadura.
O usuário Thiago publicou:
“Se o Lula tivesse culhão, dissolveria o Congresso agora e instauraria uma ditadura e metade do Brasil o apoiaria.”
A publicação prossegue propondo a criminalização dos evangélicos e de qualquer instituição opositora ao regime identitário e banqueiro.
Eis o conceito de democracia de uma parcela da esquerda pequeno-burguesa. Quando seu candidato vence, é preciso respeitar as instituições. Quando perde, o correto seria dissolver o Parlamento, perseguir adversários e estabelecer uma ditadura. Mas foi justamente por expressar ideias assim que Eduardo Bolsonaro foi tão atacado por essa mesma esquerda, ou que, mesmo não tendo exatamente essas ideias, bolsonaristas pé-rapados foram presos sob os festejos dessa mesma gente.
Outro usuário, identificado como Gui Jong Un, publicou uma imagem de Stálin defendendo a utilização de uma suposta ditadura do proletariado contra os adversários eleitorais:
“Desculpa, galera, mas o negócio se chama ditadura do proletariado por uma razão, não tem como, não tem como!!!!! É mão de ferro em cima deles e Gulag.”
A declaração é particularmente absurda porque uma parcela importante dos eleitores bolsonaristas pertence justamente à classe trabalhadora.
O que esse indivíduo propõe, portanto, não é uma ditadura do proletariado. É uma ditadura contra o proletariado. Até porque o governo Lula é um governo burguês que vem se direitizando aceleradamente, com todos os tipos de concessões aos banqueiros.
Assim, o socialismo, que deveria expressar o poder dos trabalhadores sobre a sociedade, é transformado numa fantasia de repressão da pequena burguesia contra os próprios trabalhadores.
A defesa da perseguição política, a hostilidade contra a população pobre e o desejo de impor uma ditadura aos adversários revelam o conteúdo reacionário de tais manifestações.
São os fascistas antifascistas. Pessoas que passam o dia denunciando o autoritarismo alheio, mas desejam esmagar aqueles que discordam de suas posições.
Uma nova UDN
O desprezo pela população pobre não constitui novidade na política brasileira. Antes do golpe de 1964, a União Democrática Nacional (UDN) agrupava setores conservadores da classe média e das camadas mais ricas que desprezavam profundamente o eleitorado popular.
Os trabalhadores votavam no varguismo, no trabalhismo e em políticos como Ademar de Barros. A reação udenista era acusar essa população de ignorância, imoralidade e incapacidade política.
O povo era apresentado como um obstáculo à “democracia” porque não votava conforme os interesses da classe média conservadora.
É exatamente essa mentalidade que reaparece agora em setores da esquerda.
Uma usuária identificada como Matilda afirmou que o brasileiro médio não sonha com educação, saúde ou segurança, mas com um iPhone, um curso de coach e produtos de consumo baratos.
O raciocínio é tipicamente aristocrático. Os trabalhadores não teriam reivindicações legítimas, mas desejos vulgares e superficiais. Suas escolhas políticas seriam resultado de uma inferioridade moral e intelectual.
Outra publicação, do perfil tami, ironizou as reclamações sobre os preços elevados e a falta de dinheiro, argumentando que, ao sair às ruas, seria possível encontrar várias lojas da BYD.
É a velha tese de que o povo está satisfeito, mas não sabe. A existência de automóveis novos seria suficiente para desmentir as dificuldades de milhões de famílias que precisam escolher entre pagar o aluguel, comprar alimentos e quitar suas dívidas.
O perfil Vitor Voss, por sua vez, enumerou algumas medidas do governo Lula, como reajustes no Imposto de Renda, programas para motoristas e defesa da escala 5×2, para reclamar que nada disso havia sido reconhecido pelo eleitorado.
O problema é que a vida dos trabalhadores não pode ser reduzida à propaganda governamental. O fato de um governo anunciar determinadas medidas não elimina a carestia, os baixos salários, o endividamento e a exploração.
A classe média udenista do passado acusava o povo de não reconhecer as virtudes de seus candidatos. A classe média “progressista” de hoje acusa o trabalhador de não reconhecer as realizações de Lula.
A semelhança não é casual. Em ambos os casos, setores socialmente privilegiados assumem o direito de determinar como o povo deve votar e passam a desprezá-lo quando suas ordens não são obedecidas.
O PT perdeu o povo e seus apoiadores querem castigá-lo
O aspecto mais revelador dessas publicações é a ausência quase completa de qualquer reflexão sobre a política do próprio governo Lula.
O trabalhador brasileiro enfrenta baixos salários, preços elevados, juros exorbitantes, endividamento e condições de trabalho cada vez mais duras. Os bancos continuam acumulando lucros gigantescos enquanto os recursos públicos são destinados ao pagamento da dívida.
Diante da derrota eleitoral, seria necessário explicar por que o governo não conseguiu conquistar o apoio de uma parcela maior dos trabalhadores.
Mas a reação desses setores foi outra: a culpa é do povo.
Não é o governo que falhou ao atender às reivindicações populares. São os trabalhadores que supostamente não compreenderam as maravilhas oferecidas pelo governo.
Essa inversão é resultado direto da falência política do petismo.
O PT abandonou a perspectiva de mobilização independente dos trabalhadores para se integrar cada vez mais ao regime político dominado pelos banqueiros, pelo grande empresariado e pelo imperialismo.
A aliança com Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB, é uma expressão dessa orientação. O partido que historicamente se apresentou como representante dos trabalhadores passou a governar em associação com setores tradicionais da direita.
Sem um programa capaz de entusiasmar as massas, a campanha eleitoral foi reduzida à ameaça permanente de que a vitória do adversário significaria a chegada do fascismo.
O trabalhador deveria votar em Lula não porque teria sua vida transformada, mas porque precisava impedir uma catástrofe.
Quando essa chantagem fracassou, uma parcela da base governista começou a desejar que a catástrofe realmente acontecesse.
O comportamento não poderia ser mais contraditório. Pessoas que afirmavam votar no PT para proteger os pobres agora desejam que os pobres percam seus direitos. Pessoas que diziam combater a violência agora torcem por massacres. Pessoas que condenavam o autoritarismo agora defendem ditadura e perseguição religiosa.
Não se trata de radicalização à esquerda, mas de uma guinada abertamente reacionária.
É a manifestação política de uma camada pequeno-burguesa que nunca teve verdadeira solidariedade de classe com os trabalhadores. Sua simpatia pelos pobres estava condicionada à utilização eleitoral dessa população.
A derrota revelou aquilo que a propaganda progressista procurava esconder.
Enquanto o bolsonarismo procura conquistar setores populares com sua demagogia, esses falsos esquerdistas oferecem insultos, humilhações e ameaças. Ao trabalhador que votou em Flávio Bolsonaro, dizem que merece passar fome. Ao motorista de aplicativo, anunciam que será tratado como servo. À diarista sem dinheiro para comprar gás, respondem que peça ajuda ao PL.
É difícil imaginar uma maneira mais eficiente de entregar a classe operária à direita.
O que aparece nessas dezenas de publicações não é uma revolta dos trabalhadores contra a burguesia. É a revolta de setores da pequena burguesia contra os trabalhadores.
Uma espécie de nova UDN cor-de-rosa, que utiliza a palavra fascismo para atacar seus adversários enquanto reproduz o desprezo de classe, o autoritarismo e a crueldade característicos das tendências mais reacionárias da política brasileira.





