Quase 140 anos depois da abolição formal da escravidão, trabalhadores continuam sendo encontrados em condições de escravidão no sul do Pará.
A permanência dessa forma extrema de exploração levou a Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Xinguara e a rede de assistência social de Redenção a discutir a criação de um procedimento permanente para atender as vítimas.
A reunião ocorreu em 7 de agosto, na sede do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), e contou também com representantes do Centro de Referência de Assistência Social (Cras), da Vigilância Socioassistencial e da Campanha Nacional de Combate ao Trabalho Escravo.
A proposta é definir previamente o que deve acontecer depois que um trabalhador for identificado ou retirado de uma situação de escravidão: qual serviço fará o primeiro acolhimento, quais órgãos deverão ser acionados e como será realizado o acompanhamento.
Segundo integrantes da CPT, a ausência de uma regra comum faz com que cada caso possa depender excessivamente da experiência do servidor responsável pelo primeiro atendimento.
A formalização busca impedir que mudanças de funcionários ou de administração municipal interrompam a assistência às vítimas.
A necessidade de criar esse mecanismo decorre de uma realidade persistente no campo paraense.
A CPT afirma que trabalhadores continuam sendo resgatados de situações de exploração extrema no sul do Pará. A entidade relaciona esse quadro à própria formação fundiária da região.
Durante a ditadura militar, a ocupação do território foi impulsionada por políticas que favoreceram grandes propriedades e aprofundaram a concentração das terras.
Décadas depois, essa estrutura permanece praticamente intocada. Grandes fazendas convivem com uma enorme massa de trabalhadores pobres, obrigados a procurar emprego em regiões afastadas e submetidos às condições impostas pelos proprietários.
Retirar alguém de uma fazenda onde existe trabalho escravo é apenas uma parte do problema.
Sem emprego, moradia, terra ou renda, o trabalhador continua vulnerável aos mesmos mecanismos que permitiram sua exploração anteriormente.
Por isso, a proposta discutida em Redenção prevê que o atendimento continue depois do resgate, com acolhimento, acesso aos serviços públicos e acompanhamento da vítima.




