José Álvaro Cardoso

Graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Economia Rural pela Universidade Federal da Paraíba e Doutor em Ciências Humanas pela UFSC. Trabalha no DIEESE.

Coluna

Em 32 anos o preço da cesta básica em Florianópolis aumentou 46,39% acima da inflação

O valor do rendimento médio deveria ser suficiente para custear alimentação, aluguel, transporte, luz, água etc.

Segundo o DIEESE, em julho de 1994, mês de implantação de uma nova moeda, o real, uma cesta básica alimentar custava R$ 68,88 em Florianópolis. Em junho de 2026, essa mesma cesta básica, suficiente para suprir as necessidades alimentares mensais de um adulto, custou R$ 918,42. Verificou-se, no período, um aumento de 1.233,36%.

No mesmo período, entre julho de 1994 e maio de 2026, o INPC-IBGE (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) totalizou 810,82%. Se tomarmos o valor da cesta básica de julho de 1994, de R$ 68,88, e o corrigirmos pelo INPC-IBGE do período, o valor seria de R$ 627,37. Como o custo atual da cesta básica está em R$ 918,42, isso significa que os preços dos alimentos básicos em Florianópolis, no período indicado, aumentaram 46,39% acima da inflação.

Como uma etapa do Plano Real, a partir de julho de 1995 começou a vigorar no País a chamada livre negociação, ou seja, a ausência de uma política pública de reajuste dos salários. A exceção foi o salário mínimo, que, em geral, manteve uma política de reajuste anual durante esse período. O objetivo era a desindexação dos preços, inclusive do preço da força de trabalho. Nessas mais de três décadas desde 1994, observamos que muitos preços básicos continuaram indexados pela inflação passada. Porém, boa parte dos salários foi reajustada abaixo da inflação, o que levou a uma perda significativa de poder aquisitivo.

O DIEESE estima que, em junho de 2023, o salário mínimo necessário para a manutenção de uma família de quatro pessoas deveria ter sido de R$ 8.110,92, equivalente a cinco vezes o salário mínimo reajustado, de R$ 1.621,00. O cálculo é feito levando-se em consideração uma família de quatro pessoas, com dois adultos e duas crianças. A perda de poder aquisitivo no período analisado acima é expressiva para todos os trabalhadores, mas especialmente para aqueles que recebem até três salários mínimos, sobre cujos orçamentos o peso da alimentação é enorme.

O problema fundamental da inflação no Brasil é que a taxa de exploração é muito elevada e os salários são muito baixos. Qualquer elevação mais significativa da inflação coloca boa parte da classe trabalhadora no primeiro patamar da fome. O DIEESE estima que 61,9 milhões de pessoas recebem o salário mínimo no Brasil: 30 milhões de trabalhadores formais e informais; 24 milhões de aposentados e pensionistas; e 8 milhões de beneficiários de programas sociais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Segundo a PNAD Contínua — Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE —, o rendimento médio real de todos os trabalhos no Brasil está em R$ 3.737,00, equivalente a 46% do valor do salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE, de R$ 8.110,92, como vimos. O valor do rendimento médio deveria ser suficiente para custear alimentação, aluguel, transporte, luz, água etc. Porém, mesmo que fosse o dobro, a conta não fecharia, como mostra o valor do salário mínimo necessário.

Os dados mencionados estão organizados abaixo:

Evolução do preço da cesta básica e de outros indicadores

  • Julho de 1994: R$ 68,88
  • Junho de 2026: R$ 918,42
  • Variação do preço da cesta básica em Florianópolis no período: 1.233,36%
  • INPC-IBGE de agosto de 1994 a maio de 2023: 810,82%
  • Valor que a cesta básica de Florianópolis teria se fosse corrigida pelo INPC-IBGE do período, de 810,82%: R$ 627,37
  • Variação da cesta básica de Florianópolis acima do INPC-IBGE do período: 46,39%

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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