Polêmica

‘Ecossocialismo’ é uma ideologia anti-operária

A visão religiosa da natureza, mais cedo ou mais tarde, fará com que o Estado aumente a pressão sobre os cidadãos em nome de defender a ecologia

Adão e Eva são expulsos do Paraíso

O artigo Uma democracia socioecológica, de Leonardo Boff, publicado no Brasi 247 nesta quarta-feira (26), faz propaganda do ecossocialismo, uma concepção burguesa e religiosa da realidade.

Apesar do nome, o ecossocialismo não é marxista, e sim um idealismo que, no máximo, critica a democracia e propõe sua reforma.

Boff, ele mesmo assume sua posição democratizante ao sustentar que “com a crise geral das democracias e face aos ataques do fascismo e da extrema-direita à la Donald Trump, [está] em busca de uma democracia enriquecida que atenda às mudanças ecológicas e geopolíticas que estão em curso.”

Fica claro na proposta que a classe trabalhadora, a maioria da população, fica em segundo plano; primeiro vem a ecologia.

Não passa de idealismo dizer que “o que interessa a todos deve poder ser decidido por todos, seja diretamente, seja por representantes. Estamos em busca de um novo tipo de democracia”. Boff ignora a luta de classes, o que é básico em política. Para se exercer o poder político, é preciso conquistá-lo, e isso só pode ser resultado de uma luta. Ficar “buscando um novo tipo de democracia”, além de ser uma proposta vaga, só pode dizer respeito às classes sociais mais abastadas, que não têm nenhum senso de urgência. Diferentemente da classe trabalhadora, que está mergulhada na miséria e não pode ficar esperando que um dia brote do chão uma “nova democracia”.

Segundo Boff, “hoje está se impondo o projeto de uma democracia ecológico-social ou, na formulação de Michael Löwy e seu grupo, de um ecossocialismo”. O que não passa de uma enganação.

Löwy é um revisionista que diz que o ecossocialismo não é simplesmente acrescentar uma preocupação ambiental ao socialismo. É uma tentativa de repensar o próprio projeto socialista a partir da crise ecológica. Ele diz que procura fazer uma síntese entre a crítica marxista do capitalismo e a crítica ecológica da civilização industrial. Mas suas propostas também não passam de idealizações que não partem da realidade material. Critica o capitalismo por produzir demais, mas, ao mesmo tempo, diz que as experiências socialistas do século XX também cometeram um erro fundamental ao adotar uma concepção produtivista de desenvolvimento.

A crítica tanto ao socialismo quanto ao capitalismo serve para colocar uma capa de esquerdismo no ecossocialismo. A humanidade já vive no capitalismo, e a crítica ao socialismo serve para desencorajar a classe trabalhadora a buscar uma revolução socialista. O melhor seria tentar um “novo” caminho. O resultado não é outro que a defesa do capitalismo.

Löwy fala abstratamente em planejamento democrático; necessidades humanas; redução do consumo supérfluo; mudança dos padrões de produção; democracia participativa; transformação dos valores sociais, etc., mas não demonstra como se passa das necessidades às mudanças; ou seja, quais forças sociais terão poder para superar o capitalismo.

Digamos que amanhã a população chegue democraticamente à conclusão de que precisamos abandonar os combustíveis fósseis, reduzir drasticamente a produção de automóveis, nacionalizar a energia e direcionar os investimentos para transporte coletivo. Quem vai ter a força e os meios materiais para impor tal plano? Isso envolve interesses econômicos poderosos, e a burguesia não vai ficar assistindo de braços cruzados seus investimentos descendo pelo ralo.

A prova de que o ecossocialismo é uma política de direita está no fato de Michel Löwy ter assinado uma carta publicada no The Guardian, na qual iguala o Irã ao imperialismo e a “Israel”.

O Irã, um país sancionado pelo imperialismo, que acaba de sofrer uma guerra de agressão e que ainda assim impôs uma derrota humilhante aos Estados Unidos, “Israel” e uma coalizão de países, é alvo de crítica. Löwy, portanto, defende os agressores, os genocidas, gente que bombardeia escola de crianças.

A igrejinha do Boff

O autor diz que “essa compreensão [do ecossocialismo] nos obriga a superar um limite interno ao discurso clássico da democracia: o fato de ser ainda antropocêntrica e sociocêntrica, vale dizer, centrada apenas nos cidadãos e na sociedade. Eles são reducionistas, pois o ser humano não é um centro exclusivo, nem mesmo a sociedade, como se todos os demais seres somente ganhassem sentido enquanto ordenados a ele e à sociedade”.

Mais uma vez Boff deixa o ser humano de lado, o que é absurdo, pois a humanidade não pode enxergar a realidade que não seja a partir dela mesma. Por outro lado, a vida não faz sentido para os humanos imaginar um planeta Terra com plantas e animais boiando no espaço sem que eles estejam aí.

Segundo sustenta Leonardo Boff, “a sociodemocracia é o valor e o regime de convivência que melhor se adequa à ordem geral das coisas e da natureza humana cooperativa e societária. Aquilo que vem inscrito em sua natureza é transformado em projeto político-social consciente, fundamento da democracia: a cooperação e a solidariedade sem restrições. Realizar a democracia, da melhor forma que pudermos, significa avançar mais e mais para dentro do reino do especificamente humano. Significa religar-se também mais profundamente ao todo e à Terra”.

Essa pregação é inócua, desconsidera o que está acontecendo no mundo, no qual o imperialismo arrasta a humanidade para a III Guerra Mundial.

Para a classe trabalhadora, não interessa a democracia burguesa, mas o comunismo.

Enquanto a humanidade passa por uma de suas piores crises, fruto da crise aguda do imperialismo, com guerras intermináveis, fome e miséria; apartado da realidade, Leonardo Boff, olhando para as nuvens, fala do “surgir da democracia ecológico-social e do ecossocialismo, enriquecimento necessário da democracia clássica em tempos de nova consciência ecológica”.

A classe trabalhadora não vai embarcar em sonhos idílicos daqueles que já estão com a vida ganha; tem tarefas urgentes a cumprir. A principal é derrotar e expropriar a burguesia. Para isso, a esquerda vai ter de se livrar de toda a tralha reformista, que apenas adia a tomada do poder pelos trabalhadores.

Punições à vista

É preciso deixar um alerta sobre essa proposta mistificadora de Boff, que diz que “a Terra é portadora de subjetividade, de direitos e de relativa autonomia, tanto ela quanto os ecossistemas que a compõem. Há a dignitas Terrae, a dignidade da Terra que reclama respeito e cuidado.

Impõe-se uma ampliação da personalidade jurídica à Terra”.

Isso, fatalmente, se transformará amanhã em leis punitivas e encarceramentos. Quem quebrar o galho de uma árvore será preso. Já se fala em “racismo ambiental”, “ecocídio” e nada impede que surjam novas modalidades de crimes.

Às penas por “gordofobia”, “misoginia”, etc., se somarão novas que, como todos sabem, aumentarão o poder do Estado burguês e seu poder repressor.

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