Editorial

E ainda assim, fará seminário com os sionistas

Após Lula dizer que Netaniahu “faz mal à humanidade” e afirmar que cogitou romper relações com “Israel”, governo mantém para 16 de abril seminário do Itamaraty sobre antissemitismo

O governo Lula manteve para 16 de abril, no Palácio do Itamaraty, um seminário sobre antissemitismo com participação majoritária de lideranças sionistas, mesmo após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmar, em entrevista nesta terça-feira (14), que Benjamin Netaniahu “é o tipo de político que faz mal à humanidade” e que chegou a cogitar o rompimento das relações diplomáticas com “Israel”. A realização do evento, coordenado pela assessora presidencial Clara Ant, explicita a contradição entre o discurso público do presidente contra o governo israelense e a colaboração do próprio Estado brasileiro com setores ligados ao lobby sionista.

Na entrevista concedida aos portais Brasil 247, Revista Fórum e DCM, Lula declarou estar “convencido” de que Netaniahu é “uma figura fora da linha”, disse que “Israel age com a complacência dos Estados Unidos” e afirmou que pensou em romper relações diplomáticas, embora tenha acrescentado que seria preciso cautela para não tomar uma decisão precipitada. O presidente também destacou os laços históricos do Brasil com “Israel” e a presença da comunidade judaica no País como fatores a serem considerados em qualquer decisão de política externa.

Do outro lado dessa declaração, o Ministério das Relações Exteriores organiza para esta quarta-feira (16) o evento intitulado “Enfrentamento ao antissemitismo: reflexões sobre o cenário internacional”, com participação do Ministério dos Direitos Humanos e do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, embora esses dois órgãos tenham informado, que não são responsáveis pela organização. O seminário será realizado no Dia Nacional da Lembrança do Holocausto.

Questionado sobre isso, o Itamaraty respondeu que o encontro busca qualificar o debate público e institucional sobre o enfrentamento ao antissemitismo, aportar elementos para políticas públicas e discutir definições, formas de monitoramento e estratégias de combate ao fenômeno. Ou seja, é um encontro para fomentar a perseguição aos críticos de “Israel”. A pasta também afirmou que os palestrantes terão liberdade para abordar os temas que considerarem pertinentes, mas não esclareceu se a questão palestina ou os ataques israelenses à Faixa de Gaza serão objeto efetivo do seminário.

O contraste entre a fala de Lula e a agenda mantida pelo Itamaraty evidencia o impasse da política externa do governo. De um lado, o presidente faz declarações duras contra Netaniahu e reconhece a responsabilidade norte-americana pela sustentação das ações de “Israel”. De outro, o governo abre as portas para o sionismo.

Lula pode até dizer que pensou em romper relações com a entidade sionista. O fato, no entanto, é que o Brasil segue mantendo relações com “Israel”. O fato é que, no Brasil, o lobby sionista é capaz de mandar pessoas para a prisão, como é o caso do comerciante Lucas Passos. E que, enquanto isso, os palestinos sequer conseguem asilo político no País.

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