O artigo André Mendonça, o grande eleitor do Senado, de Jeferson Miola, publicado no Brasil 247 nesta segunda-feira (5), parte de um fato verdadeiro para chegar a uma conclusão completamente equivocada. É verdade que o Supremo Tribunal Federal ocupou posição central nas eleições para o Senado. O problema é querer transformar André Mendonça numa espécie de responsável pela vitória da direita.
Segundo Miola, o ministro teria sido “indiscutivelmente, o grande eleitor para o Senado”. A explicação é bastante confortável porque permite evitar a pergunta realmente importante: por que a campanha contra o STF encontrou tamanha receptividade entre os eleitores?
Ninguém vai acreditar que André Mendonça tenha inventado a rejeição ao Supremo. Poucas semanas antes das eleições, pesquisa Quaest mostrava que 56% dos entrevistados diziam não confiar no STF, enquanto somente 9% afirmavam confiar muito na Corte. Em agosto, os que declaravam não confiar eram 46%. Ou seja, em apenas um mês, a desconfiança aumentou dez pontos percentuais.
A direita percebeu esse fenômeno e procurou explorá-lo eleitoralmente. E colheu os resultados. Das 54 cadeiras do Senado disputadas neste domingo (4), candidatos alinhados à direita conquistaram 33. Somados aos senadores que permanecem no cargo, o campo deverá contar com 49 das 81 cadeiras a partir de 2027. O PL sozinho elegeu 19 senadores e deverá ter uma bancada de 28.
A campanha em defesa do impedimento de ministros do STF teve papel importante nessa disputa. Antes mesmo da votação, candidatos apoiados por Flávio Bolsonaro apareciam bem posicionados fazendo justamente desse tema uma de suas principais bandeiras. A crise do Banco Master fez com que a discussão ultrapassasse inclusive as fileiras tradicionais do bolsonarismo.
Assim, fica patente a miopia política de grande parte da esquerda. Durante anos, setores que se apresentam como representantes dos trabalhadores transformaram a defesa das chamadas “instituições democráticas” numa de suas principais bandeiras. Na prática, passaram a defender instituições golpistas do Estado burguês, entre elas Polícia Federal e o STF.
A consequência foi deixar quase inteiramente para a direita a crítica a uma instituição que já era vista com enorme desconfiança pela população. O bolsonarismo, então, pôde apresentar-se demagogicamente como força “antissistema”.
O trabalhador revoltado com o Supremo procurava quem estivesse contra o Supremo e o encontrou na direita. Boa parte da esquerda aparecia dizendo que era necessário defender a Corte para “salvar a democracia”.
Depois da eleição, culpar André Mendonça é uma maneira de não admitir o desastre dessa orientação. E o caso do Banco Master tornou o problema ainda mais evidente. A crise envolveu diferentes ministros do Supremo e colocou a Corte sob intenso desgaste. O próprio presidente do STF, Edson Fachin, declarou que menções a ministros encontradas no material apreendido pela Polícia Federal deveriam ser investigadas “sem exceção”.
Mendonça não criou esse escândalo. Não inventou as relações de Daniel Vorcaro com integrantes do Judiciário, nem a desconfiança popular contra a Corte. E, principalmente, não obrigou a esquerda a passar anos apresentando ministros do STF como grandes defensores da democracia.
Isso é responsabilidade da própria esquerda. O episódio envolvendo Lula e Alexandre de Moraes é particularmente esclarecedor. Em abril, ao comentar o caso Master, Lula revelou o conselho que dera pessoalmente ao ministro: “Você construiu uma biografia histórica com o julgamento do 8 de Janeiro; não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora sua biografia”.
O que a frase resume é toda uma orientação política. Em vez de preservar sua independência diante do STF e apoiar-se na mobilização dos trabalhadores, o presidente aparece preocupado em preservar a “biografia” de um ministro da Suprema Corte envolvido até o pescoço em um escândalo gigantesco.
E é preciso perguntar que biografia seria essa. Alexandre de Moraes foi indicado ao STF em 2017 pelo golpista Michel Temer. Naquele momento, Moraes era ministro da Justiça do próprio Temer.
Em 2018, quando Lula tentava impedir sua prisão, Moraes votou contra o habeas corpus apresentado pela defesa. A Corte rejeitou o pedido por seis votos a cinco, e Moraes acompanhou o voto de Edson Fachin pela negativa.
A esquerda deveria ter aprendido alguma coisa com isso. Transformar ministros em heróis políticos é abandonar qualquer política independente da classe trabalhadora. E foi exatamente o que grande parte da esquerda fez.
Diante dos ataques bolsonaristas ao Supremo, em vez de explicar que a direita também utiliza demagogicamente a crise das instituições para seus próprios objetivos, passou a defender o STF. O resultado é previsível.
Se a direita diz: “somos contra o Supremo”, a esquerda responde automaticamente: “nós defendemos o Supremo”. O eleitor que já não confia no Supremo vai para onde?
Uma política independente teria explicado que tanto a direita bolsonarista quanto o STF representam forças opostas aos interesses dos trabalhadores.
A direita não quer democratizar o Judiciário em benefício do povo. Quer utilizar a revolta contra a Corte para fortalecer sua própria posição política. Mas isso não transforma o STF numa instituição popular que deva ser defendida pela esquerda. Ao contrário.
O Supremo é composto por ministros que não são eleitos pela população e permanecem décadas nos cargos, exercendo poderes enormes sobre a vida política nacional. Uma esquerda preocupada com os interesses dos trabalhadores deveria apresentar sua própria crítica ao Judiciário, em vez de abandonar esse terreno à extrema direita.
Enquanto o custo de vida, os salários, o emprego, a moradia e os serviços públicos atingiam diretamente milhões de trabalhadores, setores da esquerda concentravam enorme energia na defesa abstrata da “democracia”, frequentemente identificada com a defesa do próprio aparelho de Estado.
A direita só precisou aproveitou a ocasião. Agora aparece a tentativa de encontrar um culpado individual e Miola escolheu André Mendonça. Mas substituir uma análise política pela procura de um vilão é repetir exatamente o erro que levou à derrota.
Mendonça pode ter desempenhado seu papel na crise. Pode ter tomado decisões que favoreceram politicamente a direita. Mas isso só foi possível porque o governo Lula confundiu sua imagem com a do STF.
Ficar do lado do STF foi um erro colossal
Este Diário cansou de alertar que essa política entregaria à extrema direita a possibilidade de posar de oposição ao sistema enquanto a esquerda aparecia abraçada às instituições do Estado.
O resultado chegou. E quem prefere culpar André Mendonça ainda não aprendeu a lição.





