O plano da FIFA de vender parte da Copa do Mundo a investidores privados abriu uma revolta no futebol mundial — mas a Conmebol, que dirige o futebol sul-americano, ficou de fora dela. Das seis confederações continentais, cinco já rejeitaram em público a proposta de Gianni Infantino de criar uma empresa para explorar comercialmente os torneios da entidade, o Mundial incluído. Apenas a sul-americana silencia.
A UEFA, da Europa, ameaçou boicotar as competições e retirar suas 55 seleções. A Concacaf, da América do Norte e Central, declarou que o futebol deve continuar nas mãos do futebol. A asiática AFC classificou o projeto de inviável, e África e Oceania abriram consultas internas. A Conmebol não rejeitou nada: diz apenas que acompanha as conversas dentro da própria FIFA e trata do assunto em reuniões reservadas com Infantino, num apoio que não ousa se assumir.
O pano de fundo dessa revolta é a disputa entre o imperialismo norte-americano, que hoje domina a FIFA, e o europeu, que foi desbancado. A virada se deu pelas mãos dos Estados Unidos: em 2015, o Departamento de Justiça e o FBI derrubaram a antiga cúpula da entidade sob a acusação de corrupção e abriram caminho para o grupo de Infantino, hoje colado a Donald Trump. Desde então, a sede da Copa de 2026 foi para a América do Norte, e o novo plano de vender parte do Mundial a investidores — como uma empresa da família Kushner, do genro de Trump — é apenas o capítulo mais recente. A revolta da UEFA, do outro lado, não defende o futebol contra os capitalistas: exprime a reação do imperialismo europeu, que perdeu terreno e quer recuperá-lo.
A Conmebol se cala porque também caiu nas mãos do imperialismo norte-americano. Os mesmos escândalos de corrupção que abalaram a FIFA depuseram os antigos dirigentes sul-americanos e deixaram a confederação sob a tutela dos Estados Unidos. Não por acaso, a Copa América do Centenário, em 2016, foi disputada em território norte-americano — um país que nunca pertenceu à Conmebol. Presidida por Alejandro Domínguez, a entidade é aliada de Infantino, a quem garantiu apoio na reeleição e de quem recebeu vantagens, como as seis vagas e meia da América do Sul na Copa de 2026.
Essa subordinação também aparece dentro de campo. Na última Copa do Mundo, a Argentina foi beneficiada por uma razão de fundo: Messi, seu principal astro, joga hoje num clube dos Estados Unidos, e os patrocinadores norte-americanos, ou a eles atrelados, lucram alto com o sucesso da seleção argentina. O futebol sul-americano é tratado como peça de um negócio comandado a partir de Washington.
O que está em disputa não é o futebol do povo, e sim o controle de um negócio bilionário repartido entre as potências. De um lado, os Estados Unidos, donos da FIFA e amparados na subordinação da Conmebol; de outro, a Europa, que resiste para não ficar de fora da partilha dos lucros. O esporte que emociona bilhões de trabalhadores virou mercadoria, e a Conmebol já se pôs ao lado do imperialismo que manda no campo.





