Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

‘Companheiro Moraes’ deixa abacaxi para Lula descascar

Nunca saberemos quais são os outros clientes do escritório e quanto pagam para ter boas relações com a família do juiz

Moraes e Lula

O noticiário da imprensa burguesa não está dando folga para Alexandre de Moraes. Sabemos que os critérios editoriais desses jornais passam longe do sempre anunciado compromisso com a verdade, com a imparcialidade, com os valores democráticos ou o que quer que seja. A regra é controlar a informação, num jogo de mostrar e ocultar, ao sabor de interesses maiores, principalmente em ano eleitoral. Isso, no entanto, não nos autoriza a simplesmente passar o mata-borrão sobre os fatos.

O próprio presidente Lula, em entrevista ao site ICL, reconheceu que o envolvimento da família Moraes com o Banco Master, se não for “ilegal”, é certamente imoral – e disse ter advertido o “companheiro” de que deveria afastar-se dos julgamentos de casos do escritório da própria esposa, sob pena de “manchar sua biografia”.

Lula, por óbvio, já percebeu que as revelações sobre Moraes podem interferir – e muito – na sua eleição, daí pedir ao “companheiro” que se posicione publicamente com mais firmeza. O que talvez não tenha ocorrido a Lula é que Moraes pode não ser exatamente um “companheiro”, preocupado com a sua reeleição. Lula pode até ter dado mesmo a Moraes esse conselho, que, no entanto, ao que tudo indica, entrou por uma orelha, atravessou a careca e saiu pela outra.

O argumento que vem sendo trazido pela esquerda lulista é o de que o escândalo do Banco Master envolveu muito mais gente, que estaria sendo poupada dos editoriais dos grandes jornais, aparecendo, quando muito, em notas de rodapé. Esses outros políticos estariam, portanto, sendo beneficiados pela cobertura jornalística, enquanto Moraes é perseguido. Ocorre, porém, que a proporção não é a mesma.

Alexandre de Moraes aceitou de bom grado o papel de “herói” numa suposta cruzada contra o “fascismo bolsonarista”, na qual se armou de interpretações e entendimentos, muitas vezes criativos, das leis do país. Agiu com rigor excessivo ao punir pessoas simples do povo que participaram do quebra-quebra em Brasília no fatídico 8 de janeiro de 2023, desencorajando qualquer ímpeto de ação popular. O último ato dele, ainda na semana passada, foi condenar a 14 anos de prisão um homem que teria doado R$ 500 para a caravana de manifestantes “golpistas”. Um homem que tivesse doado R$ 50 milhões para a organização dos “atos golpistas” certamente não seria condenado à prisão. Moraes é muito valente com quem não tem poder.

As relações financeiras do poderoso ministro com o Banco Master não são um detalhe, tampouco estão acolhidas pela legalidade – exceto, é claro, pelas regras e resoluções “éticas” do próprio tribunal, que decide sobre o que seus membros podem ou não fazer. É o “STF Futebol Clube” – tomando emprestada a expressão do ministro Flávio Dino – que faz as próprias normas. Sendo assim, fica combinado que parentes de ministros podem ter caríssimas bancas de advogados que atuam junto aos tribunais superiores. Por que não, se a prática é comum e todos querem enriquecer à custa do poder conferido pelo cargo? Basta juntar os onze numa reunião e decidir, em bom juridiquês, que está tudo dentro dos conformes – de preferência achando um jeito de citar a Constituição do país.

Comentaristas do Bom Dia 247, ávidos por defender Moraes, que, afinal, encarcerou generais e o ex-presidente Bolsonaro, repetem que o ministro não fez nada de errado. Sua mulher teve um contrato com o Banco Master e, como foi revelado pela declaração de imposto de renda do banco, recebeu R$ 80 milhões em 22 meses (de janeiro de 2024 até a liquidação do banco, em 2025). Segundo ela própria declarou meses depois da revelação do contrato, esses valores pagaram por um certo manual de compliance da instituição. Se estivesse vivo, o Jô Soares chamaria a isso de “piada pronta”.  Esses manuais servem exatamente para assegurar as “boas práticas” da empresa no campo da ética, da lisura dos negócios, dos mecanismos anticorrupção no trato com órgãos públicos e, agora, do respeito ao meio ambiente e à “diversidade”.

O valor é exorbitante e nada indica que se deva a uma particular competência de Viviane Barci de Moraes. Bancas de muito mais renome receberiam, no máximo, um décimo desse montante. Então, de fato, Moraes não fez nada de que se tenha notícia, não julgou nenhum caso favorável ao Master, embora tenha recusado um recurso de um desafeto de Vorcaro, segundo divulgado na imprensa. Por que Vorcaro aceitaria pagar honorários milionários ao escritório da dra. Viviane Barci de Moraes por um manual de compliance para inglês ver? Banqueiros costumam saber onde põem o seu dinheiro. Vorcaro, por magnânimo que seja, não saiu distribuindo dinheiro na favela, certo? Distribuiu dinheiro a quem poderia garantir que suas falcatruas não fossem descobertas – e pagou valores proporcionais ao serviço que realmente contratou nas entrelinhas.

Dificilmente saberemos o que Moraes respondeu a Vorcaro no dia de sua prisão, quando este, nervoso, lhe perguntou: “E aí? Conseguiu bloquear?”. O ministro escrevia mensagens no bloco de notas e enviava no aplicativo de mensagens como foto de visualização única. Como se vê, estava tomando cuidado, evitando deixar rastros. Por quê?

Caso fosse usada a régua de Moraes para julgar o próprio Moraes, certamente sua esposa teria tido bloqueados os R$ 80 milhões, vistos como dinheiro sujo, movimentado por uma organização criminosa, que tinha até um “sicário”, providencialmente morto na cadeia e rapidamente esquecido. E, de quebra, apreenderia o celular do interlocutor de Vorcaro para descobrir as mensagens ocultadas pelo ardil da foto do bloco de notas, providenciaria uma tornozeleira eletrônica para evitar a fuga do meliante e, por via das dúvidas, o proibiria de usar as redes sociais. Mas essa régua só vale para os fascistas, golpistas e demais espantalhos de ocasião.

O que pode ser ainda pior que tudo isso é o que nunca saberemos. Soubemos desse contrato do escritório Barci de Moraes porque o cliente VIP se enrolou numa gigantesca negociata que nenhum de seus influentes “amigos” conseguiu encobrir. Na prática, todo o mundo embolsou a dinheirama e, quando o Titanic começou a afundar, não sobrou nem o violinista do convés. Resta saber quais são os outros clientes do escritório e quanto pagam para ter boas relações com a família do juiz mais poderoso da mais alta corte de Justiça do país, onde, não por acaso, são julgados casos que envolvem disputas milionárias.

Lula cobrou de Moraes uma posição mais firme, do tipo “minha mulher trabalha e ganha o dinheiro dela”, que, sinceramente, dado o contexto, ficaria meio ridícula. Por outro lado, o ministro – sejamos justos! – não é, por certo, o único nessa situação. Infelizmente, essa deve ser a regra – uns blindam os outros e vão fazendo “justiça” ao sabor dos próprios interesses. Se não é, parece que é. Se assim for, a Moraes bastará deixar a poeira assentar. Lula, porém, vai ter de rebolar para defender o “companheiro”.

A situação seria muito diferente se o PT não tivesse apoiado o projeto da burguesia de criminalizar a oposição para cavar uma vaga na disputa eleitoral. Se não tivesse embarcado nessa canoa, deixando claro que essa era a estratégia da “terceira via”, o partido hoje não teria esse abacaxi para descascar.

 

 

 

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