Tarcísio de Freitas terminou seu primeiro mandato no Palácio dos Bandeirantes com um resultado que quatro anos de governo deveriam ter tornado muito mais difícil: foi reeleito no primeiro turno e recebeu 14.491.874 votos, 62,65% dos válidos, a maior votação absoluta já obtida por um candidato ao governo paulista. Fernando Haddad ficou com 8.423.656 votos, 36,42%.
A comparação com 2022 mede o tamanho do desastre petista. Naquele ano, Tarcísio precisou do segundo turno para vencer Haddad por 55,27% a 44,73%. Foram 13.480.643 votos para o candidato do Republicanos e 10.909.371 para o petista. Quatro anos depois, Tarcísio ganhou mais de 1 milhão de votos e Haddad perdeu quase 2,5 milhões. A diferença entre os dois saltou de cerca de 2,5 milhões para mais de 6 milhões.
A leitura sustentada pelo DCO durante a campanha é que esse resultado não pode ser explicado apenas pela força da direita em São Paulo. Tarcísio governou durante quatro anos privatizando, aprofundando a política repressiva e reunindo em torno de si os restos do antigo bloco tucano. O PT teve todo esse período para organizar uma oposição de massas ao governo. Não o fez. Quando chegou a eleição, apresentou novamente Fernando Haddad e procurou enfrentar Tarcísio com uma política que, em pontos fundamentais, se aproximava daquela aplicada pelo próprio governador.
A Sabesp deveria ter sido um dos centros dessa oposição. Tarcísio privatizou a companhia em 2024. Uma campanha de esquerda poderia ter feito da reestatização uma bandeira elementar contra seu governo. Haddad recusou-se durante boa parte da disputa a assumir esse compromisso. Em agosto, declarou que não gostava de “vender ilusão” e considerou a reestatização “uma coisa muito complicada”, preferindo falar em revisão contratual e mudança de gestão.
Tarcísio havia entregue a maior companhia de saneamento do País ao capital privado. Diante disso, o candidato do PT hesitava em prometer sua retomada pelo Estado. Não se derrota uma política neoliberal apresentando ao eleitor outra variante da mesma orientação.
A repressão estatal tornou a adaptação ainda mais clara. Haddad colocou o tema entre as prioridades da campanha, anunciou uma agência estadual antifacção, integração entre órgãos policiais, inteligência artificial para vigilância e um sistema permanente de acompanhamento da criminalidade.
Se a discussão é saber quem aparelha melhor a polícia, quem aumenta a vigilância e quem demonstra maior dureza contra o crime, a direita já oferece seu próprio candidato. Tarcísio passou quatro anos construindo sua imagem política em torno dessa orientação. Haddad, em vez de atacar a política policial pela esquerda e defender uma saída baseada nos interesses da população pobre, tentou apresentar-se como administrador mais eficiente do mesmo aparelho.
O candidato escolhido pelo PT também carregava um problema político evidente. Haddad chegava à disputa depois de perder a reeleição para a Prefeitura de São Paulo em 2016, a Presidência da República em 2018 e o governo estadual em 2022. Seu único triunfo numa disputa majoritária permanecia sendo a eleição municipal de 2012. Mesmo assim, a direção petista decidiu colocá-lo novamente diante do mesmo adversário que o havia derrotado quatro anos antes.
A fraqueza eleitoral não vinha sozinha. Haddad passou pelo Ministério da Fazenda como principal figura da política fiscal do terceiro governo Lula, identificando seu nome com o arcabouço fiscal, a contenção das despesas públicas e uma política permanente de garantias ao capital financeiro.
Essa aproximação foi exposta pelo próprio Haddad. Durante a campanha, ele lamentou o desaparecimento do PSDB como grande força política e elogiou dirigentes tucanos. Tarcísio havia absorvido justamente a base social, partidária e programática construída pelo PSDB durante décadas de governo em São Paulo. Privatizações, entrega dos serviços públicos e repressão não apareceram com Tarcísio. Ele herdou e aprofundou uma política que já vinha sendo aplicada pelos tucanos.
O PT tentou enfrentar esse bloco fazendo concessões ainda maiores à direita. Márcio França, antigo tucano e ex-vice de Geraldo Alckmin, foi colocado na vice. Para o Senado, a direção petista apoiou Simone Tebet e Marina Silva.
Simone Tebet votou pelo prosseguimento do processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Marina Silva apoiou Aécio Neves no segundo turno presidencial de 2014 contra a própria Dilma. Dez anos depois do golpe que derrubou a presidenta petista, o PT ofereceu a seus eleitores paulistas uma chapa ao Senado formada justamente por duas figuras que estiveram do outro lado em momentos decisivos da luta contra o partido.
A justificativa era de que seria necessário ampliar a aliança para derrotar a direita. A campanha mostrou o contrário. A frente montada pelo PT não apenas deixou de enfraquecer Tarcísio como abriu espaço para políticos que sequer assumiram compromisso firme com Haddad. Dois prefeitos do PSB, partido do candidato a vice Márcio França, chegaram a declarar apoio ao governador. Simone Tebet mandou produzir material de campanha sem Lula, Haddad e Marina, permitindo que aliados do PSD e do MDB pedissem votos para ela sem carregar o restante da chapa petista.
Nem mesmo o argumento eleitoral sobreviveu às urnas. As duas vagas paulistas no Senado ficaram com Guilherme Derrite, do PP, e André do Prado, do PL. Derrite recebeu 30,59%; Prado, 29,28%. Tebet terminou em terceiro, com 19,23%, e Marina em quarto, com 18,12%. O PT fez concessões à direita tradicional para ampliar sua votação e terminou sem o governo e sem nenhuma das duas vagas ao Senado.
Essa política também ajudou a desarmar qualquer campanha de oposição consequente a Tarcísio. Para mobilizar trabalhadores contra as privatizações, seria necessário defender a reestatização. Para enfrentar a política policial do governador, seria necessário apresentar um programa oposto ao fortalecimento do aparelho repressivo. Para denunciar o velho bloco tucano que passou para Tarcísio, seria necessário romper politicamente com seus representantes. O PT fez justamente o contrário.
Foi assim que uma eleição que poderia servir para cobrar quatro anos de governo acabou oferecendo a Tarcísio condições ainda melhores que as de 2022. O governador conseguiu reunir em torno de si praticamente todo o bloco tradicional da direita paulista, enquanto o PT procurava disputar uma parcela desse mesmo campo político.
A votação final condensou o resultado dessa orientação. Em 2022, Tarcísio precisou de dois turnos e 13.480.643 votos para chegar ao governo. Em 2026, recebeu 14.491.874 no primeiro turno. Haddad caiu de 10.909.371 votos no segundo turno de 2022 para 8.423.656 agora. Tarcísio saiu de quatro anos no governo não desgastado eleitoralmente, mas com a maior votação já recebida por um candidato ao Palácio dos Bandeirantes.


