Uma matéria da Folha de S. Paulo sobre o aumento das mortes de civis na Guerra da Ucrânia mostra, em poucas linhas, como a imprensa capitalista fabrica a versão imperialista do conflito.
O jornal reconhece que existe uma “névoa de desinformação” sobre as baixas militares, mas logo apresenta números sem dizer de onde foram retirados. Afirma que a guerra começou com a entrada das tropas russas na Ucrânia em 2022, apagando o conflito iniciado no Donbass oito anos antes. Conta como “ucranianos” mortos em territórios que romperam com Quieve em 2014 e, ao tratar da escalada recente, fala em ações “dos dois lados”, embora informe que a Ucrânia passou a atacar com maior intensidade instalações dentro da Rússia.
O resultado é sempre o mesmo: a Rússia aparece como agressora e tudo o que aconteceu antes de fevereiro de 2022 desaparece.
450 mil russos mortos, segundo quem?
A primeira manipulação está nos números das baixas militares.
“Como em todo conflito, uma névoa de desinformação dificulta a aferição”, admite a Folha. Na frase seguinte, porém, afirma que teriam morrido cerca de 450 mil militares russos e 140 mil ucranianos.
A fonte não é informada.
Segundo essa conta, morreram mais de três soldados russos para cada ucraniano. Uma diferença tão grande exigiria alguma explicação sobre a procedência da estimativa e o método utilizado. Não há nenhuma.
Os cálculos sobre as perdas dos dois exércitos variam enormemente. Governos, serviços de inteligência, órgãos de imprensa e organizações que acompanham a guerra chegaram a resultados muito diferentes desde 2022.
A própria Ucrânia já divulgou números de mortos muito inferiores aos calculados por fontes ocidentais. Do lado russo, a BBC em língua russa e o veículo oposicionista Mediazona fazem uma contagem nominal a partir de obituários, registros públicos, cemitérios e informações fornecidas por familiares. Os responsáveis pelo levantamento reconhecem que ele representa apenas uma parte das mortes.
O governo russo, por sua vez, afirma que as perdas militares da Ucrânia são superiores às da Rússia. Naturalmente, os dados de Moscou também são os dados de uma das partes envolvidas na guerra. Mas sua existência basta para demonstrar que não há uma única estimativa aceita sobre as baixas.
As trocas de corpos entre os dois países também colocam em dúvida a proporção apresentada pelo jornal. Depois das negociações de Istambul, em 2025, a Rússia devolveu à Ucrânia milhares de corpos de militares ucranianos e recebeu uma quantidade muito menor de corpos russos.
O dado não permite calcular sozinho quantos morreram de cada lado. Um exército que avança e ocupa posições abandonadas pelo adversário tende a recolher mais corpos inimigos. Ainda assim, é mais um motivo para desconfiar de uma estimativa que atribui aos russos perdas três vezes maiores sem sequer indicar sua origem.
Existem cálculos que aproximam muito mais as baixas dos dois lados e outros que colocam as perdas ucranianas acima das russas. A Folha ignora toda essa discussão e escolhe justamente uma estimativa extremamente favorável à propaganda da OTAN.
A “névoa de desinformação” desaparece assim que surge um número conveniente.
Oito anos de guerra são apagados
Mais importante é a afirmação de que o conflito teria sido “causado pela invasão do exército de Vladimir Putin” em 2022.
A operação militar russa começou em 24 de fevereiro daquele ano. A guerra, não.
Em fevereiro de 2014, o presidente eleito Victor Ianucovich foi derrubado pelo golpe do Euromaidan, organizado e financiado pelos Estados Unidos e pela União Europeia e no qual organizações fascistas desempenharam papel decisivo.
O envolvimento norte-americano ficou evidente, entre outros episódios, no vazamento de uma conversa entre Victoria Nuland, então secretária de Estado adjunta dos Estados Unidos, e o embaixador Geoffrey Pyatt. Os dois discutiam quais dirigentes da oposição deveriam ocupar os principais postos depois da derrubada de Ianucovich.
O golpe provocou uma reação imediata nas regiões de maioria russa. A Crimeia rompeu com Quieve e foi incorporada pela Rússia. No Donbass, Donetsk e Lugansk proclamaram suas próprias repúblicas e entraram em guerra contra as forças enviadas pelo novo regime.
Foi em 2014, portanto, que começou o conflito armado.
Até o final de 2021, antes da entrada direta das forças russas, cerca de 14 mil pessoas já haviam morrido na guerra do Donbass, segundo estimativas utilizadas por organismos internacionais. Entre elas estavam milhares de civis.
Quando as tropas russas entraram na Ucrânia, em fevereiro de 2022, encontraram uma guerra que já durava quase oito anos, na qual as forças de Quieve haviam cometido todos os tipos de barbaridade contra os habitantes locais.
Transformar aquela data no “começo da guerra” tem uma função política evidente. Desaparecem o golpe contra Ianucovich, a atuação dos Estados Unidos e da União Europeia, o papel das organizações fascistas, a separação do Donbass e os milhares de mortos produzidos desde 2014.
A história passa a começar no momento exato em que é possível apresentar a Rússia como única agressora.
Mortos no Donbass entram na conta da Ucrânia
O mesmo método aparece nos números sobre a população civil.
Com base no Armed Conflict Location & Event Data Project (Acled), organização norte-americana, a Folha afirma que, em janeiro, morriam em média 7,1 civis por dia, dos quais 6,1 “na Ucrânia”. Em julho, a média teria subido para 21, sendo 19 no território que o levantamento classifica como ucraniano.
A classificação territorial não é neutra.
Donetsk e Lugansk declararam independência de Quieve em 2014 e passaram a travar uma guerra contra o Estado ucraniano. Em 2022, após referendos com amplo apoio popular, foram incorporadas à Federação Russa, junto com boa parte dos antigos estados de Kherson e Zaporíjia. Moscou reconhece as duas regiões como parte de seu território. A Ucrânia e as potências imperialistas não reconhecem a incorporação.
A estatística usada pela Folha adota a posição de Quieve.
Com isso, um morador de Donetsk morto por um bombardeio ou ataque de drone ucraniano pode entrar no levantamento como um civil morto “na Ucrânia”. Uma vítima de uma ação militar ucraniana acaba engrossando justamente a estatística utilizada para apresentar os ucranianos como as principais vítimas civis da guerra.
Do ponto de vista da própria população local, são cidadãos russos mortos pelas forças de Quieve.
O Donbass é a região mais atingida desde 2014. Colocar todas essas mortes do lado ucraniano altera decisivamente a fotografia oferecida ao leitor. Se as vítimas dessas regiões forem contabilizadas como habitantes do território russo, conforme a situação estabelecida desde sua incorporação à Federação Russa, a diferença apresentada pela reportagem muda radicalmente.
A escolha do mapa vem antes da contagem dos mortos.
Quieve aumenta os ataques, mas a responsabilidade desaparece
Ao explicar por que as mortes cresceram nos últimos meses, a reportagem cai em outra contradição.
Segundo o jornal, o salto ocorrido a partir de maio seria resultado de uma “escalada de lado a lado”. Pouco depois, entretanto, informa:
“Com a estagnação das negociações que os Estados Unidos haviam promovido, os ucranianos passaram a alvejar a infraestrutura civil russa com maior acurácia, usando novos drones e mísseis.”
A reportagem enumera em seguida o que passou a ser atingido.
Primeiro vieram ataques contra o sistema energético e refinarias russas. Depois, instalações relacionadas ao escoamento de grãos pelo mar Negro. Mais tarde, foram atacados mais de 20 centros logísticos da Wildberries, uma das maiores empresas de comércio eletrônico da Rússia.
O próprio texto informa, portanto, que a Ucrânia aumentou o alcance e a intensidade dos ataques dentro do território russo.
Essa mudança coincidiu com o crescimento das mortes de civis. Mas, na hora de apontar quem escalou o conflito, a ação concreta de Quieve desaparece e é substituída pela expressão vaga “de lado a lado”.
Os ataques de longo alcance tampouco dependem apenas dos recursos militares da Ucrânia. Quieve recebe dos países da OTAN armamentos, inteligência, informações de satélite e meios técnicos indispensáveis para atingir alvos a centenas de quilômetros da frente de batalha.
Em julho, o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio reconheceu a participação dos Estados Unidos no apoio aos ataques ucranianos em profundidade contra a Rússia.
Há então uma sequência bastante clara. A capacidade ucraniana de atacar território russo aumenta com o apoio militar da OTAN. Quieve passa a bombardear mais instalações dentro da Rússia. Cresce o número de ataques e de vítimas. A Folha relata esses acontecimentos, mas evita tirar a conclusão que decorre deles.
A manipulação das mortes no Donbass completa o quadro. Se um civil de Donetsk é morto por um ataque ucraniano, ele pode entrar na estatística como morto “na Ucrânia”. Depois, esse número é utilizado para sustentar que os civis ucranianos estão morrendo em quantidade muito superior aos russos.
A matéria acaba revelando o método que procura esconder. Para sustentar a versão imperialista da guerra, é preciso escolher números sem revelar sua origem, começar a história em 2022, ignorar a separação do Donbass e ocultar quem ampliou os ataques nos últimos meses. Sem esses artifícios, a imagem de uma Rússia que simplesmente atacou a Ucrânia e desde então massacra unilateralmente sua população começa a desmoronar.





