América do Sul

Colômbia: direita rouba as eleições e esquerda capitula

Após Iván Cepeda reconhecer a derrota e o Pacto Histórico retirar 57 mil reclamações, o CNE proclamou oficialmente Abelardo de la Espriella presidente

O candidato do Pacto Histórico à Presidência da Colômbia, Iván Cepeda, reconheceu nesta quarta-feira (24) a derrota no segundo turno da eleição presidencial. Horas depois, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) concluiu o escrutínio e proclamou oficialmente Abelardo de la Espriella, candidato da extrema direita, como presidente eleito, encerrando uma eleição marcada por denúncias de fraude, compra de votos e intervenção direta dos Estados Unidos.

“Neste momento do escrutínio, decidi aceitar o resultado que surge desse processo, que indica que Abelardo de la Espriella é o novo presidente da República”, declarou Cepeda, em pronunciamento apresentado como mensagem à nação.

A posição do candidato da esquerda é uma capitulação diante da pressão para transformar em fato consumado a vitória da direita. Desde a noite de domingo (21), o imperialismo e seus aliados passaram a tratar De la Espriella como presidente eleito, embora a Colômbia ainda não tivesse resultado oficial proclamado. Donald Trump afirmou que o candidato da extrema direita “ganhou, grande”. Marco Rubio o chamou de “presidente eleito”. Governos direitistas da América Latina também saudaram a suposta vitória, como Javier Milei e Antonio Kast.

A pré-contagem divulgada pela Registraduría indicou De la Espriella com cerca de 49,66% dos votos, contra 48,70% de Cepeda. A diferença ficou com pouco mais de 250 mil votos, em uma eleição com quase 26 milhões de votos válidos. A campanha de Cepeda apresentou dezenas de milhares de reclamações sobre irregularidades.

Escrutínio concluído e proclamação

A contagem legal na Colômbia é o escrutínio, feito sobre atas físicas e sujeito a reclamações das campanhas. Concluído esse processo, o CNE leu a ata E-26 às 15h09 e declarou De la Espriella eleito para o período 2026-2030, com José Manuel Restrepo como vice. O candidato da extrema direita obteve 12.960.166 votos, contra 12.708.312 de Cepeda — diferença de 251.854 votos. Segundo o órgão, o escrutínio coincidiu em 99,97% com a pré-contagem divulgada pela Registraduría no domingo (21).

Cepeda decidiu reconhecer o resultado. Em seu pronunciamento, procurou apresentar a derrota como uma demonstração de força do Pacto Histórico. Segundo ele, a votação foi o “maior resultado eleitoral alcançado pelos setores progressistas e movimentos sociais na Colômbia”.

O candidato acrescentou que aceitar o resultado “não significa renunciar à verdade” nem “guardar silêncio” diante do que chamou de fatos graves. Entre eles, mencionou as intervenções de Trump em favor de De la Espriella e denunciou que a campanha da direita realizou uma operação de compra de votos para alterar a vontade popular.

A declaração veio acompanhada de um recuo decisivo. Na própria Audiência de Escrutínio Nacional, o Pacto Histórico desistiu formalmente das 57.189 reclamações que havia protocolado — denúncias de compra de votos, suplantação de identidade, cédulas marcadas em favor do candidato conservador e atas sem assinatura de testemunhas eleitorais. Foi essa desistência que abriu caminho para a proclamação imediata pelo CNE.

Pressão dos EUA

A intervenção dos EUA pesou sobre toda a disputa. Trump declarou apoio público a De la Espriella antes do segundo turno e atacou Cepeda como “marxista radical de esquerda”. Depois da apuração preliminar, proclamou a vitória da direita antes da conclusão oficial do processo.

O próprio Cepeda reconheceu a gravidade da ingerência. “Não permitiremos que nos tratem como um protetorado”, afirmou, referindo-se aos EUA de Trump.

A Central Unitária dos Trabalhadores (CUT) da Colômbia também admitiu derrota, ao mesmo tempo que denunciou o papel do imperialismo. Em comunicado, a central se declarou em oposição ao “governo fascista e neoliberal de Abelardo de la Espriella” e afirmou que o futuro governo nasce associado à “aberta, descarada e inaceitável ingerência norte-americana” nos assuntos internos do país.

A CUT citou o apoio de Trump durante a campanha e as propostas para que a Colômbia integre o chamado “Escudo das Américas”, projeto voltado a reforçar a subordinação da América Latina e do Caribe aos interesses dos EUA.

Denúncias de fraude

O presidente Gustavo Petro manteve uma posição distinta da de Cepeda. Desde a noite de domingo, afirmou que não se poderia proclamar nenhum presidente antes do fim do escrutínio, denunciou a vulnerabilidade do programa usado para a pré-contagem e pediu uma auditoria especializada. Mesmo após a proclamação, Petro não reconheceu oficialmente o resultado, mas anunciou que faria o processo de transição com a administração entrante.

Segundo o presidente, o sistema usado pela Registraduría é vulnerável e pode ser manipulado. Petro também afirmou que o registrador Hernán Penagos se recusou a entregar o código-fonte, o que impede uma verificação completa do processo.

Além disso, o governo denunciou a existência de formulários E-14 sem assinatura de jurados eleitorais e pediu a impugnação dessas mesas. A campanha de Cepeda também apontou coação sobre eleitores em determinadas regiões para favorecer a direita. Assim, enquanto Cepeda reconheceu formalmente a derrota e desistiu das reclamações, Petro aceitou apenas a transição de governo, sem chancelar o resultado das urnas.

Apesar das denúncias, Cepeda decidiu aceitar a derrota. Na segunda-feira (22), ele ainda tinha afirmado que a pré-contagem não era oficial nem vinculante e que aguardaria o escrutínio. Dois dias depois, mudou de posição.

CUT e Pacto Histórico falam em oposição

A CUT anunciou que se integrará à organização de uma Frente Ampla pela Vida, junto a forças políticas, sociais, sindicais e populares. A central afirmou que o governo de De la Espriella representa privatizações, ataque aos direitos trabalhistas, redução do Estado e submissão aos interesses norte-americanos.

A central também denunciou as ameaças feitas por De la Espriella contra a esquerda, o sindicalismo, a Fecode, jornalistas e outros setores sociais. Durante a campanha, o candidato da extrema direita chegou a usar a expressão “destripar” seus adversários políticos, termo citado pela CUT como expressão de uma política de perseguição.

A bancada do Pacto Histórico no Congresso também declarou oposição firme ao governo de De la Espriella. A coalizão, que terá 26 senadores e 43 representantes à Câmara, afirmou que atuará para defender a reforma agrária, os direitos trabalhistas e previdenciários, a educação pública, a paz e as liberdades democráticas.

Embora tenha perdido a Presidência, o Pacto Histórico saiu das eleições legislativas de março com a maior bancada do Congresso. Apesar disso, não tem maioria.

De la Espriella se proclama vencedor

Abelardo de la Espriella apresentou-se como vencedor desde a noite de domingo, antes da conclusão oficial da apuração. Em discurso em Barranquilla, usando a camisa da seleção colombiana, afirmou: “Colômbia, aqui está o teu tigre! Colômbia, aqui está o teu presidente!”.

Com a desistência das reclamações e a proclamação do CNE, a disputa se encerra dentro das instituições. As denúncias de fraude, a diferença mínima entre os candidatos e a intervenção direta do imperialismo norte-americano mostram que a chegada da extrema direita ao governo colombiano se dá por meio de um golpe eleitoral.

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