Estado de 'Israel'

Clamor mundial contra o sionismo

Reações diplomáticas aos métodos fascistas do ministro Itamar Ben-Gvir demonstram que a defesa incondicional de “Israel” está se tornando politicamente mais custosa

A decisão da França de proibir a entrada do ministro israelense da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, em seu território é mais uma demonstração do isolamento crescente do sionismo diante da opinião pública mundial. O anúncio foi feito neste sábado (23) pelo ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Noël Barrot, após a divulgação de um vídeo em que o fascista israelense Itamar Ben-Gvir aparece diante de ativistas da chamada Flotilha Sumud Global ajoelhados, amarrados e humilhados por forças israelenses.

A flotilha reunia mais de 400 ativistas de cerca de 40 países, em dezenas de embarcações, com o objetivo de levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza e denunciar o bloqueio imposto por “Israel”. A Flotilha Sumud Global se tornou um dos mais conhecidos instrumento de propaganda contra a ocupação sionista, capaz de colocar diante do mundo, de maneira concreta, a brutalidade do cerco contra o povo palestino.

A interceptação das embarcações, realizada em águas internacionais, transformou a ação em um acontecimento político internacional. Ao apreender centenas de cidadãos estrangeiros, de países europeus, latino-americanos, asiáticos e de outras regiões, o Estado sionista acabou produzindo o efeito inverso ao pretendido. Em vez de abafar a denúncia, ampliou-a em escala mundial.

O episódio provocou reação imediata de diversos governos. Itália, Irlanda, Espanha, França, Indonésia e outros países criticaram a ação. A União Europeia também aceitou discutir possíveis sanções contra Ben-Gvir, a partir de uma iniciativa italiana. O caso deixou de ser apenas uma denúncia de organizações pró-Palestina e passou a envolver diretamente cidadãos de dezenas de países submetidos ao aparelho repressivo israelense.

A arrogância do governo sionista foi decisiva para a repercussão. Ben-Gvir, representante da extrema direita israelense e responsável por áreas ligadas à polícia e ao sistema prisional, publicou imagens dos detidos ajoelhados, com as mãos amarradas, enquanto o hino israelense tocava ao fundo. A cena foi recebida internacionalmente como uma exibição de brutalidade. Mesmo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, defensor da interceptação da flotilha, criticou a divulgação do vídeo, afirmando que a forma como os ativistas foram tratados não estaria de acordo com as “normas” de “Israel”.

O governo israelense tentou apresentar a apreensão da flotilha como uma ação contra uma suposta provocação organizada em favor do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas). No entanto, o vídeo divulgado por Ben-Gvir mostrou ao mundo algo impossível de conciliar com qualquer justificativa diplomática: civis estrangeiros, capturados por tentar chegar a Gaza, submetidos a tratamento degradante e utilizados como troféu político por um ministro do próprio governo.

O Estado sionista procura demonstrar força, autoridade e capacidade de esmagar qualquer oposição. Sua política é mostrar que pode humilhar, prender, espancar e pisar sobre seus adversários. No caso da flotilha, porém, essa demonstração de força revelou precisamente aquilo que a propaganda israelense tenta esconder: o caráter brutal e ditatorial da ocupação.

Depois da libertação e deportação dos ativistas, começaram a circular denúncias de agressões físicas, maus-tratos, humilhações, violência psicológica, tortura e violência sexual. Organizações de defesa dos direitos dos detidos relataram dificuldades de acesso aos presos e falaram em violações generalizadas. Governos como Canadá, Alemanha e Espanha afirmaram ter recebido informações sobre abusos e ferimentos em seus cidadãos. A repressão israelense, normalmente aplicada contra os palestinos longe das câmeras e com a cumplicidade da imprensa imperialista, atingiu desta vez pessoas com passaporte de países aliados de “Israel”.

É justamente por isso que o caso provocou tamanho furor. Se um cidadão europeu é tratado dessa maneira por alguns dias nas mãos do aparelho repressivo sionista, é necessário perguntar: o que acontece diariamente com os palestinos? Se ativistas estrangeiros, conhecidos, identificados e acompanhados por seus governos, denunciaram espancamentos, humilhações e abusos, qual é a situação dos palestinos anônimos, presos há anos, submetidos a interrogatórios, torturas, campos de detenção e ao regime militar da ocupação?

O tratamento dado aos integrantes da missão humanitária, por mais brutal que tenha sido, é apenas uma pequena amostra do que sofre o povo palestino. Para os palestinos, a violência não dura alguns dias. Ela se prolonga há décadas. Está nos postos militares, nas prisões, nos bombardeios contra Gaza, na violência dos colonos na Cisjordânia, no bloqueio econômico, na destruição de casas, nos assassinatos e na expulsão permanente de uma população inteira de sua própria terra.

A opressão contra o povo palestino vem desde a fundação do Estado sionista, em 1948, e se desenvolveu como uma ditadura militar permanente contra a população árabe da região. O povo palestino, que habita aquela terra há mais de mil anos, foi submetido a um regime de expulsão, confinamento, massacre e humilhação constante. Se a imprensa mundial decidisse mostrar de maneira sistemática o que acontece nas prisões israelenses, nos centros de interrogatório, nos hospitais destruídos, nos campos de refugiados e nos bairros bombardeados, a situação política internacional entraria em combustão.

Por isso, a repercussão da flotilha também mostra a importância das redes sociais e da circulação direta de imagens e relatos. Durante décadas, a propaganda sionista procurou apresentar as denúncias palestinas como exagero, invenção ou encenação. A destruição de Gaza, os mortos, os mutilados, os presos e os expulsos eram tratados como estatística distante ou como peça de propaganda. A difusão dos vídeos e relatos da flotilha rompeu, mais uma vez, esse bloqueio político e comunicacional.

A propaganda israelense chegou a criar expressões como “Gaza Wood”, uma tentativa de dizer que as denúncias vindas de Gaza seriam uma espécie de produção cinematográfica, uma ficção montada para desmoralizar o sionismo. Trata-se de uma farsa grotesca. As imagens de crianças mortas, famílias destruídas, pessoas mutiladas, hospitais bombardeados e cidades arrasadas são conhecidas por milhões de pessoas em todo o mundo. Os relatos de palestinos feridos, inclusive aqueles transferidos para hospitais fora de Gaza, dão uma dimensão concreta da barbárie.

O que antes era escondido pelos grandes meios de comunicação passou a circular pela Internet. É esse o grande problema para o imperialismo e para o sionismo. A internet permitiu que milhões de pessoas vissem diretamente o que acontece na Palestina. Permitiu que vídeos, depoimentos, imagens de bombardeios, denúncias de tortura e relatos de sobreviventes escapassem do controle absoluto da imprensa pró-imperialista.

No Brasil, essa contradição aparece de maneira escandalosa. Enquanto cresce a solidariedade mundial ao povo palestino, setores que denunciam corretamente os crimes cometidos contra Gaza apoiam, ao mesmo tempo, medidas de censura na Internet. Acreditam que a censura será usada contra a extrema direita ou contra supostos abusos individuais, mas ignoram que o principal interessado em controlar a circulação de informações é justamente o imperialismo. Sem Internet livre, grande parte das denúncias contra “Israel” jamais teria alcançado a população mundial.

Também no Brasil, aqueles que defendem a Palestina são perseguidos por setores do Estado. O Ministério Público brasileiro e outras autoridades atuam, em muitos casos, como defensores indiretos da política sionista, buscando intimidar quem denuncia os crimes contra os palestinos. É uma situação absurda: os que defendem um povo massacrado, torturado e submetido a uma ocupação colonial são tratados como criminosos, enquanto o Estado responsável pela opressão recebe proteção política.

O caso da flotilha demonstra por que essa política é insustentável. A opinião pública mundial está cada vez mais contra o sionismo. Na Europa, multiplicam-se manifestações em defesa da Palestina, apesar da repressão dos governos. Na América Latina, na Ásia, no mundo árabe e mesmo dentro dos países imperialistas, cresce a compreensão de que a ocupação da Palestina é uma das maiores expressões da barbárie contemporânea.

A proibição francesa contra Ben-Gvir e a discussão de sanções na União Europeia não significam uma ruptura completa com “Israel”. Os governos imperialistas continuam presos a uma política de apoio estratégico ao Estado sionista. Mas o episódio demonstra que a defesa incondicional de “Israel” está se tornando politicamente mais custosa. A pressão popular começa a obrigar esses governos a reagir, ainda que de maneira limitada e contraditória.

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