Donald Trump chegou novamente à presidência dos Estados Unidos prometendo uma política diferente da de seus antecessores. Sua base eleitoral foi construída, em grande medida, sobre a denúncia das guerras intermináveis do imperialismo norte-americano, do gasto monumental com aventuras militares e da ideia de que os Estados Unidos deveriam se voltar para seus próprios problemas internos. Pouco mais de um ano depois, no entanto, Trump aparece envolvido em conflitos com a Venezuela, com o Irã e, agora, com Cuba.
Essa contradição é o centro da crise atual do trumpismo.
Ao assumir o governo, Trump se viu obrigado a firmar compromissos com setores tradicionais do imperialismo norte-americano, particularmente com sua ala mais agressiva. A presença de Marco Rubio na Secretaria de Estado é a expressão mais acabada desse acordo. Rubio não representa o trumpismo, mas a ala republicana ligada diretamente aos interesses do imperialismo, sobretudo no caso de Cuba e da Venezuela.
Na Venezuela, Trump fez uma operação de grande impacto propagandístico, mas sem chegar a uma guerra aberta. O sequestro de Nicolás Maduro, realizado graças a falhas da segurança venezuelana, deu ao presidente norte-americano a aparência de uma vitória. Mas, depois disso, Trump fez algo que o imperialismo, em condições normais, não faria facilmente: aliviou parcialmente os embargos contra a Venezuela. Ou seja, depois do ataque espalhafatoso, veio o recuo.
No Irã, a situação foi diferente. Trump acreditou que poderia repetir a fórmula venezuelana: uma agressão limitada, um golpe de teatro, uma demonstração de força suficiente para apresentar-se como vencedor diante de sua base. O cálculo fracassou. O Irã não era a Venezuela. A capacidade de resposta iraniana foi subestimada, e o governo norte-americano mostrou não estar preparado para uma operação militar de grande vulto.
O bombardeio contra o Irã, realizado em conjunto com os sionistas, foi um crime imperialista. O assassinato de dirigentes, o ataque a instalações civis e a ameaça de “reduzir o Irã a cinzas” mostram que Trump é capaz de reproduzir a brutalidade do imperialismo. Mas a operação não produziu a vitória política esperada. Ao contrário, expôs a fraqueza do governo norte-americano e derrubou sua popularidade.
Essa é a diferença essencial entre Trump e o democrata Joe Biden. Biden levou adiante uma guerra de enorme importância estratégica na Ucrânia, com planejamento e envolvimento profundo do imperialismo. Trump, por sua vez, tenta substituir uma política militar de grande escala por operações teatrais, ameaças espetaculares e golpes de propaganda. O problema é que, quando o adversário resiste, o teatro se torna inviável.
O “Trump guerreiro”, portanto, é antes de tudo uma contradição. Ele tenta agradar a ala militarista do imperialismo, mas não tem condições de realizar uma política de guerra consequente. Tenta aparecer como forte, mas recua quando o custo aumenta. Tenta vender vitórias fáceis, mas esbarra na resistência dos países oprimidos.
Essa contradição ameaça destruir o próprio trumpismo.
A força de Trump veio de uma base social que via nele uma alternativa ao establishment. Essa base não foi mobilizada para sustentar uma guerra contra o Irã, uma invasão de Cuba ou aventuras militares na América Latina. Quando Trump se aproxima da política tradicional do imperialismo, aproxima-se também do destino dos governos que sua própria base dizia rejeitar.
Ao mesmo tempo, se recua, desmoraliza-se diante da ala mais agressiva da burguesia imperialista. Se avança, rompe com uma parte de sua base. Se ameaça e não cumpre, vira um blefe. Se cumpre, pode mergulhar os Estados Unidos em uma crise maior do que pode controlar.





