Os empresários do setor nuclear querem que Lula abra Angra 3 ao capital privado. Celso Cunha, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan), declarou ao Poder360 que a conclusão da usina depende dessa participação. Ele apontou a Âmbar Energia, empresa da J&F, dos irmãos Batista. A obra está parada desde 2015 e o governo ainda não decidiu se vai terminá-la.
A cobrança vem depois da entrada dos empresários no projeto. Em outubro de 2025, a Âmbar acertou a compra da participação da Eletrobrás na Eletronuclear por 535 milhões de reais. A estatal administra Angra 1 e 2 e responde pela construção da terceira unidade. O negócio colocou a J&F à porta de um empreendimento cujo futuro será definido pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). A União continua controladora da Eletronuclear por meio da ENBPar, empresa pública criada após a privatização da Eletrobrás.
Cunha cobra uma decisão do governo e vê na força financeira da J&F uma razão para apressá-la. A Abdan apresenta a entrega de espaço a um grupo privado como necessidade financeira. O governo decide o destino da obra; os capitalistas querem determinar as condições dessa decisão.
O terreno para essa cobrança foi preparado pelo próprio governo Lula. No acordo com a Eletrobrás privatizada, a empresa deixou de ter obrigação de financiar a conclusão de Angra 3. A União, embora detenha uma parcela muito maior das ações ordinárias da Eletrobrás, aceitou manter o limite de 10% de seu poder de voto e recebeu indicações para o conselho de administração. A Associação dos Empregados da Eletrobrás denunciou o acerto: os acionistas ficaram livres de aportar recursos, e a conta foi transferida ao Estado e à população.
Agora se diz que o dinheiro público não basta e que a saída é abrir o projeto a novos investidores. O Estado pagou a construção já realizada e continua sustentando a obra parada. A J&F entra na disputa quando esses gastos já foram feitos. O poder público carrega o prejuízo; os empresários reivindicam o negócio.
Angra 3 começou a ser erguida na década de 1980. As obras, interrompidas diversas vezes, estão paradas desde 2015, quando a direita golpista que hoje faz parte da frente ampla estava a pleno vapor na campanha pela derrubada de Dilma Rousseff e a entrega da soberania nacional. Cerca de dois terços da usina foram construídos, com investimentos estimados em 12 bilhões de reais. Um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) calcula em 23,9 bilhões de reais o custo para concluí-la. Desistir também custaria caro: entre 22 bilhões e 25,9 bilhões de reais, incluídos o pagamento das dívidas, o encerramento dos contratos e a desmobilização do canteiro. Nesse caso, o dinheiro desembolsado não resultaria em uma usina pronta.
A Eletronuclear ainda desembolsa cerca de 1 bilhão de reais por ano para pagar dívidas e preservar as instalações. Entre 2024 e meados de 2026, a falta de uma definição consumiu aproximadamente 2,5 bilhões de reais, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU). A empresa também enfrenta problemas de caixa que atingem a operação de Angra 1 e 2. Os gastos da paralisação são reais, mas eles decorrem justamente da perspectiva que setores do governo têm de privatizá-la, e o sucateamento é sempre uma preparação para a privatização.
Lula foi eleito pela burguesia e está totalmente comprometido com os interesses dos capitalistas. Agora eles cobram o preço do apoio: ajuste fiscal e privatizações. É daí que vem a pressão da Abdan pela privatização de Angra 3. Cunha sabe que Lula está disposto a aplicar a política exigida pelos setores que o apoiaram. O presidente já sinalizou que tentará levar adiante essa política econômica direitista.
As diretrizes anunciadas para o próximo mandato deixaram de lado a reversão das privatizações. Mantiveram, porém, a contenção dos gastos públicos e a busca de investimentos privados. A Abdan vê nessa política uma oportunidade: quer fazer da presença de outro grupo capitalista a condição para concluir a usina sob a propriedade privada.
O problema não se limita à construção. A Eletronuclear depende da receita das unidades em funcionamento e tem compromissos com as Indústrias Nucleares do Brasil (INB), fornecedoras de combustível para Angra 1 e 2. A crise de uma empresa repercute na outra. A política para Angra 3 incide, portanto, sobre a capacidade do País de manter uma indústria nuclear sob controle público, desde o combustível até a geração de eletricidade.
Em 21 de outubro, o TCU determinou que o Ministério de Minas e Energia apresente os documentos necessários ao CNPE em 120 dias. O conselho terá mais 120 dias para decidir se a obra prossegue ou será abandonada. Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, pretende apresentar uma solução ainda neste ano. Cunha não esperou a decisão: anunciou que, para os empresários, Angra 3 deve ser concluída com a entrada do capital privado.



