Daniel Lemes, candidato do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo de Mato Grosso do Sul, colocou a luta pela terra e a violência contra os índios no centro do primeiro debate entre os candidatos ao cargo. Liderança guarani-caiouá, defendeu as retomadas e as autodemarcações, denunciou a repressão policial e criticou a falta de demarcações tanto por parte do governo estadual quanto do governo federal.
O debate foi promovido pela Rede Matogrossense de Comunicação e transmitido pela Morena FM e pelo portal Primeira Página nessa segunda-feira (17). Participaram também Delcídio Amaral (PRD), Fábio Trad (PT), Jefferson Bezerra (Agir), João Henrique Catan (Novo), Lucien Rezende (PSOL) e Renato Gomes (DC). O governador Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, foi convidado, mas não compareceu.
Questionado por Delcídio Amaral sobre a situação dos índios, quilombolas e outros setores da população, Lemes atacou a política do governo estadual e afirmou que não existem medidas voltadas para os índios, os sem-terra e os trabalhadores.
Para o candidato, a riqueza de Mato Grosso do Sul é resultado do trabalho da população, embora seja justamente ela quem sofre com a política do governo.
‘Vamos fazer nossas autodemarcações’
Uma das principais intervenções de Lemes ocorreu no bloco de temas livres. Ele perguntou a Jefferson Bezerra como seu eventual governo enfrentaria a violência contra os índios, destacando o número de assassinatos no estado.
Bezerra respondeu que pretendia tratar os índios “com amor, com carinho” e concentrou sua resposta nos problemas de álcool e drogas dentro das aldeias.
Lemes rebateu:
“Podemos perceber nesse debate, comunidade indígena, você que está me assistindo, que nenhum desses candidatos tem compromisso de apaziguar e acabar com a violência com a comunidade indígena. Não há um projeto concreto.”
Em seguida, fez um chamado às comunidades:
“Eu quero convidar toda a comunidade indígena aqui, do nosso sul, o povo do Pantanal: vamos fazer nossas autodemarcações. Vamos, porque a terra é a vida.”
Bezerra respondeu defendendo a repressão contra bloqueios de estradas e classificando esse tipo de mobilização como “baderna”.
“Mesmo os índios, mesmo o MST, sem-terra, eles não podem fechar as ruas e fazer baderna no meio das estradas. Eu sou contra as badernas”, declarou o escravo dos maiores baderneiros do País, os latifundiários, banqueiros e capitalistas.
A resposta explicitou a diferença entre as duas candidaturas. Enquanto Bezerra condenou os métodos de luta utilizados pelos índios e pelos sem-terra, Lemes defendeu as retomadas e as autodemarcações como meio de conquistar a terra.
Repressão nas aldeias
O candidato do PCO também denunciou a ação policial contra as comunidades durante a discussão sobre “feminicídio”. Ele lembrou a repressão contra mulheres guarani-caiouá da região de Dourados que protestavam pelo acesso à água potável.
Lemes responsabilizou o governo estadual e sua Secretaria de Segurança Pública pela violência e criticou os deputados estaduais que dão sustentação ao governo.
O assunto reapareceu quando o debate tratou dos direitos e territórios dos índios. Questionado por Lucien Rezende, do PSOL, Lemes classificou a política do governo como “racista” e “preconceituosa”.
Rezende tentou apresentar como avanço a criação, pelo governo Lula, de uma estrutura federal voltada aos índios. Lemes respondeu cobrando aquilo que considera a principal reivindicação dos guarani-caiouá:
“O que adianta ter ministérios, mas, no governo Lula do PT, para o guarani-caiouá aqui no sul do estado, a demarcação não foi feita?”
A crítica atingiu diretamente a política de substituir a luta pela terra pela ocupação de cargos no Estado. Para Lemes, sem demarcação, o problema fundamental continua sem solução.
Saúde e esporte
A situação das aldeias apareceu ainda nas discussões sobre saúde e esporte.
Questionado por Fábio Trad sobre a precariedade da saúde pública e a falta de atendimento no interior, Lemes atribuiu o problema à “incompetência desse governo do Estado” e defendeu maior participação dos trabalhadores na definição do uso dos recursos públicos.
No bloco sobre esporte, perguntou ao candidato do PT quais investimentos dos governos federal e estadual haviam sido destinados aos atletas das aldeias.
Após a resposta, afirmou:
“Hoje não existe no estado de Mato Grosso do Sul política pública para atleta indígena.”
Segundo Lemes, a falta de investimento deixa a juventude das aldeias sem condições de desenvolver atividades esportivas e sem perspectivas.
Da luta pela terra ao governo do estado
Professor e liderança guarani-caiouá de Amambai, Daniel Lemes é conselheiro da Grande Assembleia Aty Guasu e integra o CNPI. Foi militante do PT por mais de 20 anos e atuou pela demarcação das terras e em apoio às retomadas.
Desiludido com a política reformista rebaixada e de colaboração de classes do PT, em 2024 foi lançado pelo PCO à Prefeitura de Amambai, tornando-se o primeiro índio candidato ao cargo no município. A candidatura foi decidida coletivamente em sua própria comunidade.
Agora, na disputa pelo governo estadual, Lemes procurou usar o debate para colocar a luta pela terra diante de todo o estado. Em vez de tratar os índios como objeto de políticas assistenciais, defendeu a mobilização direta das comunidades.
Nas considerações finais, chamou trabalhadores e índios a participarem da campanha do PCO.
“Vamos juntos, vamos ser fortes”, afirmou.
A principal marca de sua participação, no entanto, ficou no chamado feito durante o debate: “vamos fazer nossas autodemarcações. Vamos, porque a terra é a vida”.





