As direções da Unidade Popular (UP), do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB) decidiram apoiar Lula no segundo turno das eleições presidenciais. Os três partidos, que gostam de se apresentar como organizações revolucionárias, defensoras da democracia operária e da participação dos militantes nas decisões políticas, divulgaram a orientação sem apresentar qualquer deliberação de suas bases. Seus dirigentes decidiram o que fazer e convocaram o restante dos filiados a cumprir a determinação.
O problema não é propriamente o voto em Lula. Afinal, apesar de toda a retórica pseudorradical, o programa dessas organizações possui muito mais semelhanças com o reformismo do PT e do PSOL do que seus dirigentes gostariam de admitir. O escândalo está no método. Partidos que fazem propaganda de sua democracia interna, chegando a defender formas horizontais de organização, tratam seus militantes como simples executores das decisões tomadas pela cúpula. Em português claro: os tratam como gado.
A UP, por exemplo, publicou nas redes sociais um vídeo com um pequeno grupo de dirigentes anunciando a posição da organização. Acompanhando a publicação, estava o seguinte comunicado:
“Contra o avanço do fascismo e em defesa da democracia, dos direitos do povo e da soberania nacional, no segundo turno convocamos o povo e toda a nossa militância a votar 13.”
A direção convoca toda a militância, mas não informa quem foi consultado antes da decisão. Não apresenta uma votação, uma conferência ou qualquer deliberação nacional dos filiados que tenha estabelecido a orientação. O comunicado anuncia o resultado e exige sua execução. É uma maneira bastante peculiar de praticar a democracia que a UP tanto proclama defender.
O PSTU seguiu caminho semelhante. Em artigo publicado no dia 7 de outubro, intitulado Contra Bolsonaro: voto crítico no 13, e nenhum apoio ao governo Lula, sua Direção Nacional anunciou o apoio eleitoral ao presidente:
“Por isso, vamos fazer um voto crítico em Lula contra Flávio Bolsonaro neste segundo turno. É fundamental enfrentar Flávio Bolsonaro, inclusive, preparando as mobilizações contra um eventual governo seu desde já.”
O documento apresenta uma longa explicação sobre os perigos da direita, critica o governo Lula e promete oposição ao PT mesmo em caso de vitória. Não explica, entretanto, como a militância participou da definição da política eleitoral. A assinatura é da Direção Nacional, que apresenta a decisão como uma orientação estabelecida para o conjunto do partido.
O PCB também anunciou sua posição por meio de um comunicado, publicado no dia 6 de outubro, sob o título Agora é Lula!. O partido convocou os filiados, coletivos e simpatizantes a trabalhar pela candidatura petista, depois de apresentar o segundo turno como uma batalha contra a extrema direita:
“Entendemos que, neste momento, é preciso somar forças para barrar o avanço da extrema-direita. Sem baixar nossas bandeiras nem esconder nossas divergências, devemos atuar de forma militante na campanha para eleger Lula e derrotar Flávio Bolsonaro.”
Também nesse caso, o comunicado não apresenta o resultado de uma consulta nacional à militância. A direção informa qual deve ser a atuação dos filiados durante o segundo turno, mas não esclarece de que maneira esses mesmos filiados participaram da escolha.
Os anúncios feitos pelos caciques partidários ocorreram logo após se conhecer o resultado do primeiro turno. Nem UP, nem PSTU, nem PCB decidiram discutir com seus militantes para fazer um balanço do primeiro turno e decidir qual a política a ser adotada no primeiro turno. Nada de submeter a decisão ao conjunto da militância. Para partidos que reivindicam uma democracia interna digna de se reivindicar como socialista, essa omissão é particularmente reveladora.
PSTU manda votar até em Leandro Grass
No Distrito Federal, o PSTU resolveu ir além do apoio a Lula. Sua direção regional publicou uma nota convocando “voto crítico” em Leandro Grass, candidato do PT ao governo distrital contra Celina Leão.
O documento procura justificar a decisão com uma extensa denúncia da direita e das medidas que atribui a Celina Leão. Afirma que a derrota eleitoral da candidata seria necessária para defender os trabalhadores, os serviços públicos e os direitos democráticos.
Ao mesmo tempo, o próprio PSTU reconhece que Grass representa um programa neoliberal. A nota promete não participar de um eventual governo petista, rejeita negociações por cargos e afirma que o partido continuará sendo oposição. Critica, inclusive, as tentativas de aproximação da candidatura de Grass com José Roberto Arruda e Kiko Caputo, políticos da direita.
O caso torna ainda mais difícil justificar a orientação eleitoral. Poderia haver um argumento político para votar em Lula, uma liderança histórica da classe operária brasileira, formada nas grandes greves do ABC paulista e na organização do movimento sindical. Embora Lula seja um reformista e seus governos tenham se caracterizado pela colaboração com a burguesia, sua trajetória explica a influência que ainda conserva sobre amplas camadas dos trabalhadores. Essa influência vem sendo corroída pela política cada vez mais direitista do governo, mas não desapareceu completamente.
Nada disso se aplica a Leandro Grass. O candidato petista ao governo do Distrito Federal é um político de origem pequeno burguesa, sem trajetória de direção do movimento operário. Sua carreira está ligada principalmente à política parlamentar e institucional. Não existe, portanto, a mesma justificativa histórica que poderia ser apresentada para o voto em Lula.
O PSTU, que se apresenta como revolucionário, chegou à conclusão de que é necessário fazer campanha por um candidato cujo programa ele próprio classifica como neoliberal. E anunciou essa orientação sem consultar as bases partidárias que a autorizasse.
A contradição fica ainda mais interessante quando se lê o final da nota do PSTU-DF. Depois de convocar voto em Grass, o partido defende a “mais ampla democracia operária das organizações dos trabalhadores” e critica dirigentes sindicais que encerram greves contra a vontade das bases.
A direção exige democracia dos sindicatos, condena decisões tomadas contra os trabalhadores e defende que estes controlem suas organizações. Mas, ao anunciar o apoio eleitoral, não apresenta aos próprios militantes uma deliberação equivalente. A democracia operária aparece como uma exigência dirigida aos outros.
De ultraesquerdistas a apêndices do PT
A política dessas organizações possui outro aspecto contraditório. Durante o golpe de Estado de 2016, essas mesmas organizações apoiaram a ofensiva da direita e do imperialismo contra o PT.
O PSTU foi um dos casos mais evidentes. Enquanto a direita organizava a derrubada da presidenta, o partido defendia a palavra de ordem “Fora Todos”, incluindo Dilma entre os governantes que deveriam deixar seus cargos. Apresentava essa posição como uma alternativa revolucionária tanto ao PT quanto à direita.
A burguesia, entretanto, estava conduzindo uma ofensiva concreta para retirar o PT do governo. A política do PSTU ignorava essa diferença fundamental entre a situação de Dilma e a dos partidos que organizavam sua derrubada. Em nome de um radicalismo supostamente independente, o partido levantava uma palavra de ordem que coincidia com o objetivo imediato dos golpistas.
O PSTU continua sustentando que o impeachment de Dilma não foi um golpe de Estado. Sua interpretação de 2016 permanece, portanto, essencialmente a mesma.
Dez anos depois, os dirigentes do partido convocam voto no PT sob o argumento de que é necessário combater o fascismo. Quando a burguesia atacava frontalmente o governo petista, o PSTU defendia sua saída. Agora, quando Lula governa aliado a partidos burgueses, banqueiros e figuras tradicionais da direita, a direção do PSTU anuncia que seus militantes devem trabalhar pela reeleição do presidente.
O PCB e a UP também apresentam o segundo turno como uma batalha decisiva contra o avanço da direita. O mesmo argumento já havia sido utilizado em eleições anteriores. Em 2018, o PCB indicou “voto crítico” em Fernando Haddad. Em 2022, PSTU e UP anunciaram apoio eleitoral a Lula, não porque sua candidatura expressasse um movimento dos trabalhadores contra a burguesia e o golpe de 2016, mas porque se tratava da luta entre “democracia” e “fascismo” – sem luta de classes.
O mecanismo se repete. Durante os governos petistas, essas organizações fazem críticas ao reformismo, à conciliação de classes e às alianças com a burguesia. Quando chega o segundo turno, suas direções abandonam qualquer crítica séria, passam por cima das suas bases e batem no peito, gritando bem alto: “Agora é Lula!”, apresentando a decisão como uma necessidade política praticamente indiscutível.
O problema é ainda maior quando a orientação chega pronta à militância. Afinal, não se trata apenas de decidir o voto individual de cada filiado. As direções estão determinando a atuação de suas organizações, o emprego de sua estrutura e o trabalho político de seus integrantes durante uma eleição nacional, colocando seus membros a reboque da frente ampla.
PCO vai consultar seus militantes em conferência partidária
Como um partido que realmente aplica o centralismo democrático, o Partido da Causa Operária adotou outro procedimento. Ao contrário da UP, do PSTU e do PCB, não anunciou imediatamente uma posição para o segundo turno. A decisão será tomada após uma reunião nacional de sua militância, marcada para o próximo domingo, na qual serão discutidos os resultados eleitorais e a situação política do País.
A direção do Partido apresentará sua avaliação do primeiro turno, e os delegados eleitos pelas células de militantes em todo o País terão a oportunidade de discutir as diferentes propostas antes da votação que estabelecerá a orientação oficial.
O PCO sempre fez isso. Em outubro de 2024, sua 37ª Conferência Nacional discutiu a situação política após o primeiro turno das eleições municipais e aprovou o voto nulo para o segundo turno. A posição foi definida por delegados da militância, reunidos para examinar a situação e decidir a política do Partido.
Em 2026, o PCO ainda não adotou uma orientação oficial sobre a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. A decisão será submetida ao congresso anunciado para domingo.
Por sua vez, a política de UP, PSTU e PCB é uma contradição especialmente grave para organizações que se apresentam como defensoras da democracia operária. Se os trabalhadores devem dirigir suas próprias organizações, os militantes também devem participar das decisões fundamentais de seus partidos. Não basta proclamar a democracia em documentos e reservar às direções o poder de determinar, sem prestar contas às bases, a política que todos deverão seguir.





