Na primeira aula do curso História da Revolução Bolivariana, da Universidade Marxista, Henrique Simonard, membro da Direção Nacional do Partido da Causa Operária (PCO), apresentou um panorama da história venezuelana a partir de um problema central: a luta pelo controle do petróleo. Aberta ao público, assim como a segunda aula, a atividade foi transmitida pela Causa Operária TV (COTV) no YouTube neste sábado (18). As próximas aulas, no entanto, ficarão reservadas àqueles que se inscreveram no curso por meio da plataforma da Universidade Marxista.
Segundo Simonard, a finalidade inicial do curso foi mostrar como a questão petrolífera passou a determinar a vida política venezuelana, desde o fim do século XIX até a crise do regime anterior à Revolução Bolivariana:
“A história da Venezuela durante todo o século XX, XXI é a história da luta pelo controle do petróleo no país. Isso vai se desenvolver já no início do século, no final do século XIX, com a descoberta do petróleo no país. Isso já vai, desde o início, gerar um conflito com as potências imperialistas […] O meu principal objetivo é que saindo dessa aula, que o pessoal entenda como é que começou esse processo, por que que ele acontece, como que o petróleo vai promovendo o desenvolvimento do Estado venezuelano, o desenvolvimento da burguesia venezuelana e vai causar aí uma série de convulsões também no regime venezuelano.”
Ao iniciar a exposição, Simonard voltou ao período da independência. Ele explicou que a crise do domínio espanhol, agravada pelas guerras napoleônicas, abriu caminho para os primeiros levantes na América Espanhola. De acordo com ele, o movimento que começou com Francisco de Miranda, inicialmente ainda ligado à Coroa, rapidamente se transformou em luta pela independência. Na sequência, destacou a tentativa de unificação regional sob a Gran Colômbia, vista por Simón Bolívar e outros dirigentes da época como uma forma de constituir um país forte o suficiente para enfrentar as potências europeias.
Na resposta a uma das perguntas, Simonard resumiu esse processo nos seguintes termos: “São as guerras napoleônicas que dão o início do período de independência da América Latina. A América Latina não, a América Espanhola, principalmente”. Ele acrescentou que a camada dirigente que encabeçou aquela transformação havia sido formada no ambiente político europeu e pretendia colocar os novos países “em pé de igualdade com os europeus”.
O dirigente do PCO avaliou que o fracasso da Gran Colômbia abriu um longo período de instabilidade. A dissolução da união entre Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá teria colocado o país em uma crise quase permanente, marcada por choques entre setores conservadores e liberais, guerras civis e devastação econômica. Na exposição, Simonard sustentou que essa desorganização só começou a ser rompida no fim do século XIX, quando uma fração da oligarquia procurou recentralizar o poder com Cipriano Castro.
Foi nesse ponto, segundo ele, que a questão do petróleo passou a ocupar o centro da vida nacional. Simonard relatou que a descoberta das jazidas, em um país enfraquecido por décadas de guerra, levou à entrada de companhias estrangeiras com maior capacidade técnica. “Aqui que começa no período do Cipriano, que começa o conflito de fato pelo controle do petróleo e a relação mais crítica e a tentativa mais incisiva das potências imperialistas de controlar o petróleo da Venezuela”, afirmou. Ele disse ainda que o governo de Castro procurou concentrar em suas mãos o poder de conceder áreas de exploração, o que aprofundou o choque com os grupos imperialistas interessados na riqueza petrolífera venezuelana.
Simonard associou a derrubada de Cipriano Castro e a ascensão de Juan Vicente Gómez à pressão direta do imperialismo. Segundo sua exposição, Gómez assumiu o poder com apoio de diplomatas norte-americanos e instaurou uma ditadura de quase três décadas, durante a qual as empresas estrangeiras passaram a controlar praticamente toda a exploração petrolífera. “São 27 anos que ele vai ficar no poder e durante esses 27 anos você tem o controle quase que total das empresas estrangeiras da exploração do petróleo aqui no país”, disse. “Eles ficavam, se eu não me engano, com menos de 10% do dinheiro que era explorado no petróleo”.
Ao tratar desse período, Simonard destacou uma contradição. De um lado, a ditadura gomista assegurou a submissão do país às grandes companhias estrangeiras; de outro, a própria riqueza extraída do petróleo permitiu a modernização parcial do Estado, o fortalecimento das Forças Armadas, a urbanização e a formação de novos setores políticos. Foi nesse terreno, afirmou, que apareceu a chamada Geração de 1928, da qual sairia Rômulo Betancourt, figura que passou a representar uma parte da burguesia venezuelana interessada em ampliar o controle nacional sobre a renda petrolífera.
O expositor também dedicou parte da aula ao desenvolvimento da esquerda venezuelana e à crise do regime após a morte de Gómez, em 1935. Segundo ele, os governos de transição abriram parcialmente o sistema político, permitiram a volta de exilados, legalizaram partidos e aprovaram normas para ampliar a participação do Estado na renda do petróleo. Nessa fase, Simonard chamou atenção para a importância da greve petroleira de 1936, apresentada como um dos primeiros confrontos de envergadura entre os operários do setor e as multinacionais.
Ao avançar na cronologia, Simonard explicou que a luta em torno do petróleo prosseguiu no interior do próprio regime. Ele abordou o golpe de 1945, o chamado triênio democrático, a eleição de Rômulo Gallegos e o novo golpe militar que levou Marcos Pérez Jiménez ao poder. Em sua exposição, esse encadeamento serviu para demonstrar que a Venezuela passou décadas sem estabilizar seu sistema político, alternando ditaduras, aberturas limitadas e sucessivos golpes de Estado. Mesmo quando setores nacionalistas da burguesia avançavam, procuravam acordos com o imperialismo em vez de romper de forma consequente com ele.
Essa questão apareceu com nitidez quando Simonard respondeu a uma pergunta sobre a diferença entre a Venezuela e outros países latino-americanos submetidos a ditaduras abertas nas décadas seguintes. Para ele, o imperialismo aceitou um acordo com o setor representado por Betancourt porque a instabilidade permanente ameaçava o abastecimento de petróleo e criava o risco de perda completa do controle político do país. “Eu acho que eles optam por esse acordo com o Betancur”, disse. “E esse setor da burguesia tá na tentativa de participar do regime venezuelano desde 35. Então antes eles também do que os comunistas”.
Simonard também sustentou que esse pacto teve um preço político: a exclusão do Partido Comunista Venezuelano do novo regime saído de 1958 e a consolidação do chamado Pacto de Punto Fijo, pelo qual Acción Democrática e Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (COPEI) passaram a se alternar no poder. Segundo ele, o acordo estabilizou temporariamente o país, mas o fez em aliança com o imperialismo e contra a esquerda. Na aula, o dirigente lembrou que parte da juventude da Acción Democrática rompeu com Betancourt e seguiu para a guerrilha, influenciada também pela Revolução Cubana.
No trecho final da exposição, Simonard tratou do período de enriquecimento da burguesia venezuelana com a alta do petróleo. Ele destacou o papel da Venezuela na fundação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e afirmou que, durante anos, a renda petroleira deu ao país uma aparência de prosperidade extraordinária. Ao mesmo tempo, insistiu que essa prosperidade escondia uma fraqueza: a dependência quase absoluta do petróleo. Nas palavras dele, a economia venezuelana foi ficando “totalmente refém das oscilações do preço do petróleo”, o que ajudaria a explicar a crise posterior do regime e o terreno em que surgiria o chavismo.



