O jornal O Estado de S. Paulo publicou, na quarta-feira (15), um editorial em que usa a pesquisa Datafolha mais recente para defender a ideia de que Luiz Inácio Lula da Silva pode ser derrotado no segundo turno por praticamente qualquer nome da direita, de Flávio Bolsonaro a Romeu Zema. O texto revela uma movimentação política da imprensa da burguesia para desgastar a candidatura de Lula e preparar o terreno para uma alternativa mais confiável aos interesses do grande capital.
A tese central do Estadão é simples: Lula estaria tão desgastado que o “antipetismo” bastaria para empurrá-lo para fora do Palácio do Planalto. Com isso, o jornal procura apresentar como natural a ideia de que a direita poderia se reorganizar em torno de qualquer candidatura, ainda que esses nomes, até o momento, não tenham demonstrado força política real para liderar uma disputa nacional.
O editorial tenta consolidar no eleitorado, nos círculos empresariais e no próprio regime a noção de que Lula se transformou em um obstáculo e de que o País precisaria encontrar uma “saída” para além da polarização. Em outras palavras, a burguesia busca criar um ambiente em que a desistência de Lula apareça como inevitável e até desejável.
Esse movimento se intensifica num momento em que o governo enfrenta desgaste político e em que setores da direita e da imprensa exploram, de maneira cada vez mais agressiva, o escândalo em torno do Banco Master e seu impacto sobre Alexandre de Moraes, figura com a qual o governo petista se associou profundamente nos últimos anos. A burguesia sabe que o caso pode ser convertido em arma eleitoral e passou a utilizá-lo para enfraquecer o presidente.
A contradição do PT é evidente. Depois de apostar na aliança com o STF, na “defesa das instituições” e na conciliação com setores do regime, o partido se vê preso aos mesmos mecanismos que ajudou a fortalecer. Agora que Alexandre de Moraes e o aparato judicial começam a se transformar em fator de desgaste, fica difícil para Lula separar sua própria imagem da crise. A imprensa burguesa, que ontem tratava o Supremo como bastião da “democracia”, hoje usa essa mesma engrenagem para apertar ainda mais o cerco sobre a candidatura petista.
É nesse ponto que o editorial do Estadão cumpre sua função. Ao afirmar que “até Zema” teria chance contra Lula, o jornal não está descrevendo uma realidade consolidada, mas fabricando uma. Quer impor a percepção de que Lula virou um candidato fraco, vulnerável, incapaz de sustentar a polarização e, portanto, dispensável. O objetivo é abrir espaço para um nome mais estável, que possa derrotar o bolsonarismo sem depender do peso eleitoral e popular que Lula ainda conserva.
A operação, porém, tem uma dificuldade importante. A chamada “terceira via” segue sem encontrar um candidato de peso. A própria polarização entre PT e bolsonarismo continua sendo o principal eixo da política nacional. Flávio Bolsonaro aparece com mais força do que os demais nomes da direita justamente porque se beneficia dessa polarização, e não porque a burguesia já tenha encontrado uma fórmula pronta para substituí-la. Isso explica a insistência dos editoriais, colunas e análises da imprensa em repetir diariamente que Lula está acabado: é preciso martelar a tese antes que ela exista de fato.
Ao mesmo tempo, o governo colabora para esse quadro com sua política desastrosa de frente ampla. O resultado é que, no momento decisivo, essas alianças não oferecem proteção real. Ao contrário: servem de ponte para que a burguesia pressione ainda mais o governo.





