Há mais de uma década, a contrarrevolução na América Latina tem atuado de forma mais aberta. Essa situação ocorre após a onda de ascensão eleitoral de governos de caráter nacionalista e de esquerda em vários países na primeira década deste século.
Observando o esgotamento dos métodos políticos tradicionais dentro do que estava estabelecido nos contratos sociais desses vários países, suas burguesias, associadas ao imperialismo, resolveram que, para recuperar os governos, seria necessário rasgar esses contratos sociais e valer-se de golpes de Estado.
Se, do lado da burguesia, ficou nítido o esgotamento dos métodos tradicionais, para a esquerda e os governos nacionalistas também ficou evidente o esgotamento da via eleitoral e institucional.
Todo esse esgotamento, que pode ser observado dos dois lados, evidencia o processo de decomposição dos regimes políticos aqui estabelecidos após as conhecidas ditaduras bonapartistas e fascistas.
Bolívia
Após a derrubada do presidente Evo Morales, em 2019, a esquerda boliviana apostou todas as suas fichas no processo eleitoral de Luis Arce, do MAS. Ao chegar ao governo, Arce abandonou a base que o elegeu e implementou um programa diferente daquele para o qual foi eleito nas urnas, desmoralizando e provocando divisões na esquerda. O resultado disso foi a fraude eleitoral, com o impedimento de que Evo Morales pudesse concorrer às eleições, e a chegada ao governo do candidato da extrema direita Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, que passou a aplicar um programa antipopular de entrega das riquezas do país e estabeleceu uma forte repressão às mobilizações populares.
Argentina
Na Argentina, a aposta foi uma perseguição sistemática contra a ex-presidente Cristina Kirchner, do Partido Justicialista. Por meio desse método, chegou-se à eleição do direitista Mauricio Macri, do Proposta Republicana. Depois, foi feita uma aposta eleitoral semelhante à realizada na Bolívia, apresentando-se o nome de Alberto Fernández, do Partido Justicialista, que foi eleito presidente da Argentina, mas fracassou em seu governo, com a implementação de um programa político-econômico profundamente tímido e que não conseguiu dar respostas efetivas aos problemas concretos vivenciados pelo povo argentino. Essa fórmula resultou em um governo fraco e impopular, que desembocou na eleição de Javier Milei, do Partido Libertário, um capacho totalmente alinhado ao imperialismo norte-americano.
Peru
A aposta eleitoral foi Pedro Castillo, do Peru Livre, que logo foi golpeado pelo Parlamento e preso, permanecendo encarcerado até os dias atuais. A população derrubou diversos governantes nas ruas, em reação às medidas impopulares. A esquerda peruana foi aceitando que a crise política fosse contornada por meio de um processo eleitoral. As eleições ocorreram de maneira acirrada e elegeram Keiko Fujimori, do Força Popular, herdeira do falecido ditador Alberto Fujimori, derrotando o candidato de esquerda Roberto Sánchez, do Juntos pelo Peru.
Colômbia
Na Colômbia, parecia que a esquerda conseguiria sair vitoriosa no pleito eleitoral para presidente, com a candidatura de Iván Cepeda, do Pacto Histórico, tendo em vista que havia sido bem-sucedida nas eleições parlamentares, conquistando um grande número de cadeiras. A situação saiu de controle, e a extrema direita conseguiu vencer por meio de um processo fraudulento e de uma forte intervenção do imperialismo norte-americano e de “Israel”, emplacando Abelardo de la Espriella, do Defensores da Pátria, para chefiar o Executivo.
O presidente Gustavo Petro, do Pacto Histórico, tem convocado as massas a se mobilizarem contra essa situação, que busca reverter as conquistas populares implementadas nos últimos anos e que agora estão ameaçadas por um programa político-econômico de ataques às condições de sobrevivência dos trabalhadores.
Venezuela
A Venezuela está sob um cerco político, econômico e militar há vários anos. O país vinha conseguindo contornar a situação de crise econômica por meio do fortalecimento das organizações populares e das instâncias de poder popular, da unidade cívico-militar e da intervenção dessas forças na crise para encontrar soluções. Isso resultou em um processo de substituição de importações, com o país passando a produzir aquilo que é consumido internamente e alcançando altos índices de crescimento.
Com essa vitória consolidada, sendo a reeleição do presidente Nicolás Maduro, do PSUV, um reflexo dessa situação, restou ao imperialismo apenas uma intervenção direta para atacar essa estrutura vitoriosa.
A ação militar dos Estados Unidos, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-combatente Cilia Flores, do PSUV, procurou desmoralizar a Revolução Bolivariana e dividi-la para alcançar o objetivo de reverter as conquistas populares e levar imediatamente ao poder político um governo alinhado ao imperialismo. Esse objetivo não foi alcançado de maneira absoluta. As conquistas populares e o regime político da Revolução Bolivariana continuam, mas o cerco imperialista permanece, e o governo bolivariano segue ameaçado, tendo de fazer algumas concessões para ganhar tempo e tentar se reorganizar após o sequestro do líder da revolução.
Equador
No Equador, o presidente Daniel Noboa, da Ação Democrática Nacional, conseguiu recentemente a reeleição, em uma vitória sobre Luisa González, da Revolução Cidadã. Noboa vem aprofundando e consolidando um governo de caráter bonapartista, com um aparato repressivo inspirado no que existe em El Salvador.
O principal líder popular do país, o ex-presidente Rafael Correa, da Revolução Cidadã, continua exilado. Várias lideranças estão encarceradas, como é o caso do ex-vice-presidente Jorge Glas. Glas foi preso após a invasão militar da Embaixada do México, onde se encontrava sob asilo político.
Essa situação no Equador vem perdurando há anos e teve início em 2017, com a traição do ex-presidente Lenín Moreno, que abandonou o legado da Revolução Cidadã e da Aliança País e passou para o lado do imperialismo, implementando um programa político-econômico neoliberal e de repressão às organizações populares. Essa linha política direitista, entreguista e repressiva foi seguida pelo ex-presidente Guillermo Lasso, do Movimento Criando Oportunidades.
Honduras
Em Honduras, Rixi Moncada, do Libre, candidata do governo de esquerda da presidente Xiomara Castro, também do Libre, saiu derrotada nas eleições pelo candidato do imperialismo Nasry Asfura, do Partido Nacional. As eleições foram marcadas por uma fraude eleitoral praticada pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), comprovada e denunciada por meio da divulgação de áudios nos quais representantes do referido órgão, parlamentares e militares orquestravam a manipulação das eleições. Essa medida foi um verdadeiro golpe de Estado e recebeu apoio direto e aberto dos Estados Unidos.
Considerações
Os únicos países em que obtivemos êxitos profundamente limitados recentemente foram o Brasil e o Uruguai, com dois governos de frente popular extremamente frágeis, de programas políticos tímidos e constantemente ameaçados.
Os métodos que se tornaram tradicionais na esquerda nos últimos anos do século XXI, tendo as eleições e a luta institucional como principais ferramentas para avançar na luta popular e alcançar conquistas para o povo trabalhador, têm se mostrado limitados e, podemos dizer, chegaram a um estágio de esgotamento. Não se trata de apontar que devemos abandonar a luta eleitoral e institucional, mas de dizer que, se não construirmos novas ferramentas capazes de desenvolver o poder popular e colocar os trabalhadores e suas organizações como protagonistas da resolução dos problemas que atingem seu cotidiano, continuaremos reféns das ferramentas dos regimes políticos constituídos por nossos próprios inimigos políticos, que possuem maior controle sobre elas.




