Inimigo da juventude

Alckmin: o algoz dos estudantes agora finge ser defensor dos estudantes

Vice-presidente homenageia jovens mortos em 1932, mas é um grande carniceiro de estudantes paulistas

“Nossos ídolos são os estudantes”, declarou Geraldo Alckmin no domingo (11), durante um ato da campanha de Lula na Avenida Paulista. O vice-presidente se referia a Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, quatro jovens mortos em 1932 cujas iniciais formaram a sigla MMDC, ligada ao movimento constitucionalista paulista. Na mesma fala, atacou o bolsonarismo e afirmou que São Paulo não quer ditadura. Quem ouviu o discurso sem conhecer seus governos poderia imaginar que Alckmin sempre esteve ao lado dos estudantes.

Os alunos que ocuparam escolas estaduais em 2015 ouviram outra coisa do então governador: ordens transmitidas à Polícia Militar. O mesmo ocorreu com jovens que protestavam contra o aumento das passagens e com universitários que se opunham à presença da PM na USP. Antes de se tornar vice de Lula, Alckmin chefiou por anos um governo que fechava o caminho às reivindicações estudantis e abria espaço para a tropa de choque. Sua homenagem aos mortos de 1932 é pura demagogia de um oportunista que busca reciclar sua imagem para tomar o governo federal para si.

Essa tentativa de reciclagem do antigo governador tucano começou com sua entrada na chapa de Lula, em 2022. Alckmin, dirigente do PSDB e adversário histórico do PT, passou a ser anunciado a setores da esquerda como fiador da democracia. Para que o retrato funcionasse, seria preciso esquecer o que fez em São Paulo. No domingo, ele acrescentou uma nova peça ao figurino: a de amigo da juventude.

Em novembro de 2011, estudantes da Universidade de São Paulo ocupavam a Reitoria numa luta que incluía a oposição ao acordo firmado para manter a Polícia Militar no campus. Em 8 de novembro, a PM entrou no prédio e levou dezenas de pessoas à delegacia. Os universitários responderam com assembleias e greve. Exigiam a saída da polícia, a libertação dos presos e o fim dos processos abertos contra participantes do movimento. Na universidade pública governada pelos tucanos, reivindicar esses direitos podia terminar numa viatura.

A disputa na USP não terminou naquela desocupação. Uma ata da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa registra, em 2016, um pedido para que autoridades da universidade e da segurança pública explicassem denúncias de repressão a estudantes que reivindicavam cotas. O requerimento mencionava bombas de efeito moral, detenções e perseguição a alunos. Não é necessário atribuir a Alckmin cada decisão de um policial ou da Reitoria para identificar a política de seu governo: a PM permanecia dentro da universidade e era acionada diante da mobilização estudantil.

Em junho de 2013, essa política apareceu diante de todo o País. As manifestações em São Paulo começaram com a luta contra o aumento das passagens. No dia 13, a PM atacou o protesto com bombas e balas de borracha. Manifestantes e jornalistas ficaram feridos; centenas de pessoas foram detidas. Alckmin governava o estado e sua polícia tentava retirar das ruas quem exigia transporte mais barato. O ataque produziu o efeito contrário: ampliou a indignação e levou mais gente aos atos seguintes.

A violência daquela época continuou a ser discutida muito depois de Alckmin deixar o Palácio dos Bandeirantes. Uma ação da Defensoria Pública sobre a atuação policial em manifestações de 2011 a 2013 apontou detenções indevidas, inclusive em massa, e uso excessivo da força. Em junho deste ano, o Superior Tribunal de Justiça determinou que o estado de São Paulo estabelecesse um protocolo para a ação da polícia em protestos. O episódio que ajudou a tornar Alckmin conhecido nacionalmente como inimigo dos manifestantes permanece documentado nos autos.

Dois anos depois, a luta se deslocou para dentro das escolas. Os professores da rede estadual fizeram uma greve de 92 dias em 2015. Em setembro, o governo anunciou uma “reorganização” que previa deixar de usar pelo menos 94 unidades como escolas regulares e transferir cerca de 311 mil alunos. O fechamento de uma escola muda a vida de quem mora perto dela: aumenta o percurso até a sala de aula, altera a rotina das famílias e desfaz os vínculos dos estudantes com professores e colegas. Alckmin apresentou tudo isso como uma medida administrativa.

Os secundaristas não aceitaram. Ocuparam escolas para impedir a execução do plano, e o movimento chegou a 213 unidades. Houve também manifestações nas ruas. A resposta do governador foi a repressão policial: adolescentes sofreram agressões, protestos foram atacados com bombas e estudantes foram detidos. O secretário estadual da Segurança Pública era Alexandre de Moraes, hoje apresentado pela esquerda como um campeão da democracia. Em 2015, cabia a ele dirigir a polícia enviada contra os alunos que defendiam suas escolas.

A resistência derrotou o fechamento das escolas. O secretário da Educação, Herman Voorwald, deixou o cargo, e Alckmin suspendeu o plano. As escolas não foram preservadas pela boa vontade do governador: os alunos as ocuparam, enfrentaram a PM e conquistaram apoio para obrigá-lo a recuar. Há uma diferença entre homenagear estudantes de um passado distante e aceitar que os estudantes de hoje decidam o destino da escola onde estudam.

Em 2016, o escândalo da merenda expôs outro aspecto da administração tucana. A Operação Alba Branca investigou fraudes em contratos de alimentação escolar ligados à Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar, a Coaf. As apurações alcançaram fornecimentos a prefeituras e ao governo estadual. Investigadores apontaram suspeitas de propinas e superfaturamento envolvendo agentes públicos e pessoas ligadas ao PSDB. Foi durante o governo Alckmin que o caso se tornou conhecido como máfia da merenda e que o apelido de “ladrão de merenda” passou a persegui-lo politicamente. O escândalo ocorreu em sua administração e ele foi o responsável por isso.

Estudantes ocuparam a Assembleia Legislativa para exigir uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a merenda. Quando a CPI chegou ao fim, a maioria governista aprovou um relatório criticado por não propor a investigação dos parlamentares citados nas denúncias. Dois secundaristas que acompanhavam uma das sessões finais foram detidos pela polícia. A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas denunciou que os jovens haviam protestado contra o relatório antes de serem retirados. Quem cobrava a apuração do dinheiro destinado à alimentação dos alunos encontrou, novamente, a força policial.

A morte de Matheus Santos de Freitas também pertence à história desse período. Em 1º de outubro de 2016, o estudante de Economia, de 24 anos, entrou com três amigos na Escola Estadual Presidente Tancredo de Almeida Neves, no Jardim Novo Horizonte, extremo sul da capital. Queriam usar a quadra. Policiais militares à paisana estavam no prédio para guardar urnas da eleição municipal do dia seguinte. Matheus foi baleado dentro da escola. Morreu dois dias depois, durante uma cirurgia no Hospital Geral do Grajaú.

Uma notícia publicada pela Assembleia Legislativa naquele mês afirma que a ambulância levou quatro horas para chegar. Nos depoimentos relatados durante o julgamento, a estimativa da demora foi de aproximadamente duas horas. Amigos e familiares também disseram que a primeira explicação recebida foi a de que Matheus teria se machucado na grade da escola. Sua mãe afirmou que soube no hospital que o filho havia sido atingido por uma bala. As fontes diferem quanto ao tempo de espera pelo resgate, mas concordam que Matheus foi baleado por um policial no interior do prédio.

Amigos e moradores protestaram contra a morte. A Força Tática os reprimiu com bombas e balas de borracha, segundo a notícia da Assembleia. Os deputados Beth Sahão e Enio Tatto pediram uma audiência pública para ouvir as autoridades responsáveis pela segurança e esclarecer o ocorrido. O requerimento foi rejeitado por cinco votos a três na Comissão de Direitos Humanos, com uma abstenção. Depois do tiro dentro da escola e das bombas na manifestação, a maioria da comissão recusou até mesmo aquela oportunidade de cobrar explicações.

Em maio de 2022, o ex-PM Francisco de Assis Pinheiro Silva foi condenado pelo júri a 12 anos de prisão pela morte de Matheus, por homicídio qualificado. Recebeu o direito de recorrer em liberdade. A reportagem sobre a sentença não informa se a condenação se tornou definitiva. Informa que a família esperou quase seis anos pelo julgamento e que o policial foi condenado pelo disparo que matou o universitário.

Alckmin era o governador responsável pela administração estadual e pela PM. Seu governo ficou marcado pela morte de um jovem baleado por um policial dentro de uma escola, pela repressão aos que saíram às ruas por justiça, pelas ocupações secundaristas atacadas pela tropa e pela tentativa de transferir centenas de milhares de alunos. Esses fatos têm datas, lugares e pessoas atingidas. Não desaparecem porque o antigo tucano passou a discursar ao lado de Lula.

A frente ampla pede à esquerda que esqueça o passado de Alckmin para supostamente enfrentar o bolsonarismo. O próprio vice-presidente agora tenta ocupar o lugar de defensor dos estudantes, quando ele tem as mãos manchadas de sangue estudantil.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.