As eleições estaduais deste domingo (20) em Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental confirmaram a crise dos partidos tradicionais da burguesia alemã. A União Democrata-Cristã (CDU), do chanceler Friedrich Merz, perdeu quase um terço dos votos na capital e ficou fora do parlamento de Mecklemburgo ao receber apenas 4,9%.
Em Berlim, onde quase 2,5 milhões de pessoas estavam aptas a votar, o Die Linke ficou em primeiro lugar com 25,7%, mais que o dobro dos 12,2% obtidos em 2023. A CDU caiu de 28,2% para 18,8%. A Alternativa para a Alemanha (AfD) passou de 9,1% para 16,3%, enquanto os Verdes recuaram de 18,4% para 14,3%. O Partido Social-Democrata (SPD) desabou de 18,4% para 12,1% e terminou na quinta posição. O BSW recebeu 4,7%; o Partido Liberal Democrático (FDP), 2,5%; e o Partido da Proteção Animal e o Volt, 2,1% cada. A participação foi de 74,2%, segundo a apuração eleitoral de Berlim.
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD venceu com 38,2%. Em 2021, tinha recebido 16,7%. O aumento foi de 21,5 pontos percentuais, ou quase 129%. O SPD ficou em segundo lugar, recuando de 39,6% para 35,5%. O Die Linke recebeu 6,5%; os Verdes, 5,7%; a CDU, 4,9%; o BSW, 4,8%; o Partido da Proteção Animal, 1,1%; e o FDP, 1%. A participação superou 75%. O resultado preliminar deixou a CDU fora de um legislativo estadual pela primeira vez em sua história.
As duas votações ocorreram apenas duas semanas depois da vitória da AfD na Saxônia-Anhalt. Em 6 de setembro, a extrema direita passou de 20,8% para 43,8%, mais que dobrando sua votação. A CDU caiu de 37,1% para 17,2%. O SPD recebeu 9,3%; os Verdes, 8,9%; o Die Linke, 8,6%; o BSW, 5,3%; e o FDP, 2,6%. A participação chegou ao recorde de 77,8%. Os números foram publicados pelo Departamento Estadual de Estatística da Saxônia-Anhalt.
Em três disputas realizadas no mesmo mês, a CDU perdeu mais da metade dos votos na Saxônia-Anhalt, caiu nove pontos em Berlim e perdeu quase dois terços de seu eleitorado em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Neste último estado, teve seu pior desempenho em uma eleição regional.
Merz chamou a derrota de “desastre”, mas afirmou que permanecerá no cargo e prosseguirá com seu programa de ataques às aposentadorias, à saúde e aos direitos sociais.
O fracasso da CDU é uma expressão da crise do imperialismo alemão. A destruição de parte da indústria, o aumento dos preços da energia e a política de guerra contra a Rússia atingem cada vez mais a população. Os partidos que sustentam essa política pagam o preço nas urnas.
Durante décadas, CDU e SPD se alternaram no governo e formaram a base política do regime. Agora, ambos perdem espaço. Além do desastre democrata-cristão, o SPD obteve em Berlim seu pior desempenho desde a reunificação.
Essa crise alimenta a polarização, mas as forças beneficiadas por ela não possuem a mesma natureza. A AfD e o BSW procuram aparecer diante do eleitorado como organizações exteriores ao bloco tradicional. O Die Linke, apesar de sua aparência mais esquerdista, está totalmente adaptado ao regime político alemão.
O partido é herdeiro político do Partido Socialista Unificado da Alemanha, a organização stalinista que governava a Alemanha Oriental. Depois da reunificação, esse aparelho passou por diferentes mudanças de nome e alianças até dar origem ao atual Die Linke.
Sua ascensão em Berlim não representa uma ruptura com o sistema. Diante do desgaste e da guinada à direita do SPD, o Die Linke aparece como possível substituto eleitoral da velha social-democracia. A burguesia pode recorrer a uma legenda com discurso mais esquerdista para conter a revolta e manter o governo dentro dos limites do regime.
Nesse sentido, o Die Linke é uma espécie de Syriza alemão. Assim como o partido grego, representa a esquerda pequeno-burguesa moderna, que faz promessas contra os capitalistas durante a campanha, mas aceita governar por meio das instituições políticas da burguesia.
Trata-se de um partido estepe da social-democracia. Quando o SPD se esgota, uma organização aparentemente mais à esquerda pode ocupar seu lugar eleitoral, incorporar setores descontentes e impedir que a crise leve a população a uma ruptura política.
A vitória em Berlim mostra essa função. O Die Linke cresceu defendendo medidas contra os grandes proprietários de imóveis. Sua candidata, Elif Eralp, prometeu aplicar o plebiscito de 2021, no qual aproximadamente 59% dos eleitores apoiaram a transferência ao poder público dos imóveis pertencentes a empresas com mais de 3.000 apartamentos. A decisão nunca foi executada.
A promessa procura aproveitar uma reivindicação popular que o próprio regime recusou durante cinco anos. O Die Linke, no entanto, já participou de governos na capital e está integrado às negociações com SPD e Verdes. Seu crescimento oferece à burguesia uma saída pela esquerda para a crise dos partidos tradicionais.
A AfD avança por outro caminho, principalmente nos estados orientais. Apoia-se na revolta contra o aumento do custo de vida, a destruição da indústria e a política de guerra. Embora seja uma organização burguesa de extrema direita, procura aparecer como oposição em temas como o conflito na Ucrânia, as sanções contra a Rússia e a União Europeia.
O BSW, por sua vez, ficou fora das câmaras de Berlim e Mecklemburgo por uma diferença mínima. Na capital, recebeu 4,7%, três décimos abaixo da barreira eleitoral. Foram 86.041 segundos votos, cerca de 5.200 a menos que o necessário para chegar a 5%. No estado do nordeste, obteve 4,8%.
A exclusão do BSW nos dois estados indica uma manobra da burguesia para impedir o aumento da representação parlamentar da extrema esquerda. A cláusula dos 5% elimina os votos dados a partidos que não atingem esse índice, protege as grandes organizações e dificulta o avanço de forças que aparecem fora do centro político oficial.
Em Berlim, uma legenda que fique abaixo de 5% ainda pode entrar na Câmara se vencer ao menos um distrito. O BSW não conquistou nenhum. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, essa exceção nem sequer existe. Dessa maneira, os votos dados ao partido não serão representados.
Na Saxônia-Anhalt, onde alcançou 5,3%, o BSW conseguiu eleger deputados. Duas semanas depois, ficou a dois décimos da barreira em Mecklemburgo e a três décimos em Berlim.
A retirada do BSW facilita as combinações dos partidos aceitos pelo regime. Em Mecklemburgo, SPD, Die Linke e Verdes formam a única maioria possível sem a AfD. Na capital, o Die Linke já é apresentado como candidato a dirigir uma aliança com SPD e Verdes. Longe de ameaçar o sistema, funciona como sua reserva diante da falência da social-democracia tradicional.
Depois da derrota, Merz declarou que a confiança nas instituições estaria sendo abalada por partidos “radicais tanto da esquerda quanto da direita”. O dirigente da CDU afirmou ainda que permanecerá como chanceler e presidente do partido.





