A revolução iraniana de 1979 não começou com uma greve geral nem com uma insurreição armada. Começou com um artigo de jornal. Em janeiro de 1978, o jornal oficial do governo do Xá publicou um texto difamatório contra o aiatolá Ruholá Khomeini, exilado havia mais de uma década. A reação foi imediata: os seminaristas de Qom, a cidade sagrada do xiismo, foram às ruas em protesto. A repressão matou estudantes. Estava aberto o ciclo de mobilizações que derrubaria a ditadura em pouco mais de um ano.
A Universidade Marxista realizará entre os dias 27 de junho e 5 de julho o curso A História do Irã e da República Islâmica, parte da Universidade de Férias de inverno da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR). O processo que abriu o ciclo revolucionário de 1977-1978 e a dinâmica das mobilizações que derrubaram o Xá são parte central do curso, ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República.
A abertura que tornou possível o início das mobilizações não foi uma concessão espontânea do regime, mas resultado da política externa do governo norte-americano de Jimmy Carter, que assumiu a Presidência dos Estados Unidos em janeiro de 1977 com uma retórica de “direitos humanos” voltada a aliviar o desgaste das ditaduras pró-imperialistas. O Xá foi pressionado a reduzir a repressão mais ostensiva, libertar alguns presos políticos e tolerar manifestações públicas. A oposição aproveitou cada milímetro dessa brecha.
De quarenta em quarenta dias
A mobilização ganhou um ritmo que tornaria impossível ao regime contê-la. Pela tradição xiita, os mortos são relembrados em cerimônias religiosas no quadragésimo dia após a morte. Cada repressão violenta gerava novos mártires. Cada cerimônia de quarenta dias se transformava em uma nova manifestação. Cada nova manifestação produzia novos mortos. O ciclo continuava sem que a ditadura conseguisse interrompê-lo.
Após o massacre dos seminaristas em Qom, em janeiro, vieram as manifestações de 40 dias em Tabriz, no fim de fevereiro. A repressão em Tabriz gerou as manifestações de 40 dias em Isfahan e em outras cidades, em março e abril. O movimento foi se generalizando geograficamente e politicamente. Cada onda incorporava setores sociais novos: estudantes, trabalhadores, comerciantes do bazar, profissionais liberais.
O bazar e os trabalhadores entram em cena
A entrada dos comerciantes do bazar foi um golpe sério no regime. Os bazaristas eram tradicionalmente uma base econômica das instituições religiosas e haviam sido prejudicados pelas reformas modernizantes do Xá. Quando começaram a aderir às greves e ao fechamento de seus estabelecimentos, paralisaram parcelas importantes da economia urbana.
Mais decisiva ainda foi a entrada da classe operária. A massa de trabalhadores que havia se concentrado nas grandes cidades nas décadas anteriores começou a se mobilizar em torno das mesquitas e dos bairros operários. As condições de vida nas cidades, agravadas pela crise econômica internacional iniciada em 1974 e pela inflação, jogavam combustível no processo. O Xá enfrentava simultaneamente uma crise política, uma crise econômica e uma crise religiosa que se reforçavam mutuamente.
A Sexta-Feira Negra
O ponto de inflexão ocorreu em 8 de setembro de 1978, na Praça Jaleh, em Teerã. O regime havia decretado lei marcial na noite anterior, mas dezenas de milhares de manifestantes ocuparam a praça pela manhã. As tropas abriram fogo contra a multidão. O massacre, que ficou conhecido como Sexta-Feira Negra, matou centenas de pessoas em poucas horas.
Nas semanas seguintes, as greves se espalharam pelos setores mais estratégicos da economia: petróleo, bancos, ferrovias, funcionalismo público. O Xá já não tinha como reprimir um movimento dessa escala sem provocar uma resposta ainda maior. O governo do Xá só duraria mais três meses. Em janeiro de 1979, ele deixaria o País. Em fevereiro, a revolução tomaria o poder.
O curso A História do Irã e da República Islâmica será ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO. As inscrições podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br ou pelo telefone (11) 99741-0436.




