A Guarda Popular, torcida organizada do Internacional, foi punida depois de se recusar a obedecer à proibição de um cântico contra a Brigada Militar. No Gre-Nal 454, seus integrantes poderão entrar na Arena do Grêmio, mas não poderão levar instrumentos musicais.
A restrição foi determinada pelo 1º Batalhão de Polícia de Choque. Entre as justificativas apresentadas estão brigas ocorridas no setor da torcida no clássico anterior e o fato de a organizada ter entoado músicas que haviam sido objeto de advertência do Ministério Público.
Uma delas é um dos cânticos tradicionais dos colorados:
Inter, meu bom amigo
Nessa campanha eu quero estar contigo
Te apoiaremos de coração
Essa torcida que te quer ver campeão
Não importa o que digas
A brigada militar (filha da puta)
Eu te sigo a toda parte
Cada vez te quero mais
Antes do Gre-Nal 453, o Ministério Público do Rio Grande do Sul havia determinado que a música não fosse cantada por causa do elogio à Brigada Militar – afinal, chamar uma escória dessa de “filha da puta” é muito pouco comparado com os crimes que são cometidos por essa instituição contra o povo gaúcho. A Guarda Popular não aceitou a censura e entoou o cântico mesmo assim.
O caso é particularmente revelador porque não há na letra racismo, misoginia, homofobia ou qualquer ataque contra um setor da população. O alvo é uma instituição do Estado.
Chegou-se ao ponto em que uma torcida não pode sequer xingar a polícia.
Outro cântico colorado foi questionado por conter uma expressão considerada homofóbica contra gremistas. É uma discussão diferente, embora também esteja longe de merecer qualquer tipo de proibição. Em Inter, meu bom amigo, nem essa desculpa existe. A proibição recai diretamente sobre uma crítica à Brigada Militar.
Durante anos, a campanha contra determinados cânticos foi apresentada como uma medida destinada a combater manifestações preconceituosas. Aceito o princípio de que o Estado pode decidir quais palavras uma torcida está autorizada a usar, a censura avança para seu verdadeiro terreno: impedir ataques às próprias autoridades.
A punição aplicada à Guarda Popular reforça esse caráter. As demais organizadas do Internacional poderão utilizar instrumentos dentro dos limites impostos aos visitantes. A restrição recai especificamente sobre aquela que desobedeceu à ordem.
Bumbos, surdos e demais instrumentos são fundamentais para organizar os cânticos de uma torcida. Proibi-los funciona, na prática, como uma nova tentativa de silenciar os torcedores.
O Internacional pediu a revisão da medida e questionou a aplicação de uma punição exclusiva aos colorados.
Mas não se trata simplesmente de discutir se a sanção foi exagerada. Nenhuma torcida deveria ser punida por insultar a Brigada Militar.
Uma arquibancada não pode funcionar sob a tutela do Ministério Público e da polícia. Torcedores devem ter plena liberdade para provocar adversários, xingar dirigentes, árbitros ou autoridades e cantar aquilo que quiserem.
Isso vale para a Guarda Popular, para as organizadas do Grêmio e para qualquer torcida do País.
A Brigada Militar já manda e desmanda em relação aos deslocamentos, revistas, acessos e uma série de aspectos da presença dos torcedores nos estádios. Não pode agora reivindicar também o poder de escolher quais palavras podem ser dirigidas contra ela.
As organizadas convivem permanentemente com operações policiais, escoltas, cercos e uma quantidade enorme de restrições. A proibição dos instrumentos acrescenta mais um mecanismo de controle sobre uma manifestação popular que deveria ser livre.
A defesa da liberdade de expressão precisa valer justamente quando aquilo que é dito incomoda.
Se depender da aprovação das autoridades, não existe liberdade alguma. Existe apenas uma autorização para falar aquilo que o Estado considera aceitável.
O caso da Guarda Popular demonstra aonde leva a propaganda contra a liberdade de expressão irrestrita. Primeiro, justifica-se a proibição com determinados conteúdos. Depois, o próprio Estado utiliza o mecanismo para se proteger da crítica.
A Brigada Militar não possui nenhum direito especial de ser respeitada pela população. Pelo contrário, é uma das instituições mais asquerosas aos olhos dos trabalhadores, dos pobres e de todos os oprimidos, entre eles os torcedores organizados. É um órgão repressor do Estado, a serviço da burguesia, para manter a lei e a ordem que garantem a exploração dos trabalhadores e o roubo da riqueza que por eles é produzida, roubo esse que faz enriquecer capitalistas, especuladores e os parasitam que comandam o Brasil de fora do País.
A Brigada Militar e todas as polícias, instituições separadas do povo e utilizadas para defender o Estado e a propriedade dos grandes capitalistas, deveriam ser dissolvidas. Em seu lugar, devem ser organizadas milícias populares eleitas e controladas diretamente pela população.
Uma força de segurança escolhida pelo próprio povo não poderia colocar-se acima dele nem transformar um xingamento em motivo para represália.
Colorados e gremistas podem ser adversários no estádio. Diante da censura, porém, todas as torcidas possuem o mesmo interesse: nenhuma autoridade deve decidir o que pode ou não ser cantado nas arquibancadas.
Abaixo a Brigada Militar. Todo apoio à Guarda Popular.




