Em 29 de abril de 1984, trabalhadores sem terra ocuparam a gleba Idalina em Ivinhema na madrugada, às margens do rio Guiraí. A ação reuniu mais de mil famílias oriundas do extremo sul de Mato Grosso do Sul e do Paraguai, em uma área de mata pertencente à colonizadora Someco, de São Paulo. O episódio foi lembrado pelo jornal Midiamax como marco da luta pela terra no estado.
A ação foi uma resposta concreta à concentração fundiária. Enquanto grandes empresas mantinham extensas áreas sob controle privado, milhares de famílias viviam sem terra, sem trabalho estável e sem perspectiva de sobrevivência no campo. A ocupação, portanto, não foi um gesto isolado, mas a expressão organizada de uma necessidade social: o acesso à terra para quem nela trabalha.
No dia 13 de maio, ocorreu o despejo, considerado até então o maior da história de Mato Grosso do Sul. Esse dado mostra a dimensão da ocupação e também a violência com que o Estado costuma responder à luta pela reforma agrária. Quando camponeses organizados pressionam pelo direito à terra, a reação dos proprietários e do poder público costuma ser a repressão.
A gleba Idalina tornou-se símbolo porque reuniu elementos centrais da questão agrária brasileira: migração forçada, famílias expulsas da terra, empresas colonizadoras, latifúndio, ausência de política agrária efetiva e repressão contra trabalhadores. A presença de famílias vindas do Paraguai também aponta para a situação dos chamados brasiguaios, trabalhadores brasileiros que haviam atravessado a fronteira em busca de sobrevivência e depois retornaram reivindicando um pedaço de chão.
A ocupação revelou que o problema da terra não era apenas jurídico ou administrativo. Era político. A existência de milhares de famílias sem condições mínimas de vida no campo, diante de grandes propriedades controladas por empresas, demonstrava a incapacidade do regime de resolver a questão agrária por vias burocráticas. A ocupação apareceu, então, como meio direto de luta.
A lembrança da gleba Idalina continua atual porque a concentração de terras permanece como um dos pilares da exploração no Brasil. A reforma agrária, tantas vezes prometida, nunca foi realizada de forma consequente. O povo do campo segue submetido à pressão dos grandes proprietários, à expulsão, à precariedade e à repressão policial.
Estudar a ocupação da Idalina é fundamental para entender a iniciativa dos camponeses sem terra como parte da história de resistência popular. A ação mostrou que, diante da inércia do Estado e da força do latifúndio, os trabalhadores rurais foram obrigados a se organizar e ocupar a terra para afirmar um direito elementar: viver e trabalhar.


