O inquérito do Banco Master vem produzindo uma sequência calculada de denúncias. Primeiro apareceu Ciro Nogueira. Depois, a gravação de Flávio Bolsonaro em busca de dinheiro para o filme de Jair Bolsonaro. Agora, Jaques Wagner e sua família.
A Polícia Federal já trata o senador baiano como intermediário entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o Palácio do Planalto. Cada novo episódio é apresentado como uma revelação, quando, na realidade, trata-se da continuação de uma mesma operação política.
A questão não é absolver ou condenar previamente os denunciados. O que uma imprensa comprometida com o povo deve exigir é que tudo seja esclarecido. Usar um inquérito para perseguir adversários por meio de vazamentos e denúncias selecionadas, independentemente da culpa de cada um, não tem nada de democrático.
Vorcaro, banqueiro de segundo escalão, tentou entrar em um terreno dominado pelos grandes bancos. Suas irregularidades foram denunciadas para derrubar o Banco Master, o que de fato ocorreu. Mas a queda do banco não encerra o problema. A preocupação de quem está por trás do inquérito é fechar a brecha que permitiu a um banco menor ameaçar os maiores e destruir as proteções políticas que Vorcaro organizou, principalmente no Supremo Tribunal Federal (STF).
O alvo principal, portanto, são os ministros do STF. Flávio Bolsonaro, Jaques Wagner e o próprio Lula aparecem como instrumentos dessa disputa. O senador baiano, amigo íntimo do presidente e uma das vozes mais fortes da ala direita do PT, é apresentado como alguém que facilitou, no Congresso, as operações do banqueiro. Por isso, torna-se um alvo importante, ainda que não seja o alvo central.
A conduta do PT confirma sua incapacidade de esclarecer qualquer coisa. Quando o escândalo estourou, o partido tentou jogar tudo nas costas do bolsonarismo, inventando o termo “bolsomaster”. Agora que o inquérito alcança Wagner, os bolsonaristas devolverão o golpe. Alguns petistas já abandonam o aliado de ontem com a fórmula cínica de que “quem fez algo errado tem que pagar”.
Pior ainda: os mesmos que ontem davam a eleição por ganha celebram hoje a Polícia Federal como prova de independência no governo Lula. Uma corporação que atua de modo político e seletivo nesses processos é elogiada, em vez de denunciada. A suposta independência cai por terra no próprio caso Wagner, pois a operação só avançou porque um ministro do Supremo passou por cima do chefe da PF indicado pelo próprio governo.
Ao lado da pressão dos grandes bancos, está o cálculo eleitoral da burguesia. Primeiro a gravação de Flávio Bolsonaro, agora Jaques Wagner. As duas principais candidaturas são desgastadas em sequência, em sintonia com o “nem Lula nem Bolsonaro” que a imprensa burguesa defende desde o início.
Uma pesquisa divulgada nesta semana aponta 47 a 43 para Lula, uma distância pequena, quase dentro da margem de erro. Ainda haverá muitos acontecimentos até a eleição. O inquérito do Banco Master entra, portanto, como mais um instrumento de pressão sobre o processo eleitoral.
Nenhum dos dois candidatos satisfaz plenamente os interesses dominantes. Enfraquecer ambos permite controlar o próximo governo, independentemente de quem vença, e mantém viva, embora cada vez mais difícil, a tentativa de impor um terceiro nome.
O inquérito não terminará tão cedo, e muitos outros nomes ainda aparecerão. O método é o mesmo: vazamentos seletivos, denúncias apresentadas em sequência e pressão política. Trata-se de uma operação dirigida por interesses que permanecem escondidos do povo brasileiro.
Enquanto bolsonaristas e petistas trocam acusações, os verdadeiros interessados na operação seguem conduzindo os acontecimentos. Por isso, a posição correta é simples: abrir a caixa-preta diante do povo brasileiro. É preciso revelar quem se beneficiou do Banco Master, quais foram suas ligações políticas, que proteção recebeu no STF e quais bancos se beneficiaram de sua queda.
Enquanto o inquérito servir como arma na guerra entre banqueiros e instrumento para tutelar o próximo governo, ele deve ser denunciado como uma farsa política. Venha disfarçado de “bolsomaster” ou de combate à corrupção, seu verdadeiro sentido é o mesmo: submeter o regime político aos interesses dos grandes capitalistas.





