No dia 15 de maio de 2026, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e os principais centros urbanos do Oriente Próximo registraram os 78 anos da Nakba, a catástrofe palestina. A data marca a expulsão em massa, a expropriação territorial e a destruição de centenas de vilarejos que tornaram possível a criação do Estado de “Israel”, em 14 de maio de 1948. Como escreveu o renomado historiador israelense Ilan Pappé, “o objetivo principal era a limpeza étnica de toda a Palestina, que o movimento cobiçava para seu novo estado”.
No aniversário da Nakba, dezenas de grupos de resistência divulgaram pronunciamentos reafirmando a continuidade da luta contra a ocupação. Em sua nota, o Hamas declarou que “não há legitimidade nem soberania para a ocupação da terra da Palestina, não importa quanto tempo passe, o quão grande seja o sacrifício”, indicando que a Nakba não é um episódio encerrado em 1948, mas sim um processo em andamento. O lobby sionista, no entanto, tenta transformar essa história em tabu, buscando impedir que a população mundial compreenda a continuidade entre a fundação de “Israel” e o genocídio em Gaza.
No Brasil, essa disputa assumiu forma concreta nas calúnias recentes contra o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta. Em edição recente do programa Análise Política da Semana, transmitido pela Causa Operária TV, Pimenta denunciou o uso político do Holocausto pela burocracia estatal israelense e por seus grupos de pressão. O dirigente do PCO não negou o genocídio nazista. Denunciou que uma tragédia real, o extermínio em massa de judeus pela Alemanha nazista, é explorada para blindar os crimes atuais de “Israel”.
Norman Finkelstein, cientista político judeu e filho de sobreviventes dos campos de concentração de Auschwitz e Majdanek, definiu esse mecanismo em sua célebre obra A Indústria do Holocausto. Ele escreveu: “afirmo que ‘O Holocausto’ é uma representação ideológica do holocausto nazista… Como a maioria das ideologias, ele tem conexão, embora tênue, com a realidade”. Em outra passagem, ele afirma que “o Holocausto provou ser uma indispensável bomba ideológica”, permitindo que “Israel” obtenha “imunidade à crítica, embora justificada”.
Foi exatamente essa operação que se verificou no caso brasileiro. A Confederação Israelita do Brasil (Conib) e a Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp), por intermédio de figuras como Fernando Lottenberg e Cláudio Lottenberg, acusaram Rui Costa Pimenta de antissemitismo, racismo e revisionismo histórico. O Jornal da Record, da TV Record, dedicou mais de dois minutos de sua programação às patifarias sionistas, mas recusou-se a veicular na íntegra a nota de esclarecimento enviada pela assessoria do PCO. Na nota, o PCO argumentava que a Conib tentava fazer com que “criticar os assassinos das crianças de Gaza vire crime”.
Finkelstein já havia descrito esse mecanismo ao afirmar que “a resposta mais óbvia é que ele tem sido usado para justificar políticas criminosas do Estado de Israel e o apoio americano a tais políticas”. O sofrimento das vítimas do nazismo é usado como instrumento de chantagem para impedir que se fale das crianças mutiladas em Gaza, das casas destruídas e dos campos de refugiados bombardeados.
O ataque ao PCO faz parte de uma ofensiva internacional para reprimir o antissionismo. Finkelstein apontou a degradação dessa operação quando escreveu:
“A maioria do que foi produzido não presta, não passa de um tributo ao engrandecimento judeu e não ao seu sofrimento”.
A crítica não é dirigida às vítimas do nazismo, mas à burocracia que se apropriou de sua memória para defender um Estado colonial. Por isso, disse Rui Costa Pimenta: “o que nega a validade da tese é usar isso para defender os crimes de Israel”.
Para compreender o problema, é preciso voltar à origem do sionismo. O movimento não nasceu como resposta ao nazismo. Surgiu no final do século XIX. Sua principal formulação política foi apresentada pelo jornalista austro-húngaro Theodor Herzl, em 1896, no livro Der Judenstaat, que defendia a criação de um Estado judeu como solução para a chamada “questão judaica” na Europa.
Desde o início, o sionismo era um projeto colonial. Pappé observa que, para seus pioneiros, “a Palestina era ocupada por ‘estranhos’ e tinha de ser re-apossada… os palestinos nativos que lá viviam eram em grande parte invisíveis para eles ou… faziam parte das dificuldades da natureza e, como tal, deviam ser conquistados e removidos”. Essa concepção revela a essência do movimento: a população nativa era tratada como obstáculo a ser eliminado.
Mesmo a escolha da Palestina não foi inicialmente uma exigência geográfica absoluta. O movimento sionista discutiu projetos em diferentes continentes, como o chamado Esquema de Uganda, apresentado em 1903, e experiências de colonização agrícola na Argentina. A fixação sobre a Palestina resultou de interesses do imperialismo britânico e da reformulação ideológica de uma ligação nacional entre judeus europeus e o território. Disse Ilan Pappé:
“O movimento sionista secularizou e nacionalizou o judaísmo… recreou, na verdade reinventou [a Palestina] como o berço de seu novo movimento nacionalista.”
O historiador israelense afirma ainda que “o projeto sionista só poderia ser realizado através da criação, na Palestina, de um Estado puramente judeu… E tal estado tinha que ser exclusivamente judeu não apenas em sua estrutura sociopolítica, mas também em sua composição étnica”. A consequência prática dessa política era a limpeza étnica.
A virada decisiva ocorreu com a Declaração Balfour, de 2 de novembro de 1917, na qual o Império Britânico comprometeu-se a apoiar a criação de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina. Durante o Mandato Britânico, entre 1922 e 1948, a administração colonial facilitou a imigração sionista, permitiu a compra de grandes propriedades e reprimiu a resistência árabe. Pappé destacou que “a ausência da maior parte da liderança palestina e de unidades de combate palestinas viáveis deu às forças judaicas em 1947 uma jornada fácil pelo interior da Palestina”.
A Grande Revolta Árabe, entre 1936 e 1939, foi esmagada pelos britânicos. Suas lideranças foram presas, exiladas ou mortas, e a população foi desarmada. A criação de “Israel” também contou com o apoio da União Soviética sob o contrarrevolucionário José Stálin, que apoiou a partilha da Palestina na ONU e autorizou, por meio da Checoslováquia, o envio de armas às organizações sionistas. Pappé observa que, “durante as fases iniciais da limpeza étnica… alguns milhares de palestinos irregulares e árabes enfrentavam dezenas de milhares de tropas judaicas bem treinadas”.
O instrumento jurídico da catástrofe foi a Resolução 181 da ONU, aprovada em 29 de novembro de 1947. A sessão foi presidida pelo diplomata brasileiro Oswaldo Aranha, ainda hoje celebrado pelo lobby sionista. A resolução concedeu ao futuro Estado judeu 56% do território da Palestina, apesar de a população judaica possuir apenas uma fração das terras e ser formada majoritariamente por imigrantes recentes. Pappé definiu a resolução como “um ato apressado de conceder metade da Palestina a um movimento ideológico que declarou abertamente já na década de 1930 seu desejo de des-arabizar a Palestina”.
No início de 1948, as forças sionistas, organizadas em torno da Haganá, da Palmach, do Irgun e do Lehi, reuniam dezenas de milhares de combatentes treinados, armados e integrados a uma cadeia de comando centralizada. A defesa palestina estava dispersa em comitês locais e grupos mal equipados. Pappé registra: “no início de 1948… o exército judeu era capaz de completar a primeira fase da limpeza da Palestina, mesmo antes que o plano mestre tivesse sido posto em prática”.
Esse plano mestre era o Plano Dalet. Pappé descreve sua elaboração:
“Em um edifício [em Tel Aviv]… um grupo de onze homens… deu os toques finais em um plano para a limpeza étnica da Palestina… O plano Dalet chamava pela sua expulsão sistemática e total de sua pátria.”
A liderança política dessa operação coube a David Ben-Gurion. Em 1937, ele já havia escrito: “nós devemos expulsar os árabes e tomar seus lugares”. Em 1947, afirmou: “apenas um Estado com pelo menos 80% de judeus é um Estado estável e viável”.
Para criar um Estado de maioria judaica em uma terra habitada majoritariamente por árabes, era necessário expulsar os árabes. O Plano Dalet transformou esse objetivo em ação militar. Pappé enumera os métodos: “intimidação em larga escala; cerco e bombardeio de aldeias e centros populacionais; incêndio de casas, propriedades e bens; expulsão; demolição; e, finalmente, plantio de minas entre os escombros”.
O caso mais conhecido é Deir Iassin, massacre perpetrado em 9 de abril de 1948. A aldeia, localizada a oeste de Jerusalém, mantinha acordo de não agressão com comunidades judaicas vizinhas. Ainda assim, foi invadida por combatentes do Irgun e do Lehi. As tropas atacaram casas, lançaram granadas e executaram civis. O saldo passou de 200 mortos, incluindo mulheres, crianças e idosos. Pappé assinala que o massacre foi “emblemático” da limpeza étnica e que o número de vítimas foi “deliberadamente inflado para semear o medo entre os palestinos”.
O terror cumpria uma função política: fazer com que outras aldeias fugissem antes da chegada das milícias. Como escreve Pappé, “depois do Holocausto, tornou-se quase impossível esconder crimes em larga escala contra a humanidade… e no entanto, um tal crime foi apagado quase totalmente da memória pública global”. Outro episódio decisivo foi Tantura, em 22 de maio de 1948. A vila pesqueira foi cercada pela Brigada Alexandroni. Após a ocupação, mulheres e crianças foram expulsas e os homens concentrados na praia. Pappé relata: “as tropas judaicas então cercaram totalmente a vila e consequentemente se encontraram com um número muito grande de aldeões em suas mãos… os homens foram levados em pequenos grupos para um local mais afastado onde foram executados”.
A lista de massacres é extensa. Balad al-Sheikh, Safsaf, Saliha, Hula e inúmeras outras aldeias foram atacadas, esvaziadas e destruídas. Em Saliha, Pappé afirma que “as tropas israelenses trucidaram mais de 100 pessoas”. Em Hula, no sul do Líbano, tropas israelenses executaram homens dentro de uma casa e explodiram o edifício. Pappé registra que, “em 31 de outubro de 1948, as forças judaicas executaram mais de oitenta aldeões na vila de Hula sozinha”.
O balanço geral da Nakba é devastador. Segundo Pappé, “mais de metade da população nativa da Palestina, perto de 800.000 pessoas, foram desenraizadas, 531 aldeias foram destruídas e onze bairros urbanos esvaziados”. A fundação de Israel repousa sobre cadáveres, ruínas e refugiados. Finkelstein observa o resultado moral dessa blindagem: “os que usufruem dessa imunidade… não escaparam à típica corrupção moral que faz parte dela”.
Depois de 1948, o processo não cessou. A violência das milícias transformou-se em violência de Estado. Em julho de 1948, durante a Operação Dani, as cidades de Lida e Ramla foram tomadas por forças israelenses comandadas por figuras que se tornariam centrais no regime, como Moshe Dayan e Isaque Rabin. Centenas de palestinos foram executados e dezenas de milhares foram expulsos. A população de Lida foi obrigada a marchar sob calor extremo, sem água, deixando mortos pelo caminho.
Na década de 1950, a Unidade 101, comandada por Ariel Sharon, levou adiante incursões punitivas contra aldeias palestinas na Cisjordânia. Em 14 de outubro de 1953, executou o massacre de Quibia. Casas foram explodidas com famílias dentro. Sessenta e nove civis morreram, a maioria mulheres e crianças. Em 1982, no Líbano, essa política chegou aos campos de Sabra e Chatila. Como ministro da Defesa, Ariel Sharon coordenou o cerco israelense aos campos de refugiados em Beirute Ocidental. Milícias falangistas libanesas, armadas e apoiadas por “Israel”, entraram nos campos e massacraram civis durante cerca de 36 horas.
Essa impunidade histórica ajuda a explicar o que acontece hoje em Gaza. Entre outubro de 2023 e maio de 2026, a ofensiva israelense elevou a Nakba a uma escala industrial. Bombardeios de alta tonelagem, bloqueio, destruição de hospitais, escolas, universidades, moradias e sistemas de água produziram uma catástrofe humanitária sem precedentes recentes.
Segundo os dados reunidos no período, os mortos diretos em Gaza chegaram a pelo menos 75.811, enquanto estudos epidemiológicos estimaram que a mortalidade real, incluindo óbitos decorrentes do colapso humanitário, poderia situar-se entre 100.000 e 126.000 palestinos. Os feridos passaram de 171.230, com dezenas de milhares de sequelas permanentes. Entre eles, há milhares de crianças amputadas ou incapacitadas.
A distribuição das vítimas mostra a natureza da ofensiva. Mulheres e crianças formam a maioria dos mortos em ataques a edifícios residenciais. Mais de 38.000 mulheres e meninas teriam sido assassinadas, além de mais de 21.000 crianças. Relatórios indicaram que famílias inteiras desapareceram, sobrenomes foram eliminados dos registros civis e gerações completas foram apagadas por um único ataque aéreo. Avaliações internacionais calcularam danos de dezenas de bilhões de dólares. Mais de 1,2 milhão de palestinos perderam suas casas e mais de 1,9 milhão foram deslocados internamente. A Faixa de Gaza acumula dezenas de milhões de toneladas de escombros. Hospitais funcionam sem insumos, escolas foram atacadas e universidades foram reduzidas a ruínas.
A ofensiva não se limita a Gaza. Entre 2025 e 2026, “Israel” expandiu seus ataques contra o Líbano, atingindo bairros de Beirute, o sul do país e o Vale do Beca. Bombardeios intensos, uso de fósforo branco e ataques contra infraestrutura civil produziram milhares de mortos e mais de um milhão de deslocados.
No Brasil, a defesa do sionismo está intimamente ligada à censura e à repressão. O caso do Bar Partisã, no Rio de Janeiro, é exemplar. Em 5 de abril de 2026, o Procon Carioca multou o estabelecimento por exibir uma placa política afirmando que cidadãos dos Estados Unidos e de “Israel” não eram bem-vindos. O protesto, dirigido contra países responsáveis pelo financiamento e execução do massacre palestino, foi tratado como discriminação por origem nacional. Como resultado da perseguição, o bar chegou a ter seu alvará cassado.
A repressão também aparece nos aeroportos. Em abril de 2026, a família do refugiado palestino Hani Alghoul ficou retida ilegalmente por seis dias no Aeroporto Internacional de São Paulo, até que a Justiça Federal concedesse habeas corpus. Ao mesmo tempo, soldados israelenses suspeitos de crimes de guerra circularam pelo Brasil sem impedimentos, como demonstrou o caso de um militar denunciado pela Hind Rajab Foundation por sua participação em destruição de propriedades civis em Gaza.
No plano legislativo, a ofensiva sionista aparece no Projeto de Lei 1424/2026, apresentado pela deputada Tabata Amaral em coautoria com parlamentares ligados à direita e à bancada evangélica. O projeto busca adotar a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), incluindo exemplos que equiparam a crítica ao caráter racista do Estado de “Israel” e comparações históricas com o nazismo a manifestações antissemitas. Vinculada à Lei do Racismo, essa definição abriria caminho para tornar ilegal a realização de atos de solidariedade à Palestina, debates universitários e publicações jornalísticas.
Finkelstein assim resumiu o a farsa do Holocausto narrado pelos sionistas:
“A mim parece que o Holocausto está sendo vendido — não ensinado.”
O ensino real do Holocausto deveria servir para combater o racismo, o genocídio e o colonialismo. A indústria do Holocausto faz o contrário: transforma a memória das vítimas em escudo para um Estado que oprime outro povo.
Os 78 anos da Nakba mostram que a questão palestina é um divisor de águas. De um lado, estão o imperialismo, o Estado sionista, a imprensa capitalista e o aparato judicial que procuram reprimir qualquer denúncia. Do outro, estão os povos oprimidos e todos aqueles que defendem o direito elementar de dizer que um massacre é um massacre.





