Oriente Médio

51 países enviaram ajuda militar a ‘Israel’ durante massacre em Gaza

Mesmo após decisão da Corte Internacional de Justiça, carregamentos de munições, peças de armas e componentes militares continuaram chegando ao Estado sionista

Uma investigação publicada pela emissora catariana Al Jazeera em 23 de maio revelou que produtos de uso militar originários de ao menos 51 países e territórios autônomos continuaram entrando em “Israel” depois que a Corte Internacional de Justiça (CIJ) ordenou medidas provisórias para impedir atos de genocídio contra os palestinos na Faixa de Gaza. A apuração se baseou em dados da Autoridade Tributária de Israel, registros alfandegários e pedidos de acesso à informação.

A decisão da Corte Internacional de Justiça, emitida em 26 de janeiro de 2024, não julgou o mérito definitivo do caso apresentado pela África do Sul contra “Israel”, mas ordenou que o Estado israelense tomasse medidas para impedir atos previstos na Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. Àquela altura, a ofensiva israelense já havia matado dezenas de milhares de palestinos em Gaza.

Segundo a investigação, entre outubro de 2023 e outubro de 2025, Israel recebeu 2.603 carregamentos de produtos militares ou relacionados ao setor militar, avaliados em 3,22 bilhões de shekels, cerca de US$885,6 milhões. Desse total, 91% do valor foi registrado depois da decisão da Corte de janeiro de 2024. Os itens incluíam munições, explosivos, peças de armas e componentes para veículos blindados.

Os cinco maiores territórios de origem desses materiais foram Estados Unidos, Índia, Romênia, Taiuã e República Checa. Todos aumentaram os envios durante a guerra, segundo os dados analisados pela Al Jazeera. A própria investigação aponta que, depois da decisão da Corte, as importações militares israelenses cresceram, especialmente na categoria de munições.

Muitos dos países citados são signatários da Convenção do Genocídio, tratado que obriga os Estados não apenas a punir, mas também a prevenir esse crime. Mesmo assim, os carregamentos seguiram entrando em “Israel” durante a ofensiva contra Gaza. Em alguns casos, segundo a apuração, os produtos partiram de países que declararam publicamente restrições, suspensões parciais ou embargos de armas ao Estado sionista.

A investigação também menciona o Brasil. O governo brasileiro afirmou à Al Jazeera que não aprovou novos pedidos de exportação de defesa para “Israel” desde 9 de fevereiro de 2023. Ainda assim, os dados alfandegários israelenses indicam que materiais militares ou relacionados ao setor militar originários do Brasil somaram 2,4 milhões de dólares, durante a guerra, quase 80% desse valor após janeiro de 2024. O Itamaraty alegou que determinadas categorias, como componentes de armas de fogo, acessórios, munição de pequeno calibre, insumos de fabricação e equipamentos de treinamento militar, não passam por aprovação prévia do Ministério das Relações Exteriores.

A revelação expõe a distância entre o discurso diplomático e a prática dos governos. Vários países condenaram a situação humanitária em Gaza, defenderam cessar-fogo ou reconheceram a obrigatoriedade das decisões da Corte. Ao mesmo tempo, os dados analisados mostram que a cadeia internacional de suprimento militar de “Israel” permaneceu funcionando.

Especialistas ouvidos pela Al Jazeera afirmaram que governos que continuaram armando “Israel” podem estar sujeitos a questionamentos jurídicos por cumplicidade em crimes internacionais. Stephen Humphreys, professor de direito internacional da London School of Economics, afirmou que havia evidências suficientes para levantar a possibilidade de cumplicidade em crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Gerhard Kemp, professor de direito penal da Universidade do Oeste da Inglaterra, argumentou que a obrigação de prevenir genocídio não depende de uma sentença final da Corte, mas do conhecimento de um risco sério.

Em setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Inquérito da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o Território Palestino Ocupado concluiu que “Israel” cometeu genocídio contra os palestinos em Gaza. A comissão também afirmou que os países têm obrigação de evitar condutas que possam contribuir para atos genocidas, inclusive transferências de armas que sejam usadas ou possam ser usadas para esse fim. 

Mesmo após o cessar-fogo anunciado em outubro de 2025, o fluxo de insumos militares não cessou. A Al Jazeera afirma que, nos dois últimos meses de 2025, “Israel” recebeu mais 89,4 milhões de dólares em importações militares ou relacionadas ao setor militar. No mesmo período posterior ao cessar-fogo, ao menos 220 carregamentos chegaram a portos israelenses, originários de 28 países.

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