O Hesbolá passou por uma reorganização militar em cinco pontos após a guerra de 2024 contra “Israel”, tornando-se uma força ainda mais difícil de derrotar por meios convencionais. A avaliação foi publicada pela HispanTV, em artigo assinado por Mohammad Molaei, analista de assuntos militares baseado em Teerã.
Segundo Molaei, a propaganda israelense e imperialista apresentou, após a guerra, a ideia de que o Hesbolá havia deixado de existir como força militar decisiva. A organização havia sofrido perdas importantes em sua direção, teve combatentes assassinados e enfrentou uma intensa campanha política no Líbano promovida por setores apoiados pelo imperialismo.
O artigo afirma, no entanto, que essa versão foi desmentida pelos acontecimentos posteriores. Em vez de permanecer passivo, o Hesbolá teria usado o período posterior à guerra de 2024 para reorganizar sua forma de combate e se preparar para um novo enfrentamento com o exército israelense.
“A resistência libanesa segue viva e mais forte que nunca”, escreveu Molaei, ao afirmar que as mudanças militares do Hesbolá indicam uma adaptação às novas condições da guerra contra “Israel”.
A primeira mudança apontada pelo analista foi a reorganização do emprego das forças. O Hesbolá, que surgiu como uma organização de guerrilha, passou por uma fase de atuação com formações maiores, principalmente após sua participação nas guerras contra o Daesh e outros grupos armados apoiados pelo imperialismo na Síria e no Iraque.
Esse modelo, segundo o artigo, mostrou limitações diante de um inimigo dotado de vigilância avançada, ataques de precisão e informações em tempo real. Grandes formações militares tornam-se alvos mais fáceis para bombardeios aéreos e artilharia.
A resposta do Hesbolá teria sido dividir suas forças em unidades menores, especializadas e com maior mobilidade. Essas unidades atuam em operações de alto impacto, como ataques de precisão com VANTs FPV, infiltrações limitadas e emboscadas. Em vez de manter grandes formações expostas, o Hesbolá passou a empregar grupos reduzidos, mais difíceis de localizar e destruir.
Segundo Molaei, essas unidades não têm como objetivo dominar o terreno no modelo convencional, mas impor perdas, interromper operações israelenses e aproveitar brechas no campo de batalha. O resultado é um uso mais eficiente de combatentes experientes e uma capacidade maior de adaptação.
A segunda mudança foi a descentralização do comando. O artigo afirma que os modelos muito hierarquizados, baseados em ordens centralizadas, são frágeis em guerras nas quais as comunicações podem ser bloqueadas, interceptadas ou atacadas.
Durante a guerra de 2024, centros de comando do Hesbolá foram alvos de assassinatos e ações de sabotagem. A partir dessa experiência, a organização teria dado maior autonomia a comandantes de menor escalão, permitindo que unidades locais tomem decisões rápidas sem depender de instruções detalhadas da direção central.
Essa mudança dificulta a estratégia israelense de assassinatos seletivos. Quando a capacidade de combate está distribuída entre muitas unidades e não concentrada em poucos centros de decisão, a eliminação de dirigentes produz resultados menores. Cada unidade passa a ter condições de continuar atuando mesmo quando isolada do comando superior.
A terceira mudança foi a passagem de operações baseadas no volume de fogo para operações baseadas em resultados definidos. Em guerras anteriores, o Hesbolá utilizou amplamente foguetes de 122 mm e 107 mm para desgastar “Israel”. Essa tática teve êxito em outros momentos, mas perdeu parte de sua eficiência diante dos sistemas defensivos sofisticados do regime israelense, sustentados pelos EUA.
O artigo afirma que o Hesbolá passou a medir suas ações menos pela quantidade de projéteis lançados e mais pelos efeitos obtidos: interromper a logística israelense, atingir centros de comando, obrigar tropas inimigas a mudar de comportamento e causar baixas.
Essa mudança exige melhor coleta e análise de informações. Em vez de gastar grande quantidade de armamentos, a organização busca identificar alvos cuja destruição produza efeitos militares relevantes. Com isso, reduz o consumo de recursos e diminui o risco de perdas desnecessárias entre seus combatentes.
A quarta mudança foi o abandono da defesa territorial rígida. Segundo Molaei, em fases anteriores, a manutenção física de determinadas áreas era vista como sinal de vitória militar. A batalha de Bint Jbeil, em 2006, quando a ocupação israelense sofreu uma derrota humilhante, foi um exemplo dessa política.
Diante da superioridade aérea e tecnológica de “Israel”, o Hesbolá teria passado a priorizar a mobilidade, o desgaste contínuo e a impossibilidade de consolidação da ocupação. A organização pode ceder terreno em certos momentos, mas atua para impedir que o exército israelense mantenha posições sem pagar um preço permanente.
“Israel pode tomar aldeias e territórios ao sul do Litani, mas nunca os manterá”, afirma o artigo. A política descrita por Molaei é transformar o sul do Líbano ocupado em uma zona de morte para os soldados do regime israelense.
Essa orientação representa, segundo o analista, um retorno parcial às táticas das décadas de 1980 e 1990, quando a resistência libanesa impôs uma guerra prolongada à ocupação israelense. Mesmo que “Israel” avance em certas regiões, a pressão constante sobre suas tropas tende a elevar o custo político e militar da ocupação.
A introdução em massa de VANTs FPV reforçou essa política. Com equipamentos mais baratos e de uso flexível, o Hesbolá pode manter ataques constantes contra forças israelenses, dificultando sua permanência em território libanês.
A quinta mudança foi a renovação da direção militar. O artigo afirma que o golpe mais duro sofrido pelo Hesbolá em 2024 foi o martírio de grande parte de sua cúpula e, em especial, de seu secretário-geral histórico, Saied Hassan Nasseralá.
Molaei destaca que muitos exércitos nacionais não teriam sobrevivido a uma combinação de ataques terroristas com pagers, guerra devastadora e perda de quase toda a alta direção militar. O Hesbolá, no entanto, conseguiu reorganizar sua direção e promover uma nova geração de comandantes.
Essa transição forçada retirou da organização dirigentes com décadas de experiência, que participaram da libertação do sul do Líbano, da guerra de 2006 e de outros conflitos regionais. Ao mesmo tempo, abriu espaço para comandantes mais jovens, formados em uma situação militar diferente e menos presos a métodos anteriores.
Segundo o artigo, essa nova geração estaria mais disposta a aplicar mudanças como unidades menores, comando descentralizado e operações de precisão. A promoção acelerada de comandantes também teria fortalecido a iniciativa e a capacidade de resposta das unidades no terreno.
Para Molaei, os cinco pontos mostram que o Hesbolá não foi destruído pela guerra de 2024, como alegaram “Israel” e a imprensa imperialista. A organização teria saído do conflito com uma estratégia mais adaptada à guerra atual, combinando pequenas unidades, autonomia operacional, precisão, mobilidade e renovação de quadros.
O resultado, segundo o analista, é uma força capaz de transformar qualquer avanço israelense no Líbano em um desgaste prolongado. A superioridade tecnológica e numérica de “Israel” não resolve o problema militar colocado pelo Hesbolá: uma organização armada que evita o confronto nos termos escolhidos pelo inimigo e impõe perdas constantes às tropas de ocupação.





