Ásia

Após golpe, Nepal tem novo primeiro-ministro

Karki, de 73 anos, é a primeira mulher do Nepal a se tornar primeira-ministra interina e é amplamente conhecida por sua "postura contra a corrupção"

O presidente do Nepal, Ram Chandra Paudel, anunciou, nesta sexta-feira (12), a nomeação do novo primeiro-ministro do país, após dissolver o parlamento e marcar eleições para março de 2026.2 A decisão foi resultado de negociações entre o presidente, representantes dos manifestantes que derrubaram o governo anterior e o chefe do exército, General Ashok Raj Sigdel, enquanto os militares efetivamente assumiam o controle da capital, Katmandu, e impunham um toque de recolher. O novo-primeiro ministro é a ex-presidente da Supremo Tribunal do Nepal, Sushila Karki.

Karki, de 73 anos, é a primeira mulher do Nepal a se tornar primeira-ministra interina e é amplamente conhecida por sua “postura contra a corrupção”. Entre 2016 e 2017, ela atuou como chefe de justiça — a única mulher a ter ocupado este cargo. Em 2017, alguns parlamentares tentaram destituí-la sob acusações de parcialidade, mas a tentativa rapidamente fracassou devido à indignação pública e a uma intervenção da Suprema Corte. Karki deixou o cargo ao atingir a idade limite obrigatória de 65 anos.

Manifestações em massa eclodiram no início de setembro no Nepal, quando nepaleses, principalmente jovens, protestaram contra os filhos de políticos que ostentavam sua riqueza online enquanto o país lutava contra a pobreza e o desemprego juvenil acima de 20%. Depois que o governo decidiu banir as redes sociais, os protestos se intensificaram, resultando em confrontos violentos entre manifestantes e a polícia, que supostamente usou não apenas gás lacrimogêneo e canhões de água, mas também munição real para dispersar as multidões. Os protestos tiveram seu ápice na terça-feira (9), quando manifestantes atearam fogo ao parlamento nacional, e o ex-primeiro-ministro do país, K.P. Sharma Oli, foi forçado a renunciar.

Karki ainda não emitiu uma declaração sobre sua nomeação nem delineou sua política imediata. No entanto, a vizinha do sul do Nepal, a Índia, recebeu a notícia com satisfação.

“Sinceras felicitações à honorável Sushila Karki Ji por assumir o cargo de primeira-ministra do governo interino do Nepal. A Índia está totalmente comprometida com a paz, o progresso e a prosperidade dos irmãos e irmãs do Nepal”, escreveu o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, na plataforma X.

Durante o programa Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), afirmou que:

“Tem muita coisa não explicada nesse caso do Nepal. Como muita gente chamou a atenção, há várias características de revolução colorida, mas eu acho que também existem outros elementos que entram na mistura. No final das contas, se for de fato uma tentativa de liquidação do regime nepalês em favor do imperialismo, essa será a tônica dos acontecimentos. Não está muito claro se a coisa vai evoluir para isso.

O governo do Nepal foi extremamente improdutivo. É uma situação parecida com o caso do Brasil: eles estabeleceram a obrigatoriedade de as redes sociais se registrarem no país, como fez o STF brasileiro. O registro em si não é algo antidemocrático — afinal, as empresas estão operando no país e deveriam ter uma representação local. Só que, na medida em que esse registro não aconteceu, o governo colocou fora de circulação 12 redes sociais, todas as grandes, sem nenhum tipo de preparação. Foi uma política kamikaze. E daí veio o estopim da mobilização.

A mobilização rapidamente se transformou em movimento contra o regime, tendo como centro a questão da corrupção — o que já é muito suspeito. As fotografias que vemos do Nepal mostram muitas pessoas com cartazes escritos em inglês, outra coisa suspeita. Diversas organizações, não sei se locais ou financiadas do exterior, procuraram se mobilizar. Alguns inclusive acusaram o movimento de estar infiltrado por pessoas com atuação mais violenta. Queimar o palácio, por exemplo, parece não ser a orientação do setor mais tradicional do movimento. Também não dá para saber se esse setor que age de forma mais radical é uma infiltração de política imperialista ou não.

O que chama a atenção é que o Nepal fica entre a China e a Índia, em uma posição geográfica estratégica. Os dois países concluíram recentemente acordos, e isso aparece como uma coincidência suspeita. Uma liderança que emerge é a de um partido minoritário, cujo líder foi preso por denúncias de corrupção. Existe a versão de que essas denúncias foram forjadas contra ele. Agora ele aparece como possível líder do governo que pode se formar.

Mas, se for apenas a substituição do governo, os outros três partidos são mais fortes — juntos têm algo em torno de 80% do Congresso do Nepal. Parece estranho.

O mais significativo é que há um setor que defende a volta da monarquia, o que implicaria não apenas em mudança de governo, mas em alteração do regime. Só que restaurar a monarquia, nessa situação, é algo extremamente complexo.

Dá toda a impressão de ser uma revolução colorida, mas ainda sem muita objetividade. Parece mais um estágio inicial: manter as redes sociais, trocar o governo, para depois avançar a uma modificação maior.

Que há interferência do imperialismo, não pode haver dúvida.”

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