“Todo poder aos conselhos operários e estudantis!”, é o que dizem os fãs de Lênin no portal In Defense of Marxism. Para onde propõem a palavra de ordem que precedeu a Revolução de Outubro? Para Bangladexe. Logo percebemos que nossos companheiros da Internacional Comunista Revolucionária, representados no Brasil pela Organização Comunista Internacionalista, não são bons fãs do revolucionário russo quanto são imitadores que, se leram sua obra, ou não a entenderam, ou não passaram das primeiras páginas.
“As massas revolucionárias derrubaram [Sheikh] Hasina, pondo fim a seus 16 anos de governo brutal!“, diz o artigo. É certo que o governo nacionalista burguês de Hasina não tivesse os interesses dos trabalhadores bengalis em mente, mas temos dificuldade para localizar tanto as massas revolucionárias como os conselhos operários e estudantis aos quais nossos entusiasmados marxistas fazem referência.
Exceto caso estejamos muito mal-informados, a liderança dos protestos em Bangladexe é uma organização estudantil chamada Estudantes Contra a Discriminação (Students Against Discrimination, em inglês), que representa um estrato superior da juventude, estudantes universitários. As mobilizações que tiveram início no final de junho tiveram como estopim uma decisão do Suprema Corte bengali de restaurar um sistema de quotas em empregos públicos para as famílias dos guerrilheiros que lutaram pela independência de Bangladexe. O governo de Hasina, que havia derrubado essa lei perante protestos em 2018, procurou retardar o efeito da decisão da Corte, mas, sem sucesso, acabou levando crédito pela ação do judiciário. Os estudantes então se levantaram contra o governo de forma tão agressiva que, no início deste mês, delegacias de polícia eram alvo de incêndios e o aparato repressivo entrou em greve até que tivesse condições de segurança para atuar.
“Desde o fim de semana, os acontecimentos em Bangladexe têm se desenrolado na velocidade da luz. Estava claro que o dia de hoje [5 de agosto] representaria um confronto. No domingo, a polícia e o exército estavam hesitantes. Em alguns lugares, eles dispararam contra as massas, levando a outro dia sangrento em que mais de 90 pessoas foram mortas. Em outros lugares, eles ficaram parados ou recuaram. A cúpula do exército sabia que não conseguiria manter a linha por muito mais tempo. A qualquer momento, o exército ameaçava se dividir em pedaços”, diz o artigo saudando a suposta vitória popular.
Na sequência, os trabalhadores da indústria têxtil são saudados por sua adesão à “revolução” que se dá no país asiático. Acontece que a greve não aconteceu de fato. “Todo poder aos conselhos operários e estudantis!” transformou-se em “todo poder aos conselhos estudantis”, e apenas dos estudantes universitários da ECD, que se autoproclamaram líderes desse movimento com grande capacidade de violência. Tamanha era sua capacidade que intimidaram as forças armadas bengalis!
“Está claro que o chefe do exército Waker-uz-Zaman está tentando conduzir uma ‘transição ordenada’. Ou seja, o exército está tentando roubar a vitória do povo e garantir que o poder não caia nas mãos dos estudantes revolucionários e dos trabalhadores”, diz o artigo. Os militares, porém, ficaram paralisados diante dos estudantes e de sua palavra de ordem “Não queremos um governo militar, queremos um governo popular”.
A RCI então apontou a fórmula do sucesso para os “revolucionários” bengalis:
“O caminho a seguir já foi traçado pelo próprio movimento. Estudantes e trabalhadores demonstraram enorme capacidade de organização. Eles já começaram a criar comitês de luta em todo o país após a convocação dos coordenadores.
“Agora, a greve geral deve continuar, e a liderança deve instar as massas a estender os comitês para cobrir todos os locais de trabalho, todas as comunidades e todas as instituições de ensino. As bases do exército devem ser convocadas a formar seus próprios comitês, excluindo os oficiais, para que possam controlar as conspirações do exército.
“Esses comitês começariam imediatamente a substituir o domínio dos chefes nas fábricas e dos tribunais e da polícia localmente, libertando os companheiros que foram presos sem esperar por um mandado de um magistrado local nomeado pela Liga Awami”
Não sei se seguiram bem a receita, mas os estudantes desarmados misteriosamente impuseram uma derrota ao exército conspiracionista. O chefe do governo interino, escolhido pelos estudantes revolucionários, é Muhammad Yunus, banqueiro, ganhador de Prêmio Nobel da Paz por sua proposta de microcrédito e empreendedorismo, ou seja, sua proposta de endividamento da classe operária pela venda de ilusões. Um verdadeiro líder de um governo operário e popular!
Devemos reconhecer que os autores do artigo não poderiam prever esses acontecimentos no momento em que redigiam sua ode à “revolução bengali”. O desenlace foi surpreendente até mesmo para quem já conseguia ver a intervenção imperialista se desenrolando no país asiático em câmera lenta.
A política da RCI, se não a considerarmos um aponho velado ao imperialismo, é resultado da aplicação de fórmulas prontas para situações políticas diversas. É resultado de análise abstrata em que todo levante não apenas é progressista, como popular. Não se perguntaram onde estavam os trabalhadores bengalis que organizaram uma enorme greve por salário ao final de 2023 nesses protestos?
Segundo reportagem da agência de notícias britânica Reuters, a indústria têxtil bengali retomou suas operações extremamente lucrativas para as grandes marcas europeias e norte-americanas dois dias após a publicação do artigo da RCI.
A análise de classe foi totalmente deixada de lado pela organização que se reivindica do trotskismo, o que os colocou a reboque da política imperialista que organizou um verdadeiro escarcéu ao redor da situação em Bangladexe, da mesma forma como fazem agora com a Venezuela. E sobre a questão venezuelana, nossos marxistas revolucionários estão novamente com as massas golpistas.
O governo de Hasani, da Liga Awani, como dissemos, nunca teve as massas bengalis em mente. Ainda assim, recusou-se a oferecer seu território para a instalação de uma base norte-americana, bem ao lado da fronteira da China. A crise do imperialismo impõe aos ditadores globais uma política de controle de seus satélites e preparação para uma guerra contra aqueles países que ousam levantar a cabeça contra sua dominação, como China, Irã e Rússia. Antes de nos colocarmos ao lado de qualquer insurreição, precisamos determinar a que interesses essa insurreição atende, quais as classes sociais em ação e, somente então, formular uma política. Não podemos esperar através do pensamento positivo que nosso desejo de que a classe operária bengali estivesse envolvida nas mobilizações, precisamos constatar esse fato na realidade concreta.
Com o benefício do decorrer de pouco menos de uma semana, temos essa realidade: um governo de um banqueiro, com apoio dos militares que, ao não reprimirem os estudantes, chancelaram sua indicação. Será que os Estados Unidos finalmente conquistarão sua mais nova base militar ao lado da fronteira chinesa?





